O dia em que a favela venceu

O dia em que a favela venceu

As lições de Kondzilla, o jovem da periferia que se transformou no produtor fenômeno do YouTube brasileiro.

Publicado em 9 de setembro de 2019

Nomeado um dos 100 afro-descendentes mais influentes pela ONU (Organização das Nações Unidas), Konrad Dantas é um fenômeno. Inteligente, visionário, tecnológico. Tem 1,7 milhão de seguidores em seu perfil pessoal do Instagram e números para lá de estratosféricos nas multiplataformas da Kondzilla, holding que virou uma referência brasileira na produção de comunicação audiovisual.

Dos 10 vídeos mais assistidos no Brasil no ano passado, cinco foram produzidos pela Kondzilla. “Somos o maior canal de música no YouTube hoje, com mais de 25 bilhões de visualizações e 51 milhões de inscritos”, contabiliza. Ele supera os canais de Whindersson Nunes e Felipe Neto.

Kondzilla atinge 24% da população brasileira e 42% de usuários únicos do YouTube no Brasil.

E isso não é tudo. A sua produtora de audiovisual – leia-se videoclipes – é apenas um pedaço do negócio, composto ainda por portal de conteúdo, agenciamento de artistas e até mesmo filme publicitário. Até a Netflix se rendeu em uma parceria com a Kondzilla, que resultou no lançamento da série Sintonia (imagem, no alto).

Hoje, Dantas emprega 400 pessoas. Um cenário inimaginável há cerca de uma década, quando a mãe do jovem de 18 anos crescido na periferia do Guarujá morreu. Com o seguro de vida que ela deixou, quase comprou um apartamento que ela sonhava ter de frente para a praia, mas foi racional o suficiente para perceber que os custos de manutenção do imóvel seriam um problemão para se resolver com seu salário de webdesigner de R$ 913 por mês.

Foi então que ele resolveu usar o dinheiro para estudar cinema. Essa combinação de garra, talento e visão surpreendeu os grandes líderes empresariais presentes no CEO Fórum Brasil 2019, evento promovido pelo Experience Club, de 5 a 8 de setembro, no Tivoli Ecoresort Praia do Forte, Bahia.

Kond, Kondzilla ou “Monstro dos Videoclipes” palestrou por quase uma hora para mais de uma centena de CEOs. Das muitas lições que ensinou, uma vale a reflexão.

“O importante é o conteúdo que a gente vai fazer e não o recurso. Se a gente não fizer, alguém vai fazer”, alertou o jovem que se tornou empresário de 60 artistas do funk.

Inicialmente, Dantas não fez o que queria, mas o que julgava ser inteligente. “Nunca tive vontade de virar empresário de artista. Só que daí pensei comigo: qual minha matéria prima? Música. Como virar dono da música? Cuidando de artista, de direitos da música e da sincronização das músicas dentro dos meus conteúdos. Como prestador de serviços, minha ideia nunca foi ganhar dinheiro, mas imprimir a marca Kondzilla em todos os lugares que pudesse. Isso daria visibilidade à Kondzilla Records. Os artistas passaram a gostar e a pedir para serem gerenciados por mim”, recorda.

E foi assim que o jovem visionário passou a agenciar Mc Lan, Lesha, Kekel. Em paralelo, em seu canal no Youtube há mais de 400 artistas veiculados. Cerca de 70% dos acessos vêm do Brasil, mas o restante é assistido de Portugal, México, Argentina e Colômbia. Em dezembro de 2017, Kondzilla foi o segundo canal mais assistido do YouTube no mundo. “E quanto mais audiência melhor para os artistas, que recebem mais convites para shows e ganham cachê maior.”

Seu crescimento, contou, não foi a qualquer custo. Em determinado momento, o jovem empreendedor percebeu que era hora arrancar todos os palavrões, as armas e as referências à objetificação do corpo nos vídeos.

“Paramos de filmar mulheres com saída de banho ou calcinha.”

O portal de conteúdo que lançou também visa retratar o lifestyle do jovem da favela a partir de vídeos que abordem música, dança, bastidores, diversidade, empreendedorismo, educação sexual, beleza, moda e tecnologia. “A gente conseguiu romper a bolha da favela, a bolha do funk e, hoje, atinge esse ambiente e outros lares”, conclui.

Texto: Françoise Terzian

Imagens: Marcos Mesquita e Reprodução