Seguradora 88i explora a “economia do bico”

Startup usa contratos inteligentes para democratizar o acesso aos seguros e proteger o trabalhador informal, diz o fundador, Rodrigo Ventura

Publicado em 19 de julho de 2021

Uma experiência negativa na contratação de um seguro-viagem que o deixou acidentado e sem cobertura na Patagônia, por conta de uma cláusula de exclusão nas letras miúdas do contrato. A experiência de trabalhar em seguradoras tradicionais e constatar que elas são avessas à inovação e resistentes à mudança. Uma crise existencial aos 40 anos que o levou a refletir sobre sua missão e propósito e o impacto que ele queria gerar no mundo. Foram estes os principais catalisadores que levaram Rodrigo Ventura a fundar a 88i Seguradora Digital, em 2017.

Inicialmente, a empresa surgiu como uma insurtech que fazia a distribuição de produtos de outras seguradoras. A mudança do modelo de negócios, para B2B2C, foi impulsionada com a homologação da 88i como seguradora pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), em março deste ano.

Vá de Táxi, PicPay, Motoboy.com, Bitfy e U4Crypto são alguns dos ecossistemas que já oferecem serviços de seguro da 88i para seus usuários.  

Recém-capitalizada com um aporte de R$ 5 milhões da Domo Invest, a seguradora já recebeu capital de vários investidores-anjo e se prepara para uma nova rodada Series A, até 2022. “Nossa meta é chegar a 9 milhões de apólices em cinco anos”, afirma Ventura. 

Confira os principais trechos da entrevista:

1 – Seguros e TI na China 

“Estudei economia e iniciei minha carreira no mercado financeiro. Passei pela Redecard, Banco Itaú e HSBC. Tive uma visão muito abrangente do ecossistema bancário”.

“No Itaú, fui executivo de negócios no segmento de seguros e, no HSBC, fui para a área de TI e Operações”.

“Comecei a estudar mandarim, pois queria ser expatriado para a China. Uni o conhecimento de novas tecnologias, como assinatura eletrônica biométrica, internet das coisas (IoT) e telemetria à venda de ERP para seguros em minha experiência internacional”. 

“Na China, acompanhei o início do movimento das fintechs, em 2006, e a trajetória de duas seguradoras digitais que criaram uma carteira em que 90% da base de clientes nunca havia consumido seguros na vida. Voltei ao Brasil dez anos depois com o chapéu da inovação.”  

2 – Crise dos 40 e decisão após viagem 

“Aos 40 anos, passei por um processo em que questionei minha trajetória profissional e vi que não tinha mais brilho nos olhos ao trabalhar nas seguradoras tradicionais”. 

“Esse mercado é altamente resistente à inovação, ele cria anticorpos que não permitem o surgimento de qualquer coisa que mude o status quo“.

“Resolvi me reinventar trabalhando como consultor na KPMG, com tecnologias como computação da nuvem, blockchain e SAP”. 

“Nessa época, fui realizar um sonho que era o de fazer uma viagem de moto pela Patagônia. Tive um acidente e quebrei três costelas. Foi então que descobri que meu seguro não cobriria as despesas pois havia uma cláusula de exclusão nas letras pequenas do contrato”.

“Como eu havia sido absolutamente transparente com meu corretor sobre a viagem que eu faria, eu sabia que ganharia o caso entrando com um processo. Mas essa experiência como cliente me mostrou que essa relação das seguradoras com os clientes não podia continuar dessa forma.” 

3 – Hackaton e criação da 88i 

“Resolvi criar a 88i após vencer o Startup Weekend Blockchain Techstars, evento patrocinado pelo Google e pela TechStars, braço de inovação do Banco Barclays”.

“No início, funcionávamos como uma insurtech que fazia distribuição de produtos de outras seguradoras. Com o tempo, entendemos que fazia mais sentido estar em aplicativos de parceiros e migrar para o modelo B2B2C”. 

“Usando blockchain, permitimos que o processo de contratação seja indolor, de forma simples, intuitiva e digital – esse é nosso lema”. 

“Não só a venda, mas todo o ciclo de vida do negócio é digital, a apólice é autoexecutada após a validação de sua veracidade por meio de APIs conectadas à plataforma do nosso parceiro. O pagamento é feito em tempo real ou no máximo em 48h, com crédito na carteira digital do beneficiário.” 

4 – O significado do nome 88i 

“88 lembra uma borboleta; é um símbolo de transformação do mercado de seguros. Ao mesmo tempo é uma libertação, pois a borboleta precisa romper o casulo para voar”.

“A referência aqui é à liberdade de escolha. Quando unimos o 8 um no outro temos uma corrente de blocos de informação, que faz referência ao blockchain”.

“No oriente, o 8 é também o número da sorte, ligado à prosperidade e segurança financeira. Também representa o duplo infinito, que une o que é muito pequeno até a imensidão do cosmos – ou seja, da oferta de microsseguro a todas as demais possibilidades desse grande guarda-chuva de serviços.” 

5 – Democratização de acesso ao seguro 

“Nosso propósito é proteger as pessoas, tudo aquilo que elas amam e com o que se importam. Nossa estratégia não é a das seguradoras tradicionais, que fazem rouba monte, disputando o mesmo cliente”.

“Vamos focar nas pessoas que estão à margem deste mercado. Sabemos que mais de 50% da economia brasileira é informal. Desde o funcionário PJ até o profissional liberal de aplicativo, passando pelo microempreendedor que vende na rua”.

“Antes do open banking, eles não tinham acesso a uma conta digital. Ao ter uma conta bancária começaram a registrar seus recebíveis, a ter um histórico disso e hoje já é possível receber um crédito ou fazer um financiamento”.

“Nesse contexto, a oferta de seguro vai permitir o acesso a serviços que ele não tinha antes, como consultas por meio da Doc24, nosso parceiro de telemedicina, ou reposição de celular por furto. Tudo a preços muito acessíveis.” 

6 – Personalização nos ecossistemas parceiros 

“Existem mais de 2 mil empresas operando em plataformas de e-commerce, mobilidade, delivery ou fintechs. É um mercado enorme e inexplorado”. 

“Nós entendemos a necessidade dos clientes de nosso parceiro e formatamos produtos relevantes para eles”.

“No caso de uma fintech, unimos nossa oferta de seguros ao open banking, criando um open finance. Se pensarmos no caso do Bradesco, 33% do resultado do conglomerado vem da seguradora, então é um mercado muito interessante para uma fintech adicionar ao seu portifólio”.

“Temos o seguro de entrega protegida, que serve tanto para um aplicativo de delivery quanto para entregas feitas por e-commerce”.

“No caso de um motorista de aplicativo, oferecemos seguro de celular, seguro de vida, acidentes pessoais, perda de renda. Conseguimos pagar a receita média diária dele em caso de acidente, pois sabemos, por meio da plataforma, quanto ele ganhava por dia.”

7 – Relação ganha-ganha-ganha 

“Ganha primeiro o cliente, que contrata um seguro de forma simples, a um custo acessível e com uma proposta que faz sentido na vida dele. Por meio de nosso processo digital, tanto a compra como o recebimento do seguro são validados instantaneamente e o pagamento é feito sem burocracias direto na conta digital”.

“Para o parceiro, ter um produto destes é um diferencial. Um motorista de aplicativo que usa múltiplas plataformas ao longo do dia para captar leads de passageiros vai se sentir mais atraído a usar o aplicativo que o protege em caso de acidente ou roubo”.

“Esse diferencial gera mais fidelização, engajamento e aumenta a relação de confiança de longo prazo e recorrência de transações, pois o pagamento é feito de forma rápida e transparente”.

“E, claro, ganha a 88i, com a ampliação de sua base de clientes.” 

8 – Metas de crescimento 

“Neste ano, nossa meta é chegar a 50 mil apólices e 7 milhões em prêmios pagos. Em 2022, a meta será de 500 mil apólices. Chegaremos a 2 milhões, em 2023; a 6 milhões, em 2024, e 9 milhões, no quinto ano. Ao entregarmos a meta inicial vamos preparar uma nova rodada de investimentos, do tipo Series A.”  

9 – Conselhos para outros empreendedores 

“Seu negócio tem que vir de um autoquestionamento seu, de encontrar seu propósito na vida. Você deve acreditar em sua proposta com tanta força que estará disposto a sacrificar muitas outras coisas para realizar esse sonho”. 

“Além disso, é necessário ter resiliência para superar os erros e as adversidades, pois eles serão muitos. Mas você só tem um jeito de aprender, que é fazendo”. 

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Imagens: reprodução e Rowan Freeman/unsplash