De motorista de Uber a programador?

Accenture discute com clientes pagamento para pessoas se requalificarem em tecnologia. Democratização de conhecimentos na área é tendência, segundo estudo da consultoria

Publicado em 5 de março de 2021

A Accenture está discutindo com alguns clientes a possibilidade de pagarem para que profissionais se requalifiquem em áreas de tecnologia com demanda crescente no mercado. De acordo com Paulo Ossamu, líder de tecnologia para a América Latina da consultoria, a ideia vem da constatação de que a falta de mão de obra pode travar o processo de transformação digital e de inovação nas empresas. “Como eu consigo pegar um motorista do Uber, por exemplo, e qualificá-lo para que possa vir trabalhar com tecnologia?”, afirma.

O problema não é exclusivo do Brasil. Mas o país é particularmente sensível a ele. Em parte porque o ritmo de formação de profissionais é menor que o de abertura de novas vagas na área. Em parte porque, com a pandemia, a desvalorização do real e a popularização do trabalho remoto, a situação foi agravada pelo assédio de empresas estrangeiras aos talentos locais, diz Ossamu. “O limite do crescimento está na mão de obra”, afirma.

Com o processo de transformação digital em ritmo acelerado, a democratização da tecnologia é uma das grandes tendências para o ano, segundo o recém divulgado estudo Tech Vision 2021, elaborado pela Accenture. Para 86% dos mais de 6,2 mil executivos entrevistados pela consultoria, em 31 países, as empresas que quiserem inovar mais vão precisar capacitar seus trabalhadores para que sejam capazes de customizar soluções tecnológicas em nível individual, usando ao menos conhecimentos básicos da área. “Estamos chegando a um estágio em que não se constrói mais a tecnologia, a gente só se pluga ou faz parcerias. Há ferramentas e facilidades para que isso aconteça. Mas como fazer com que as pessoas entendam e usem essas soluções é o desafio”, diz Ossamu.

A requalificação remunerada de profissionais seria uma forma de minimizar ainda um dos maiores problemas gerados pela tecnologia, o desemprego. “Em 2017, o país não tinha nenhum unicórnio. Hoje, temos mais de 15. Há uma guerra de talentos. Vamos precisar de muita gente. Temos muito dinheiro vindo de fora e todas essas empresas digitais estão procurando profissionais”, diz o consultor. “Por outro lado, a tecnologia vai causar  demissões. Cerca de 80% dos processos nas empresas vão ser automatizados. Como requalificar essas pessoas em tecnologia para suprir essa demanda de profissionais? Como pagar a esse cara um salário para ele voltar ao mercado em tecnologia?”, afirma.

Outras tendências apontadas pelo Tech Vision 2021: 

Fundamento com estratégia. A definição de estratégias empresariais vai passar cada vez mais por tecnologia, afirma Ossamo. E vamos ver cada vez mais empresas usando a tecnologia para redefinir o próprio negócio, diz. Uma boa referência do que isso significa é a Amazon. A companhia começou como varejo online, até que percebeu a oportunidade de ganhar com a venda de espaço livre e serviços em seus servidores. “Hoje, a AWS, a divisão de serviços na nuvem, é o maior negócio da Amazon”, afirma o consultor da Accenture.   

Mundo espelhado. A convergência de tecnologias como IoT, web 2.0, computação na nuvem, 5G e outras, começa a permitir a simulação de situações complexas em ambiente virtual que espelha o real. Com isso, será possível, por exemplo, acelerar o tempo e antecipar problemas, ou treinar os executivos e trabalhadores para que possam responder melhor a problemas reais, como ciberataques. É mais ou menos o que a indústria  automobilística já faz ao simular colisões em ambiente virtual para avaliar fragilidades dos automóveis e melhorar as condições de segurança, ilustra Ossamo. “Imagine isso para uma empresa, para uma cadeia de suprimento, para testar o que está acontecendo, fazer simulações. Pegar um ciclo de desenvolvimento de produtos e testá-lo de forma virtual”, diz. 

De qualquer lugar, em todos os lugares. A rápida adoção do trabalho remoto trouxe novas questões para as empresas. Se antes o desafio era como levar o próprio celular para trabalhar na empresa, agora é como levar o seu ambiente de trabalho para casa. Se antes se dizia que para trabalhar de forma ágil era preciso que todos estivessem na mesma sala, hoje sabe-se que as empresas continuaram a fazer isso de forma remota, sem maiores prejuízos. Ao mesmo tempo, a competição por talentos tornou mais urgente a definição de estratégias de atração e retenção. “A definição de como vai ser o trabalho no futuro se tornou mais complexa”, diz o consultor da Accenture. “O desafio aqui não é mais apenas como trabalhar de casa, mas como liderar de casa”.  

De mim para nós. As plataformas da economia compartilhada vêm gerando uma série de oportunidades de trabalho colaborativo, mas também demandam novos modelos de gestão, em geral de alta complexidade. Um exemplo usado por Ossamo é o de Airbnb. É cada vez mais comum que o dono do imóvel disponibilizado para aluguel não seja o administrador da relação entre locatários e a plataforma. É comum que estejam envolvidos trabalhadores de limpeza e manutenção também. Então, é como se, em cada momento, houvesse uma espécie de “transferência da gestão propriedade”, diz o consultor. E, por trás dessa relação, há também uma movimentação de valores. Como criar essas trilhas de sistemas de trabalho colaborativos e multidisciplinares? Como proporcionar maior segurança e resiliência aos usuários em um sistema complexo como esse? São questões em aberto, que tendem a ser atacadas ao longo do ano, afirma Ossamo. “Hoje, não existe instituição que saiba resolver a complexidade desse modelo de negócio baseado em economia compartilhada”, afirma. 

Texto: Dubes Sônego

Imagens: Unsplash e JPLay