Mercado

O brasileiro não recebe educação para o mercado de trabalho do futuro

João Luís Costa | 18 setembro 2017

O Brasil possui cerca de 46 milhões de estudantes, distribuídos entre os ensinos Básico, Fundamental 1 e 2 e Médio em escolas públicas e privadas. Desse total, cerca de 2,5 milhões entre 4 e 17 anos (6%) estão fora da escola. Já a maioria dos que estão matriculados e estudando não consegue fazer operações matemáticas simples, compreender bem textos em português ou alcançar os conhecimentos mínimos de ciência, de acordo com o último exame do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês) e isso pode comprometer a entrada desses jovens e crianças no mercado de trabalho do futuro.

Diversos empresários e especialistas apontam que num futuro muito próximo dezenas de postos de trabalho serão ocupados por robôs ou sistemas automatizados. Exemplo disso são os atendimentos de telemarketing e condução e cobrança de passagens em ônibus. Hoje, a figura do cobrador, em muitas cidades, é garantida ainda por força de acordos sindicais, pois existe tecnologia para substituí-los. Em relação aos motoristas, com a chegada de veículos autônomos, essa também é uma profissão que pode ser extinta, assim como a do profissional de telemarketing, já hoje substituído por atendimento robótico.

Os resultados do Pisa 2015 mostram que 70,25% dos estudantes de 15 anos que participaram do concurso não alcançaram a nota 2 (mínima) em matemática; 50,99% não obtiveram nota mínima na compreensão de textos em português e 56,6% não apresentaram conhecimento mínimo em ciências. Num futuro baseado em uso intensivo de tecnologias e conhecimentos de matemática, estatística e ciências, o jovem brasileiro, futuro trabalhador, encontra-se em forte desvantagem frente a outros povos do globo.

Mas além do fato de esses jovens terem grande dificuldade em ingressar e acompanhar um bom curso superior, a baixa produtividade desses futuros trabalhadores vai impactar diretamente outras áreas nacionais, como a Previdência Social. Estudo da McKinsey estima que, em 2001, cerca de 10 pessoas suportavam cada um dos aposentados do país com suas contribuições. Em 2021, a empresa estima que seis trabalhadores ativos darão conta do pagamento a cada um dos aposentados e, em 2051, apenas três adultos no mercado de trabalho serão responsáveis pela contribuição previdenciária. Nesse sentido, ou muda-se o sistema de previdência ou aumenta-se rapidamente a produtividade do trabalhador brasileiro.

Educação e produtividade
O custo por estudante, estimado em US$ 3,8 mil por aluno do ensino Fundamental, está bem abaixo da média da dos países da OCDE, de acordo com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Mas o baixo investimento não explica, por si só, resultados tão pífios. De acordo com o economista Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília, há uma forte correlação entre nível de educação e produtividade e o Brasil encontra-se em uma situação complicada. “Países com PIB per capita menor que o nosso, como o Vietnã, obtiveram resultados melhores que os nossos em todas as áreas. Na América Latina e Caribe só três países ficaram atrás do Brasil”, analisa. Para Ellery, existem dois motivos principais para que países alcancem bons indicadores de produtividade. Um deles é a poupança interna. “Na China é de 40%”, dá como exemplo. E a segunda é a infraestrutura. “Lá existe uma infraestrutura robusta. Aqui, precisamos de leis claras e segurança jurídica para avançar nisso”, avalia.

Outro problema é a força dos sindicatos dos professores, que, segundo Ellery, impedem avanços significativos na forma de ensinar e, com isso, reduzir nossa deficiência educacional. “Há muita resistência a novas técnicas de ensino. Incentivos a professores cujas turmas vão bem, ok. Para os que as turmas vão mal, precisam se explicar”. Mas, para o economista, o principal entrave nessa área é que o país não consegue discutir o que quer da educação, nem o que quer ensinar. “Não temos estratégias. Tivemos o espetáculo da criação de faculdades públicas, mas isso não teve reflexo no ensino em geral. Temos nichos de excelência, em algumas escolas técnicas, muito pontuais”, afirma.

As críticas à maneira como o país conduz sua política pública de educação encontram eco dentro do próprio Ministério da Educação e Cultura (MEC). Para Ivan Siqueira, vice-presidente da Câmara de Educação Brasileira do Conselho Nacional de Educação (CNE), um dos problemas é que o país “chegou ao século XXI sem conseguir democratizar a educação de qualidade”, apesar das diversas mudanças implementas nos últimos anos e, mais recentemente, a reforma do Ensino Médio, aprovada este ano e que será colocada em prática a partir do ano que vem. Apesar de se dizer confiante e esperançoso, o conselheiro não informou nenhuma iniciativa para tornar nossos jovens mais preparados para o mercado de trabalho do futuro e acredita que, nesse cenário de mudanças, o que será necessário é estimular o aluno a desenvolver a “capacidade de aprender continuamente”. “As inovações mais recentes e, sobretudo aquelas relacionadas à inteligência artificial ainda são motivo de perplexidade mesmo nos países desenvolvidos”, afirma.

Inciativa privada
Enquanto o MEC permanece perplexo, algumas iniciativas empresariais e da sociedade tentam minimizar os efeitos negativos da falta de conhecimento e educação brasileiros. Para Ric Scheinkman, CEO da Harpia Capital, empresa de consultoria financeira, uma das soluções é tornar São Paulo um hub de excelência tecnológica e, com isso, atrair cientistas e professores para a cidade, estimulando o desenvolvimento tecnológico e de ensino para atender as necessidades das empresas que forem criadas aqui. “Temos que ter algo parecido com o MIT, que entendeu, dez anos atrás, que o papel do professor não é mais o mesmo que era, e hoje é um curador de informações”. E cita como exemplo o Insper, faculdade de economia, administração e engenharia, onde todo ano esse último curso sofre alterações em sua grade curricular para acompanhar as mudanças tecnológicas e oferecer um aprendizado mais próximo à realidade do mercado de trabalho.

Para o executivo, alcançar esse objetivo de gerar um centro acadêmico no modelo STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês) é fundamental para que o Brasil passe a oferecer algum atrativo a profissionais da área de exatas que, hoje, mudam-se para outros países em busca de melhores condições de trabalho e pesquisa. Segundo Scheinkman, a parceria com o governo é parte desse processo na implementação de uma grade curricular nacional que permita desenvolver potencialidades e, assim como o professor Roberto Ellery, reconhece que existem centros de excelência em alguns pontos do país, mas que são insuficientes para dar sustentação a um crescimento da qualidade e produtividade do futuro trabalhador brasileiro.

Scheinkman acredita que um modelo possível seria um conselho de cientistas notáveis responsável por determinar a direção do desenvolvimento tecnológico e de pesquisa básica no país, como ocorre em Israel. “Lá, esse conselho elege um Cientista Chefe do país, com mandato de dez anos. É um cargo de Estado, não de governo, e ele e sua equipe falam para onde o país deve caminhar para se manter na liderança tecnológica. Assim, empresas, escolas, faculdades e governos têm tempo para se preparar”. O resultado dessa política foi que, em 2016, Israel recebeu US$ 5 bilhões em investimentos, sendo 86% de capital estrangeiro, para financiar startups israelenses, por exemplo. E não podemos esquecer que, desde sua fundação, 70 anos atrás, cientistas, escritores e políticos israelenses já obtiveram 11 prêmios Nobel em diversos campos das ciências e humanidades. Aqui, 500 anos não foram suficientes para nenhum.

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