Tecnologia

Peixe transgênico pode dar origem a remédios e vacinas

Sonia Nabarrete | 7 novembro 2017
proteínas
Fernanda Tonelli, da UFMG

A bioquímica Fernanda Tonelli desenvolveu uma técnica para obter proteínas recombinantes, hoje importadas e usadas no tratamento de várias doenças, a partir de um peixe, a tilápia do Nilo, geneticamente modificado. Ela é uma das sete cientistas brasileiras contempladas este ano com o Prêmio Ciência para a Mulher, em sua edição nacional. O reconhecimento, criado em 2006, é concedido pela L´Oréal do Brasil, Unesco Brasil e Academia Brasileira de Ciências, para promover o equilíbrio de gêneros no cenário científico.

Com o prêmio, a cientista ganhou R$ 50 mil reais, que serão aplicados no desenvolvimento da sua pesquisa, e visibilidade para conquistar incentivos e parcerias, visando à futura aplicação comercial da tecnologia. Seu projeto promete impactar a saúde e também a economia no Brasil.

“Será uma tecnologia nacional e, com uma simples adaptação nas construções de DNA, pode permitir a geração não só de hormônio do crescimento (GH) humano, mas também de insulina, lactase, anticorpos e outras proteínas de interesse econômico”, conta a cientista. Ela explica que além de proteínas para uso na saúde humana, inclusive produção de vacinas, também poderá obter outras, para uso veterinário e industrial.

“Nosso país – explica a pesquisadora – é ainda muito dependente da importação de proteínas recombinantes. Produzem-se poucas no Brasil e quando destinadas à saúde humana, como o hormônio de crescimento, a importação acaba acarretando grande custo para o Sistema Único de Saúde, visto que são produtos de valor final considerável devido, principalmente, ao custo do processo de purificação industrial”.

A ideia da Dra. Fernanda é alterar o DNA da tilápia do Nilo, de forma que o peixe produza a proteína de interesse e a libere na urina. A coleta será feita a partir de filtração da água do tanque com filtros especiais ou indução de liberação da urina pelo animal através de massagem, seguida de coleta. A técnica permitirá redução de custo no processo e resultará em um produto final mais barato para o consumidor. “E tudo isso sempre visando à segurança do processo e minimizando possíveis impactos na saúde do peixe reator”, frisa a cientista.

Natural de Divinópolis, Minas Gerais, ela sempre teve interesse por DNA. As tilápias do Nilo transgênicas já estavam presentes em seu trabalho de graduação em Bioquímica, na Universidade de São João Del Rei, com orientação do prof. Rodrigo Resende. O projeto surgiu em parceria com o prof. Luiz França e sua então residente, a pós-doutora Samyra Lacerda (hoje, professora da UFMG). Depois, prosseguiu no mestrado e no doutorado, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com orientação de Resende e Samyra Lacerda.

“Durante o mestrado e início do doutorado, pude trabalhar com nanomateriais (nanotubos de carbono, nanoóxido de grafeno, nanodiamantes, nanorods de ouro e nanocompósitos de fosfato), como alternativa interessante de entregar, com eficiência, DNA a estas células de tilápia. Isto foi possível graças à parceria com o professor Luiz Ladeira, do Departamento de Física da UFMG, e professor José Dias, da mesma universidade. Este trabalho conduziu ao depósito de seis pedidos de patente relacionados à síntese e funcionalização destes nanomateriais, e seu uso para a entrega de ácidos nucléicos, como o DNA”, lembra Dra. Fernanda.

Para comercializar os nanomateriais desenvolvidos e as proteínas recombinantes a serem geradas a partir de tilápias do Nilo, a cientista cofundou a startup Nanocell, que participa dos programas Biostartup Lab (Biominas Brasil), Lemonade (edição UFMG) e Inovativa Brasil. “A startup nos possibilita tanto prospectar parceiros de desenvolvimento, quanto tentar reunir o capital necessário para um dia chegarmos a produzir proteínas (como o hormônio de crescimento) comerciais para aplicação em saúde humana”, conta a cientista.

Segundo a editora Elsevier, as mulheres são hoje autoras de quase a metade dos artigos científicos publicados, mas Dra. Fernanda diz que esta proporção não é vista no quadro de pesquisadores e professores em centros de pesquisa e universidades, especialmente nos cargos de liderança. “As contribuições de mulheres na ciência são reais, importantes e cruciais ao avançar no processo de construção do conhecimento. No entanto, necessitam maior reconhecimento. O preconceito com a mulher necessita ser combatido, e não só na academia, mas na sociedade como um todo. Coincidentemente ou não, o Nobel deste ano não agraciou nenhuma mulher. E não foi por falta de candidatas com projetos brilhantes desenvolvidos ao longo de anos de muita dedicação e trabalho”, afirma.

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