O não você já tem, então vá à luta

O não você já tem, então vá à luta

A história empreendedora de Wilson Poit

Publicado em 16 de abril de 2020

Ideias centrais:

1- Apesar de tímido e desengonçado, Wilson Poit se deu bem na escola em Rinópolis. Ficou bom em história, ciências, até português e, sobretudo em matemática. Fazia contas complicadas de cabeça. Em São Paulo, entrou na FEI, cursando engenharia elétrica, com especialidade em eletrotécnica.

2-Quando era engenheiro na Refinações de Milho, Brasil, Wilson vislumbrou a chance de ter um negócio próprio. Fundou a Engewisa com o antigo patrão na Technique, Roberto dos Santos. Roberto era o pilar técnico, Wilson desenhava projetos de instalações elétricas e buscava novos negócios.

3-Solicitado a trazer um gerador para um show da banda Double You, na casa de espetáculos Ilha de Capri, em São Bernardo, Wilson viu o serviço de aluguel de gerador muito mal feito. “Eu posso fazer melhor”: nascia a semente de um grande empreendimento, a Poit Energia.

4-Cena cinematográfica: a filial da Poit Energia no Chile tinha de levar um gerador até o alto de montanha gelada. Nenhum caminhão conseguia subir até lá. Wilson alugou quatro vacas para levar gerador e diesel até o topo, em trajeto de quatro horas de duração.

5-Wilson Poit vendeu a Poit Energia para a Aggrekko, líder mundial em aluguel de geradores, por 190 milhões de dólares (940 milhões de reais hoje), em 2012. Após o bom desfecho, Wilson colocou-se a serviço da administração pública: trabalhou em secretarias municipais para os prefeitos Fernando Haddad e João Doria.

Sobre os autores:

Wilson Martins Poit é empreendedor brasileiro nascido na zona rural de Osvaldo Cruz, Estado de São Paulo. Criou a Poit Energia, que se tornou uma estrela no mercado e caso de estudo de institutos nacionais e internacionais.

Luís Colombini é jornalista e escritor. Trabalhou em revistas, como Veja, Você S/A e Forbes. É autor de Aprendi com meu pai e das biografias de Gustavo Kuerten e Mauricio de Sousa.

NO MEIO DO NADA

Quando Wilson Poit nasceu, em outubro de 1958, seus pais moravam no meio do nada, na zona rural de Osvaldo Cruz, no interior de São Paulo, perto de Presidente Prudente, cerca de 560 quilômetros distante da capital. Eles haviam se casado em 1955, ele, com 22 anos, ela com dezenove. Foram morar no sítio de um tio e ali ajudavam a cultivar café em troca de um percentual da colheita. Poucos anos depois, os pais de Wilson se mudaram para uma fazenda vizinha, onde Wilson nasceu. Era um lugar grande, com sede e escolinha, armazém, boteco e campo de bocha. Seu pai soube que ali estava à venda uma pequena máquina de beneficiamento de arroz e a comprou. Beneficiamento é o nome técnico para tirar a casca do grão de arroz e deixá-lo com a aparência atraente para o mercado.

Quando tinha quatro ou cinco anos, época em que começaria a frequentar a escolinha da fazenda, seus pais se mudaram de novo. A família estava progredindo. Com o dinheiro do arroz, seu pai se tornou proprietário de uma lavoura de 14 mil pés de café numa área de cerca de dez alqueires, equivalente a catorze campos de futebol, em Osvaldo Cruz.

Nos onze anos em que Wilson morou na zona rural de Osvaldo Cruz, nunca houve energia elétrica em sua casa, ou seja, ele mal sabia da existência de eletrodomésticos. Nunca tinha visto lâmpada, televisão, rádio, geladeira. A iluminação noturna vinha de lamparinas a querosene. No tempo da mudança e nos anos seguintes, o preço do café estava bom, mas depois baixou demais, o que levou os pais de Wilson a procurar outras atividades.

Na primeira oportunidade, aos 36 anos, Wilford, pai de Wilson, se desfez do sítio em que mantinha o cafezal, os animais, o pomar e a casa. Trocou-o por uma máquina de beneficiamento de arroz na cidade de Rinópolis, a dezoito quilômetros de Osvaldo Cruz. E assim a família se mudou da zona rural para uma cidade de verdade, com 16 mil habitantes, ruas, casas, carros, praça, igreja, prefeitura, banco, comércio, energia elétrica e novidades, como fogão a gás, papel higiênico. Era a chamada civilização.

HUMILHAÇÃO E IMPOTÊNCIA

Wilson morou dos onze aos dezesseis anos em Rinópolis. Nesses seis anos, não sorriu muito. Além de tímido por vocação e índole, ele tinha muita vergonha, muitos complexos. “Cresci rápido, aos quinze anos já tinha quase 1,80 m de altura. Fiquei alto, magricela, desengonçado. Meus dentes incisivos eram bem inclinados para fora. Quando meu pai foi informado de que aquilo era fácil de arrumar com o uso de aparelho, ele desdenhou e disse que não, que daquele jeito estava bom, que eu ficava até bem com cara de tubarão. Então, eu não sorria”, confessa Wilson.

Em Rinópolis, ele ainda não sabia que todo mundo tem pelo menos um talento, uma característica determinante, o tal do ponto forte que deve ser explorado para que você consiga sair do atoleiro e ocupar o seu lugar na vida.

Na escola, Wilson, gostava de estudar. Ficou bom em geografia, história, ciências, até português e, sobretudo, matemática. Fazia contas complicadas de cabeça, não errava equações.

Em Rinópolis, a casa da família, a máquina de beneficiamento e o mercado, no qual o pai oferecia seu produto ao público ficavam no mesmo terreno. Com o tempo, o pai acrescentou a venda de feijão e batata. O pai, Wilford, repassou a venda de batata para Wilson e seu irmão Edson, ficando a margem do lucro para os filhos. E esses começaram a ter gosto pelo dinheiro. Passaram a vender também sorvetes. Com o dinheiro ajuntado, compraram uma espingarda de pressão. Era um tal de acertar latas e outros alvos. Sai da frente, que é perigo.

Para encaminhar Wilson ao futuro, Wilford matriculou-o numa escola da datilografia. O professor de história soube e contratou-o para datilografar o programa das aulas do ano todo, que ele precisava mandar para a delegacia de ensino de Presidente Prudente. O pai, no entanto, apesar desse progresso, continuava muito bruto com o menino. Wilson resolveu ir para São Paulo. Aos dezesseis anos, foi à capital numa viagem com a mãe. Entrou num cursinho de vestibulares, o Anglo. O pai aceitou pagar as mensalidades.

O “MAISMIÓ”

No início, Wilson sonhava em ter seu próprio sítio com plantações, pomar e animais. Mais tarde na adolescência, seus horizontes mudaram. Inspirado pelas viagens que fazia com seu pai, quis ser caminhoneiro. Já em São Paulo, tirou carteira de motorista, aos dezoito anos. Não sabia bem ao certo o que faria, que profissão tomaria. Mas, com a habilitação profissional, podia dirigir caminhões. Nas férias que passava em Rinópolis, ia de caminhão, sem o pai, buscar arroz em Mato Grosso ou botijões de gás em Bauru.

Em 1976, foi morar em Santo André. De lá vinha de trem e metrô até o Anglo, na Liberdade. Como era bom em matemática, não quis saber das turmas de humanas ou biológicas. Optou por exatas. Depois de hesitar em física escolheu fazer faculdade de engenharia. Prestou vestibular na FEI, de São Bernardo. Acabou passando e se inscrevendo.

Depois de dois anos básicos, tinha que optar por uma especialidade: mecânica, química, eletrônica etc. Wilson se encaminhou para engenharia elétrica e nesta escolheu a eletrotécnica. A hidrelétrica de Itaipu inspirava sonhos… No quarto ano, entrou num processo de seleção da Peterco e ficou em primeiro lugar, entrando como estagiário. Quando a Peterco, depois absorvida pela Phillips, extinguiu o estágio, um colega e seu pai o encaminharam para ser admitido na Technique, de projetos de engenharia. Foi registrado com engenheiro júnior, Wilson sentiu o gosto do sucesso.

UM TELEGRAMA INESQUECÍVEL

Wilson fazia todos os cálculos de instalação elétrica à mão, desenhando em folhas de papel vegetal estendidas na prancheta. Durante dois anos, contando estágio e efetivação, trabalhou com entusiasmo na Technique. Um colega da firma deu-lhe uma dica.

A Eplanco, na qual o colega prestava trabalhos como colaborador, precisava de alguém para criar e comandar o departamento de eletro-hidráulica. Em dezembro de 1982, Wilson Poit foi trabalhar na Eplanco, deixando a Technique. Um dos três sócios da Eplanco, Paulo Humberto, levava Wilson para reuniões com clientes. Quando esse diretor não podia ir a reuniões, ele fazia o seu papel.

Wilson descobriu que tinha vocação para vendas e empreendedorismo. Quando visitava uma empresa, como o Bradesco, para instalação elétrica numa agência em Botucatu, saiu de lá com duas outras encomendas, instalações de agências no Pará e no Maranhão.

Em outra ocasião repetiu a façanha com as Lojas Pernambucanas. Em 1985, Wilson respondeu a um anúncio, no Estadão, da Refinações de Milho, Brasil. Uma multinacional: iria ganhar 50% mais de salário, afora o ganho no currículo. Os diretores de Eplanco lamentaram, mas lhe deram oportunidade de fazer projetos extras nas horas vagas, o que Wilson aceitou. Nesse ínterim, no decorrer da rotina na Refinações, as Casas Pernambucanas falavam com Wilson sobre mais projetos de instalações elétricas.

Wilson sentiu que a chance de ter um negócio próprio estava se aproximando. Entrou em conversação com o antigo patrão seu da Technique, Roberto dos Santos Rodrigues. Ambos decidiram abrir empresa própria. A resistência da família e dos amigos foi muito forte. Deixar a Refinações de Milho por uma empresa própria, um absurdo. Mas Wilson foi em frente, recebendo parabéns de seu pai, pela primeira vez, através de um telegrama.

QUATRO TIROS N’ÁGUA

Qual o nome para a nova empresa? Depois de várias possibilidades. Wilson e Roberto chegaram ao seguinte nome: Engewisa – “Enge” de engenharia, “wi” de Wilson e “sa” de Santos. Começaram numa salinha apertada da Rua Frei Caneca, junto com a secretária Andréa e três pranchetas. Roberto era o pilar técnico da Engewisa, o atestado de credibilidade e de confiabilidade do escritório. Wilson, o pau para toda obra: fazia cálculos, desenhava projetos de instalações elétricas, supervisionava obras. Mas, sobretudo, ia atrás de novas obras, de novos negócios, exercitando seu talento recém-descoberto de vendedor.

Como seu pai o ensinou, Wilson começava cumprimentando com aperto de mão firme, olhava nos olhos, falava sempre com confiança, simpatia e segurança, dando a impressão de que não havia desafio ou problema na terra que não pudesse resolver. Em pouco tempo, novos clientes foram se somando às Casas Pernambucanas. Tiveram que alugar uma casa mais ampla: na Rua Rocha, Bela Vista.

Após vários anos de trabalho conjunto, Wilson começou a ter algum desentendimento com o sócio Roberto. Após muitas hesitações e adiamentos, ele propôs a compra da parte de Roberto. Em boa paz. A Engewisa passou a ser Poit Engenharia. Nesse ínterim, no decorrer da rotina da Engewisa, Wilson e Roberto tentaram montar uma firma de materiais de construção. Pouco resultado e muito aborrecimento. Desmontou-se a empresa. Ninguém a queria.

Depois da loja, sem sócios, Wilson montou uma transportadora na Vila Maria, especializada em carregar cabos de cobre. Chamava-se TWI. Wilson superestimou os contatos. O lucro era ínfimo. Além do mais, descobriu que ninguém fazia seguro de transporte. Conclusão: negócio furado e fechado. Wilson ainda se aventuraria em mais dois negócios: a fazenda Xapuri, com 450 cabeças de gado, e o Pantanal, com quatrocentos pés de manga Háden. A gerência dos dois negócios rurais ficou a cargo do pai, que seguia seu faro, e não regras de produtividade e eficiência. O problema não era só de administração, mas também de escala. Quando Wilson precisou de capital para investir em outro negócio, se desfez dos dois sítios.

Capítulo 6 – “Parabéns, você fez tudo errado”

“Putz, mas que porcaria de serviço. Eu consigo fazer muito melhor do que isso.” Essa frase insignificante, marota, mudou o rumo dos negócios de Wilson, deu-lhe a coroa de seus esforços. Tudo isso ocorreu num dos serviços da Poit Engenharia. No quilômetro 28 da Via Anchieta, funcionava o Ilha de Capri, uma casa noturna muito badalada em São Paulo. Em 1995, Carlos, um dos sócios, quis fazer algumas mudanças para deixar a casa mais segura. Wilson foi chamado para fazer a parte elétrica. Ele foi a São Bernardo, trocou a fiação, aumentou a potência dos disjuntores, melhorou a sistema de luzes. Também fez a instalação de um gerador de emergência, que serviria para a danceteria. Deixou tudo em perfeito funcionamento.

Um ano depois da reforma, Carlos chamou Wilson novamente. O Ilha de Capri fizera a contratação do Double You, banda italiana que fazia sucesso no Brasil. Carlos teve então a ideia criar um espaço livre, no vasto estacionamento da danceteria. A Poit Engenharia cuidaria da parte elétrica, iluminação, holofotes para inaugurar o lugar. Mas havia um detalhe. Era preciso colocar um gerador para evitar queda de energia durante o famoso show. Uma queda seria um desastre.

Wilson não conhecia nada de gerador, mas ele nunca dizia não. Com os funcionários da Poit, acabou descobrindo aluguel de um gerador potente, com pouco ruído. Dois dias antes do show, com a iluminação montada, com tudo preparado para o espetáculo, o gerador chegou.

O motorista que o transportara só indicou o gerador, cruzando os braços. A aparência do gerador era desanimadora, suja, oleosa. Não havia diesel de reserva. A turma da Poit teve que correr atrás de diesel. O cabo do gerador não chegava até o palco. A Poit teve que providenciar. A conclusão era uma só: trabalho de meia-boca. Foi então que Wilson pensou: “Putz, mas que porcaria de serviço. Posso fazer coisa melhor”. O show foi um sucesso. Não faltou energia. O dono do gerador ganhou dinheiro, sem sequer ligar a máquina.

Pensamento de Wilson: “E se eu alugasse geradores”? Durante quase um ano inteiro, a ideia ficava fervilhando na cabeça dele. Em outubro de 1996, Wilson, com 38 anos, foi ao Salão do Automóvel, em São Paulo. Num dado momento passou no estande da Kia. Além da Besta, a companhia estava trazendo ao país pequenos caminhões como o Bongo e o K 3600. Nesse instante, Wilson se viu diante de um caminhãozinho ideal para acomodar um gerador. O modelo k 3600 aguentava quatro toneladas de carga, ao passo que o gerador do show do Double You pesava entre duas e três.

Agora que Wilson tinha o caminhão, faltava o gerador. Depois de pesquisas junto a fabricantes, Wilson acabou se decidindo por um da marca Leon Heimer, fabricante de Recife, com potência de 180 KVA, segurando mais de seis horas de show. Mais uma vez os amigos não aprovaram a decisão. Diziam: “Parabéns, você conseguiu fazer tudo errado. Comprou um caminhão coreano, sem assistência técnica por aqui, e um gerador importado, sem peça de reposição”.

COMO NASCE UMA EMPRESA

Depois de muitas embromações, a Kia entregou o caminhão encomendado. Muito bem. Essa parte estava cumprida. E o gerador? Depois de meses da entrega do caminhão, o gerador finalmente chegou. Não era só colocar o equipamento em cima do caminhão e sair por aí. Era imprescindível fazer adaptações na caçamba, modificações de segurança etc.

Contudo, alugar gerador fazia o maior sentido para Wilson Poit. O Brasil entrara no roteiro internacional de shows. Casas de espetáculos faziam muito sucesso. Danceterias lotavam com atrações musicais. Parques promoviam apresentações gratuitas de fim de semana. Ninguém queria ficar no escuro na melhor parte da brincadeira. O outro lado da moeda: não se poderia prestar uma droga de serviço como a da firma que Wilson chamou para o show do Double You. Em vez de máquina gordurenta, uma limpa. O tanque de combustível já iria cheio, com estoque de reserva, com cabos e conectores instalados. Em resumo, a Poit ou empresa criada para isso ofereceria serviço completo. Em vez de aluguel de gerador, a firma estava oferecendo “locação de infraestrutura de energia”.

Depois de muitos fax para casas noturnas e promotores de eventos, passaram-se quase dois meses com o gerador e o caminhão parados. Até que, pelo final de fevereiro ou março de 1998, o telefone tocou na Pit Engenharia. No outro lado da linha, estava um funcionário da fábrica de embalagens Dixie Toga, depois comprada pela americana Bemis, querendo alugar um gerador. Servir Indústria não estava no plano original, mas tudo bem.

O caminhãozinho, com o gerador em cima, passou quinze dias alimentando uma máquina recém-importada na fábrica da Dixie Toga. A máquina sofria com a oscilação de energia gerada no país. O contrato de aluguel venceu e pediram mais quinze adias de prorrogação. Aquilo estava parecendo ser um bom negócio.

Pouco tempo depois a Editora Abril, para garantir uma edição de Veja, chamou os serviços de gerador prestados por Wilson. Havia chance de faltar energia na gráfica e a revista não podia falhar na sua entrega habitual. Não houve quebra de energia, mas o gerador estava a postos.

Ainda em outubro de 1998, data em que Wilson faria quarenta anos, a Rede Globo lhe deu de presente um trabalho importante. Foi o gerador da Poit que abasteceu as filmagens da minissérie O Auto da Compadecida, baseada na obra de Ariano Suassuna.

Com o tempo, a Poit Energia também garantiria as exibições de vários especiais de fim de ano com Roberto Carlos e muitas apresentações de Criança Esperança, além de treze edições do Big Brother Brasil. Nessa maré favorável, Wilson assistiu ao gigantesco Showbiz, realizado no Los Angeles Convention Center. Ele visitou muitos estandes, principalmente os referentes a geradores.

Aproveitou muitos detalhes e avanços nesse setor para aplicá-los em geradores e outras máquinas e aparelhos. Ao fabricante de geradores, solicitou uma mudança no interior do contêiner e o acréscimo de mais uma camada de revestimento para abafar o som do motor, que também ganhou um silenciador, ao modo dos automóveis.

Em 2000, Wilson passou a se dedicar exclusivamente à Poit Energia – embora já existisse no papel desde julho de 1999, passou a considerar essa data como oficial de criação da empresa, o momento em que a sua atenção se voltou para um único alvo. A Poit Energia acabou se mudando para uma sede comprada na Rua Solimões, em Diadema, no bairro Campanário. Era um galpão grande, com muitas salas no mezanino, terreno espaçoso e estacionamento.

PODE CONTAR COM O QUE EU AINDA NÃO TENHO



Em julho de 1998, o governo de Fernando Henrique Cardoso promoveu o leilão do sistema Telebras, no qual as sucateadas estatais de telefonia foram vendidas à iniciativa privada. Um ano depois, quando a Poit Energia nasceu no papel, os novos donos das operadoras de telefonia celular investiam bilhões para ampliar a cobertura móvel. Gerou-se uma corrida nacional para mostrar a maior cobertura.

De ponta a ponta do Brasil, operadoras competiam para instalar antenas no alto de edifícios e erguer torres de retransmissão em todo canto: terreno baldio, encosta de morro, cume de montanha… Era o melhor dos mundos para Wilson e sua nova empresa. De um lado, operadoras querendo gerador para abastecer as torres em locais com rede elétrica precária ou inexistente. De outro, empresas de tecnologia e de telecomunicações que também precisavam de gerador para os controladores de redes e sistemas de transmissão que dariam vida às torres. Era um tal de viajar para Goiás, interior de São Paulo, Recife, Uberlândia, Cuiabá, Campo Grande e outras partes do país.

O pontapé inicial dessa roda viva foi dado na metade de 1999. Uma vendedora passou uma ligação: “Seu Wilson, tem um homem na linha que está precisando de dez geradores”. Era bom demais para ser verdade. Tratava-se de um engenheiro de empreiteira, que estava aflito, pois fora contratado pela BCP, operadora de telefonia móvel de São Paulo, para levantar dezenas de torres de retransmissão na periferia da capital. Ao fazer as instalações o homem descobriu que não havia energia em muitos morros que receberiam torres. O único jeito era apelar para gerador. E ele precisava de dez. Wilson não tinha um livre. Todos estavam alugados.

Resposta de Wilson: “Não tenho agora, mas na semana que vem chegarão novinhos”. Ou seja, o lema de Wilson era: nunca dizer não. Foi o caso no Ilha de Capri, no show do Double You. Wilson não tinha o dinheiro para comprar os dez geradores nem queria contrair empréstimos. Apelou para Fausto Ferrari, diretor da SDMO, fabricante francesa, e para Stephen, da FG Wilson, empresa importadora de geradores. Propôs a ambos que daria uma entrada simbólica e o restante em cheques pré-datados. Eles aceitaram e isso foi fundamental para fechar o aluguel dos dez geradores, que passariam dois anos funcionando sem parar, devido ao atraso da rede elétrica em novas instalações nos bairros.

Ao atender as empreiteiras, a Poit Energia tinha que ampliar a frota de caminhões. Mas, ao invés de comprar simples caminhões, Wilson comprou caminhões munk, com guindaste acoplado à carroceria. Com os munk, era só encostar caminhão, içar e baixar o gerador, voltar para a empresa, pegar mais um gerador. Foi um salto de produtividade.

Pouco tempo depois do aluguel de dez máquinas, um diretor da Ericsson, fabricante de equipamentos de telecomunicação, encomendou quarenta geradores, todos para o Rio de janeiro. Era um baita pedido. Wilson usou a mesma tática, já usada nos dez geradores, para atender esse pedido do tamanho de um trem, sem recorrer a bancos, contando com a boa vontade dos grandes fabricantes. Além da SDMO e da FG Wilson, a Poit contou com o apoio da Leon Heimer e da Stemac, de Porto Alegre. 

SURFANDO DOIS TSUNAMIS

O primeiro tsunami nasceu de uma miragem global que também afetou o Brasil. O fato é que o ano 2000 começou com o alerta vermelho ligado. Em certo momento, alguém garantiu que uma falha lógica nos meandros dos computadores impediria a programação de reconhecer o ano 2000. Os programas e bancos de dados enlouqueceram tentando entender como 00 podia ser maior que 99. A esse apocalipse digital deu-se o nome de Bug do Milênio. Empresas, como America Express, Credicard, Itaú, Bolsa de Valores, Serasa, todos esses grupos se tornaram clientes da Poit Energia.

O segundo tsunami foi uma exclusividade brasileira, uma longa onda com duração de oito meses, entre julho de 2001 e fevereiro de 2002, na gestão de FHC. O tsunami foi apelidado de Apagão, produto de pouca chuva e baixo investimento no sistema elétrico. Muitas empresas como shoppings e hospitais não podiam reduzir o consumo de eletricidade. Tinham que apelar para alternativas, como o gerador. Era a hora da Poit e outras fornecedoras. O apagão trouxe também um efeito colateral benéfico. Grandes consumidores descobriram que, no horário de pico (quando a energia encarece), era melhor alugar um gerador do que pagar a sobretaxa da concessionária.

Baseada numa iniciativa da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, a Endeavor ancora sua atividade na transmissão de conhecimento. Sua premissa é apoiar quem está no início ou quer se aprimorar. Chegou ao Brasil chancelada e apoiada pela dupla Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira, então sócios na GP Investimentos, hoje na 3G Capital, na qual administram negócios cheios de marcas famosas, nacionais e globais, sobretudo no ramo de alimentação e bebidas, como Heinz, Brahma e Budweiser.

Então estudante da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Makoto Yokoo era o segundo funcionário da Endeavor no Brasil. A ideia era que, juntando o talento do empreendedor com a orientação da Endeavor, essa empresa crescesse de maneira até então inimaginável.

Makoto entrou em contato com Wilson, que simpatizou com esse moço de 22 anos, e com os objetivos da Endeavor. Wilson entrou no processo de seleção e avançou em cada etapa e chegou ao final, tornando-se um empreendedor Endeavor. Pouco a pouco, orientada pelo pessoal da Endeavor, a Poit deixaria de ser uma empresa que girava em torno de uma única pessoa, o one-man show.

Mais tarde, Wilson passou a se preocupar com a criação de um conselho consultivo, com normas de governança corporativa. Através da Endeavor, a Poit entrou em contato com empresas vencedoras no Brasil, como a Localiza, e no Exterior, como a Walmart e a Agrekko, líder global em aluguel de geradores, que mais tarde acabou adquirindo a Poit Energia.

A ESCALADA

Wilson que mantinha outrora na adolescência relacionamentos com consulados para obter informações e publicações turísticas, encontrou oportunidades de fazer negócios no exterior. Surgiu uma primeira oportunidade no Chile. Em 2005, um amigo na fabricante de celulares Nokia ligou para dizer que estava trabalhando no país e que por lá nenhuma empresa de locação sabia operar do jeito que a Poit fazia. Em suma, eles não cuidavam do diesel, não davam assistência, prestavam má manutenção. Wilson foi ao Chile e deu início a uma das maiores operações da Poit. O amigo foi falando das dificuldades no Chile. Lá, não era como nos montes da Bahia. Montanha chilena tem mais de 3 mil metros de altura, cheia de gelo. Wilson não se comoveu: deixa comigo!

Ele alugou uma salinha em Santiago e lá montou sua base oficial. Pouco antes, já havia comprado três caminhonetes e conseguido um empréstimo de 1 milhão de dólares no Banco do Chile, gastos na compra de mais de 20 geradores. Ao sul do Chile era difícil chegar. Caminhonete não subia montanha. A Poit alugou várias vacas para puxar até o topo gerador e diesel, com um tablado fazendo as vezes de trenó. Foram quatro horas com a tropa bovina escalando a montanha grelada. Depois, toda semana, para reabastecer o gerador, duas vacas refariam o trajeto para levar um tambor de diesel até o topo.

Certa vez nem as vacas deram conta do recado. Tiveram que alugar um helicóptero para levar o gerador, depois o diesel. Era uma façanha tão grande que Wilson contratou um fotógrafo para registrar o momento. Em abril de 2010, a Poit abriu uma segunda filial no Chile, em Concepción, a quinhentos quilômetros de Santiago.

No fim de fevereiro, a região de Concepción foi arrasada por um terremoto terrível que derrubou prédios e cortou todo o fornecimento de energia da cidade. Com alguns geradores emprestados da filial chilena e outros comprados, a Poit serviu com carga total durante meses, primeiro para devolver a eletricidade a hospitais e delegacias de polícia, depois para levar energia às obras de reconstrução. Subindo no mapa, a Poit abriu uma filial no Peru, da mesma forma que na vizinha Argentina.

Mais tarde, em 2009, no governo Lula, Wilson foi convidado a participar de uma missão comercial pela América Latina e pela África. A comitiva foi recebida oficialmente por Hugo Chávez no palácio de Miraflores, em Caracas. Wilson forçou um pouco a situação e, durante a recepção, aproximou-se de Chávez, dizendo que poderia ajudar o país no quesito de fornecimento de energia. Como aluguel de geradores. Chávez delegou a questão para Hipólito Izquierdo, presidente da Corporação Elétrica Nacional. As negociações não evoluíram porque Hipólito foi demitido.

Uma grandiosa obra, e talvez o maior negócio da Poit, aconteceu na proximidade geográfica da Venezuela, em Roraima. Naquela época, o governo brasileiro estava buscando maneiras de evitar apagões iminentes no país todo, inclusive na região Norte. Promoveu, então, uma concorrência para abastecer Boa Vista. A Poit ganhou. A empresa tinha apenas cem dias para resolver o problema, sob risco de multas diárias por atraso.

No início de 2009, para honrar o compromisso, Wilson comprou uma usina usada no Amapá, que pertencia a alguns argentinos que se deram mal. Preço: 3,5 milhões de dólares. A usina teve que ser desmontada no Amapá, transportada pelo Rio Amazonas até Manaus e depois levada em caminhões até Boa Vista por oitocentos quilômetros de estradas ruins.

No centésimo dia do prazo estipulado pelo governo, a usina ficou pronta, com seus dezesseis geradores de 2.500 KVA, que somados, geravam 40 mil KVA por dia, suficientes para abastecer a maior parte de Boa Vista. Ao todo, a Poit investiu 5 milhões de dólares para deixar a usina funcionando. A Poit mostrou que tinha estrutura.

A usina também mudou a imagem da Poit no mercado. Depois dessa megamontagem, a Poit passou a ser considerada uma empresa de atacado, capaz de fornecer energia em larga escala para grandes corporações nacionais e globais. 

DESAPEGO

“Por mais que você saiba que no futuro pode ser melhor, naquele momento é como abrir mão da sua identidade – além de, no caso da empresa, deixar ir embora a realização profissional mais importante de sua vida. Profissionalizar seu negócio, deixar de administrá-lo é uma das provas mais torturantes, pelas quais um empreendedor pode passar”, diz Wilson no processo de profissionalização da Poit Energia.

Para atravessar essa tormenta, não há outro caminho senão o desapego total. A coisa só existe de verdade quando o empreendedor põe na cabeça e encampa na alma que, a partir de dado momento, tem de efetivamente deixar para trás uma etapa da vida e partir para a próxima. Ficar no meio do caminho só atrapalha. Só o desapego do passado conduz aos benefícios do futuro.

Trocando em miúdos corporativos, o desapego que era exigido de Wilson podia ser resumido nisto: que ele restringisse sua atividade ao conselho de administração, deixando de presidir oficialmente a Poit e repassando o bastão de comando a um presidente, um executivo profissional, contratado no mercado.

Tudo bem. Mas como encontrar um substituto? Para o posto, Wilson pensou em Makoto Yokoo, o mesmo que tinha indicado a Poit para a Endeavor em 2002. Makoto havia saído da Endeavor, cursado o MIT e se tornara executivo bem-sucedido na Bunge. Depois de uma temporada morando em Genebra, Makoto saíra da Bunge e voltara para o Brasil.

Makoto aceitou a proposta de ser presidente da Poit. No entanto, Wilson pediu-lhe dois compromissos. O primeiro era bater a meta do ano, dando seu melhor para manter o histórico crescimento da Poit. Makoto aceitou prontamente. O segundo era não demitir ninguém sem a aprovação de Wilson. O escolhido presidente divergiu. Como manter o compromisso de dobrar o faturamento a cada dois anos, se não podia remover pessoas inadequadas, ineficientes?

Wilson: “Makoto, escuta. Até ontem você era um executivo de uma multinacional, morava em Genebra. Está acostumado a outro patamar. Vai entrar na Poit, ver aquelas pessoas simples que estão lá desde sempre e pode achar que eles não vão dar conta da missão. Mas eles vão. Se os mandar embora, vão sair com eles a história, a filosofia e a cultura da empresa. Então, não demite agora, não despreza a essência, que é o mais importante de tudo. Trabalha com eles”. Makoto aceitou e cumpriu o combinado.

A Poit, nessas alturas, era considerada a líder nacional, com seus mais de 140 milhões de reais de faturamento, dezoito filiais, sendo quatro no exterior, quinhentos funcionários, 172 caminhões e 1.500 geradores.

A VENDA

Em março de 2012, finalmente aconteceu: a líder mundial Aggrekko, depois de várias tentativas, comprou a Poit, por 190 milhões de dólares, ou 400 milhões de reais à época. A Aggrekko tinha um faturamento anual de 2,2 bilhões de dólares.

O negócio foi celebrado em grande estilo. Em abril, Wilson e esposa foram convidados por Rupert Soames, presidente da Aggrekko, para assistir ao vivo, num camarote do Estádio Olímpico de Londres, à abertura dos Jogos Olímpicos de 2012. Aquela foi uma coroação de um negócio que, depois de anos de tentativas, tinha deixado os dois lados realizados. Wilson e seu filho Vinicius foram convidados a prosseguir na Poit por nove meses.

O acordo de coadministração, no entanto, logo terminou, por causa de estilos diferentes de conduzir as duas empresas entre os antigos e novos dirigentes. Wilson continuou, a seu estilo, lutando em outras frentes.

Para quem, como Wilson, partiu do nada, vender essa empresa por uma fortuna era um grande êxito, um sonho realizado. Embora o negócio inflasse seu ego, Wilson considera que recebeu outras moedas com que ele se sentisse realizado e valorizado.

Em muitas ocasiões, a Poit Energia se tornou case em universidades brasileiras e estrangeiras de primeira linha. Se fosse apenas o reconhecimento nacional, Wilson já se sentiria orgulhoso. Mas não tem preço obter o reconhecimento internacional de instituições de ponta, como a Universidade de Harvard, a Universidade Columbia ou o MIT.

No curso de administração da PUC, de São Paulo, por exemplo, um professor expôs a trajetória da Poit e pediu a grupos de alunos que fizessem um estudo sobre o futuro da empresa, dando sugestões de como ela poderia crescer ainda mais. Com o trabalho realizado, Wilson foi convidado para ser um dos jurados. Assistiu então à apresentação dos cinco finalistas. Ele acabou convidando dois estudantes, um rapaz e uma moça, para serem trainees na Poit.

Wilson Poit achou que teria um ano sabático após a entrega da Poit. Mas não foi bem assim, os planos de férias maravilhosas, de tours inesquecíveis não saíram da prancheta. Em janeiro de 2013, Fernando Haddad assumiu a prefeitura de São Paulo. Para montar sua equipe, além dos cargos políticos, o novo prefeito quis dois secretários vindos da iniciativa privada, nomes técnicos, com experiência comprovada e sem histórico com partidos.

A Endeavor indicou o nome de Wilson. E o prefeito o convidou a assumir a recém-criada SP Negócios, agência com status de secretaria que, a partir dali, se encarregaria de investidores interessados em viabilizar os projetos da agência. Terminado o período de Haddad, talvez houvesse possibilidade de férias, de longas viagens. Ledo engano. Ao assumir a prefeitura em lugar de Haddad, em janeiro de 2017, João Doria convidou Wilson Poit para ser seu secretário de Desestatização e Parcerias. Wilson aceitou, pondo todo o seu rico histórico de empreendedor a serviço da causa publica.

Ficha técnica:

Título: O não você já tem, então vá à luta

Autores: Wilson Poit e Luís Colombini

Primeira edição: Portfolio Penguin