“O Open Health irá mudar o modelo do setor de saúde”

CIO da Dasa, a maior rede de medicina diagnóstica da América Latina, afirma que a empresa já tem 50% das informações interoperáveis

Publicado em 5 de outubro de 2021

Permitir que um paciente tenha seus dados de saúde acessíveis de forma integrada, independente da rede de hospitais, medicina diagnóstica ou clínica que ele tenha passado ainda é uma promessa na indústria da saúde. “Assim como o Open Banking e o Open Insurance, o Open Health faz muito sentido para o setor como um todo e principalmente para a experiência e a saúde do usuário”, afirma Danilo Zimmermann, CIO e CDO da Dasa. Enquanto a integração de dados de todo o ecossistema não se concretiza, a Dasa já trabalha dentro de casa pensando nessa realidade: atualmente, 50% das suas informações estão interoperáveis. 

Com mais de 900 unidades físicas em todo o Brasil, 20 milhões de clientes na base e 250 mil médicos, a Dasa foi uma das pioneiras no segmento de saúde ao iniciar sua transformação digital, em 2016. Após cinco anos, 700 colaboradores já trabalham no modelo Ágil, organizados em mais de 70 times de desenvolvimento, em diversas verticais de negócio. Com investimentos na casa de 1,5 bilhões de reais, o datalake corporativo é hoje um dos maiores do setor de saúde, com 5 bilhões de dados.  

Em entrevista ao Experience Club, o executivo fala sobre os desafios da segurança da informação e da retenção de talentos na área de tecnologia. E antecipa que a Dasa pretende ampliar sua estratégia de inovação aberta investindo em startups que tenham soluções sinérgicas com o negócio. 

Confira a seguir os principais trecho da entrevista:

1 – Transformação digital 

“Estamos no 5º ano de transformação digital na Dasa e esse processo é acelerado quando é liderado pelo número um da empresa, nosso presidente Pedro Bueno, que acredita muito nesse caminho”.

“O Digital está integrado à estratégia da empresa e à operação da companhia. Como começamos antes de outros competidores, estamos adiantados. Hoje, mais da metade de nossos dados estão interoperados, o que é o maior desafio da indústria de saúde como um todo”.

“Como somos a maior rede integrada do Brasil, o fato de termos o maior datalake do mercado, com 5 bilhões de dados, nos permite ter um diferencial competitivo importante.” 

2 – Transformação cultural 

“Em algumas das nossas verticais, o digital está escalado e, em outras, precisamos evoluir. É uma questão cultural, temos estratégias diferentes para lidar com cada público interno, contaminando positivamente os que estão mais receosos e convidando-os a evoluir cada vez mais neste modelo que é o que adotamos para nossa empresa. Quando falamos dos médicos, temos hoje profissionais que são patrocinadores de jornadas digitais e outros que estamos convidando a degustar a experiência.” 

“Um exemplo disso é que quando integramos o acesso a laudos dos hospitais pelo celular ao nosso serviço B2B, os médicos da nossa rede reconheceram a vantagem desse recurso e solicitaram também essa solução para eles. Ao ter acesso a uma iniciativa que facilita seu dia a dia, mesmo os médicos que estavam receosos com o digital começam a se interessar por novas entregas”.

“Se você tentar empurrar um grande movimento para quem ainda não está preparado culturalmente a chance de não dar certo é maior. Por isso, iniciamos com iniciativas pontuais para ele ir experimentando as novidades e aderir quando fizer sentido.” 

3 – Interoperabilidade de dados 

“A interoperabilidade permite que o médico acesse toda a jornada de um paciente, os exames que ele fez em nossos laboratórios, detalhes das eventuais internações em hospitais da rede ou se ele passou pelo pronto socorro, além das consultas que fez por telemedicina. Isso amplia a visão do médico e melhora o atendimento à saúde integral do paciente”.

“Hoje, trabalhamos os dados interoperados em nosso ecossistema, mas o ideal seria que estas informações estivessem integradas na indústria como um todo.” 

4 – Open health 

“Já existe uma série de discussões na indústria sobre o Open Health. Foram definidos alguns padrões de API que permitirão as integrações futuras e estamos investindo fortemente nisso”.

“Aqui no Dasa, já fizemos integrações com algumas operadoras de planos de saúde. Mas seria ótimo ampliar para outros hospitais e redes de medicina diagnóstica fora de nosso ecossistema. Nós acreditamos muito nesse modelo para toda a indústria de saúde, para o bem do setor e principalmente para a experiência do paciente”.

“Se não fizermos isso, em algum momento a ANS (Agência Nacional de Saúde) vai criar um padrão obrigatório para todos, como o Banco Central fez com os bancos. A diferenciação será na qualidade do serviço, na abrangência do portifólio e no valor agregado da relação com os médicos, e não no controle da informação do paciente.”  

5 – NAV 

“Rebatizamos recentemente nossa plataforma digital para NAV, que integra todos os serviços do Dasa para pacientes e médicos, possibilitando uma experiência mais fluída para o usuário. Agendamento de exames, acesso a resultados, consultas de telemedicina e de urgência podem ser solicitadas pela plataforma. Desenhamos jornadas bem robustas com melhorias contínuas e entregas a cada três semanas.” 

6 – Inovação e tecnologias preditivas 

“No Brasil somos os únicos parceiros do Central for Clinical Data Science (CCDS), de Harvard, e com eles desenvolvemos vários algoritmos e soluções em IA para o mundo médico, especialmente em diagnósticos de imagem, radiologia e patologia. Temos várias soluções desenvolvidas e usamos os algoritmos para apoiar os médicos em alertas preditivos de acordo com os dados do paciente, por exemplo, na detecção de pré-diabetes.”  

“A própria interoperabilidade de dados permitiu a detecção de um risco de problema cardíaco em uma paciente que nos consultou por telemedicina. Logo o médico a encaminhou para exames emergenciais em nossa rede de diagnósticos e, na sequencia, ela precisou ser internada em um de nossos centros cirúrgicos. Isso salvou a vida dela. Como nesse caso existem muitos outros exemplos de uso da tecnologia de forma a antecipar problemas mais graves nos pacientes.” 

 “Temos um grupo forte de cientistas de dados trabalhando em algoritmos e soluções para prevenção de doenças. O monitoramento de doentes crônicos e o acompanhamento de exames periódicos em mulheres, por exemplo, são ações que podem antecipar crises ou doenças mais graves”.

“Além de ser melhor para o paciente, também é sustentável para a indústria. Acreditamos que toda a medicina suplementar no Brasil vai evoluir para esse caminho. A tendência é sair do modelo fee for service e migrar para o value based service.” 

7 – Inovação aberta 

“Temos uma parceria há mais de três anos com o Cubo para monitorar e desenvolver comunidades de startups na área da saúde. Já mapeamos mais de 900 healthtecs, desenvolvemos mais de 65 POCs (provas de conceito, na sigla em inglês) e escalamos 25 cases em nosso contexto de tecnologia e desenvolvimento de produtos”.

“Recentemente decidimos que vamos acelerar ainda mais esse movimento de nos conectar com empreendedores. Devemos começar a fazer investimentos early stage em start-ups que tenham soluções que façam sentido para o nosso negócio.”  

8 – Telemedicina 

“É uma solução que veio para ficar e funciona muito bem em casos de atendimento primário. Queremos agregar outros serviços na nossa telemedicina para ser mais do que somente uma solução de conexão remota em áudio e vídeo. Estamos trabalhando em algumas soluções que permitirão o monitoramento de sinais vitais por meio da câmera ou de wearables. Ainda estamos em fase de testes desta solução.” 

9 – Efeitos da pandemia 

“Certamente o modelo híbrido de trabalho veio para ficar. A pandemia mostrou uma série de oportunidades de eficiência operacional com o trabalho remoto”.

“Nosso serviço de atendimento domiciliar cresceu de forma exponencial e tivemos que melhorar nossos algoritmos de geolocalização para trazer mais eficiência ao processo”.

“No segmento de startups, foram criadas várias oportunidades de novos negócios, hoje essa é uma das indústrias mais importantes para os fundos de venture capital.”  

10 – Segurança da informação 

“É um tema crítico para a indústria e, para nós, não é diferente. Como venho da indústria financeira, venho reforçando a importância disso. Apresentei um plano de segurança de informação em dezembro do ano passado ao Conselho. Sabemos que a indústria de saúde é alvo de ataques de ramsonware. Portanto, a cibersegurança tem que ter a mesma importância e nível de investimento que as iniciativas digitais”. 

“É preciso estar preparado para eventuais respostas a incidentes. Como fazemos muitas aquisições de empresas, no grupo desenvolvemos um modelo de olhar estas fusões desde o dia zero da aquisição. No desenvolvimento de sistemas e tecnologia as equipes já desenvolvem as novas funcionalidades com vários quesitos de segurança.” 

11 – Retenção de talentos em tecnologia 

“Acredito que o maior desafio hoje seja a retenção de talentos em tecnologia. Com o trabalho remoto, desenvolvedores podem trabalhar de casa para empresas internacionais que pagam em euro ou dólar”.

“Investimos muito em ampliar a carreira em Y na Dasa e também criamos uma academia de tecnologia para treinamento técnico de formação e certificação”. 

“Por outro lado, a tecnologia pode ajudar muito o setor de saúde. Há muitas oportunidades e esse é um tema cada vez mais estratégico no negócio.”  

Texto: Monica Miglio Pedroso

Fotos: reprodução e Unsplahh