“Tecnologia é uma extensão do core business e não deve ser delegada a um departamento”

Entrevista | Diretor executivo da CI&T, Leandro Angelo, fala sobre como se preparar para a disrupção digital que atinge empresas de todos os portes

Publicado em 7 de outubro de 2021

A pandemia acelerou fortemente a disrupção digital. Empresas que não estavam preparadas tiveram de correr para se adequar. Mas o desafio continua. O consumidor já se acostumou com o ambiente digital e compara as experiências obtidas em empresas de diferentes setores, o que obriga as companhias a olharem não apenas para os concorrentes em seu segmento, mas para o mercado como um todo. “O usuário está cada vez mais exigente, cada vez mais atualizado, porque ele tem experiências cada vez mais agradáveis e mais interessantes. Ele vai repassar essa cobrança, independente do produto ou serviço que está buscando. Vai querer vivenciar isso em todo o contato que ele fizer”, diz Leandro Angelo, diretor executivo da CI&T em entrevista ao Experience Club.

A empresa, que ajuda clientes de todos os segmentos em sua jornada digital. O executivo destaca que além de ter uma equipe de tecnologia interna, as empresas podem se beneficiar de parceiros estratégicos de tecnologia para aproveitar as oportunidades de mercado e diz que é preciso trazer a tecnologia para o centro de decisões da empresa. “Tecnologia é uma extensão do core business e não deveria ser um assunto delegado a um departamento ou a uma estrutura”, afirma. Confira a entrevista ao Experience Club.

A CI&T já tem um histórico de 25 anos de negócios digitais. Do ano passado para cá, com a pandemia, houve uma aceleração no desejo de transformação digital das empresas. Como você analisa a percepção sobre a disrupção digital? Como as empresas podem se preparar para um ambiente de inovação contínua?

O cenário forçou vários movimentos que as empresas não tinham percebido ou estavam represados. Costumo dizer que a disrupção digital é difícil de ser definida, mas é fácil de ser percebida, porque ela toca num assunto muito fundamental: os desejos, os anseios ou as dores do o consumidor final, o cliente.

A pandemia deixou todo mundo em casa e os negócios tiveram de encontrar novos meios de chegar a esses clientes. Nem todas estavam preparadas e enfrentaram muita dificuldade nesse ciclo. Quem já estava pronto teve uma aceleração muito grande. E muito dessa capacidade de inovar está atrelada à capacidade das companhias de aprender e experimentar. 

Como uma empresa já consolidada, principalmente as mais tradicionais, pode se estruturar para buscar essa disrupção digital?

Há vários passos envolvidos nessa reflexão e gosto de pensar sempre em: data first, mobile first, small first, cloud first, open first e talent first. Não é sobre uma ordem, mas um raciocínio constante neste pilares Mas o ponto de partida é o entendimento do cliente, do consumidor. O que este cliente, que eu atendo ou não, está buscando. Esse é o primeiro passo e puxa uma cadeia de ações. As empresas mais tradicionais têm um grande desafio em termos de cultura, de construção de um ambiente de experimentação, de inovação. 

Como a gente encara as metas e objetivos, o quanto essas metas e objetivos são colaborativas entre as estruturas? Como a organização pensa sua topologia de times, de maneira multidisciplinar, focados numa entrega de valor, plugados nessa dor ou nesse ganho que esse consumidor ou esse cliente está buscando? Além disso, como ela mantém um ciclo muito curto de validar hipóteses e escalar soluções já validadas ou pivotar? Afinal de contas, é um jogo de disrupção e ganha esse jogo quem aprende mais rápido.

A necessidade de inovação contínua vale tanto para as grandes empresas, líderes de mercado, quanto para startups. Como desenvolver um mindset de produto, um modo de trabalhar que promova inovação constante?

O desafio não se limita a empresas mais tradicionais. Até nativas digitais enfrentam isso, com ingredientes um pouco diferentes. As nativas digitais, muitas vezes para escalar e validar seu produto, colocar no mercado numa janela de oportunidade — tiveram de tomar decisões fazendo uma gestão de débitos técnicos. Diante disso, ela agora tem esse desafio, que também envolve o capital humano. 

Esse crescimento muitas vezes vem em uma curva tão acentuada que essas empresas se percebem sem gente preparada no volume que precisariam para capturar todo o potencial que o produto está gerando. Em paralelo aos times de tecnologia dentro da empresa é importante ter parceiros estratégicos no momento-chave de escala, com capacidade de responder e acelerar essa captura, para que ela possa capturar todo o potencial dessa curva de aceleração que este produto ou este serviço está gerando.

Existem setores em que a disrupção está mais avançada? Que tendências vocês detectam no mercado? O que podemos esperar num futuro próximo?

A disrupção acelerou muito em todos os mercados nessa janela de pandemia. As interações e conexões tiveram de se tornar cada vez mais digitais, e os setores onde o produto ou serviço falam diretamente com o consumidor forammuito mais exigidos. Nós, como consumidores, como clientes, estamos comparando as nossas experiências, seja de produtos ou serviços, independente de segmentos. 

Hoje eu interajo digitalmente para assistir a um filme ou para ouvir uma música, e já comparo essas experiências com um serviço financeiro que contrato, com uma experiência de seguro que eu quero ou com o agendamento de um serviço de saúde. Esse comparativo de o quão fluido, o quão agradável, o quão recompensador é a jornada está sendo feito entre todos os segmentos. 

A disrupção é determinante para que as empresas comecem a entender que tecnologia é uma extensão do core business e não deveria ser um assunto delegado a um departamento ou a uma estrutura. Deveria ser um desafio organizacional de como expor o negócio em vários canais, em várias plataformas, inclusive as plataformas digitais.

Ou seja, do ponto de vista do usuário, a competição vem de todos os lugares?

Não há mais barreira. O usuário está cada vez mais exigente, cada vez mais atualizado, porque ele tem experiências cada vez mais agradáveis e mais interessantes e vai repassar essa expectativa, independente do produto ou serviço que está buscando. Ele vai querer vivenciar isso em todo o contato que fizer.

Falando em dados, as empresas já sabem que são muito importantes e precisam ser coletados, mas muitas vezes o volume é tão grande que falta estratégia para lidar com eles. Como a CI&T pode ajudar as empresas a tirar os melhores insights e usar os dados para melhorar seus produtos ou criar novos negócios?

A gente costuma ouvir muito a frase que dado é novo petróleo e, sem dúvida, tem muita verdade nessa afirmação. As grandes empresas se deparam com dois cenários. No começo existia aquela insegurança se havia dados suficientes. E a gente percebe que na maioria dos casos os dados já existem. Mas não existe um cuidado de categorização e democratização desses dados, que é um dos primeiros passos dessa jornada. Muitas vezes eles estão em silos de departamentos, estão com limitações de acesso dentro da organização. 

Entendendo que a segurança dos dados é um pilar fundamental, temos de ser capazes de democratizar esses dados dentro da organização e aumentar a competência de análise. Porque dados por dados não nos movem para frente. Precisamos transformar isso em informação. Aí vem a competência de análise nessa jornada, como ligar esses pontos e desses dados produzir insights e criar melhorias ou novos produtos. Por outro lado, é determinante o entendimento de o quão rápido eu sou capaz de testar uma hipótese e pivotar se ela não tiver tração. 

Fala-se muito sobre a competência de experimentação e tem muito a ver com a cultura do medo, principalmente nas grandes organizações, de não poder errar. Não é sobre errar rápido, é sobre aprender mais rápido. E para aprender você vai ter que experimentar e você vai perceber que coisas deram errado. É fundamental testar rápido, aprender e traduzir isso em insights que vão gerar impacto para o consumidor e resultado para a organização.

Tecnologias como inteligência artificial, blockchain e internet das coisas estão transformando rapidamente o mercado. Que tipo de negócios podem surgir a partir delas e como as empresas podem se antecipar?

Essas tecnologias já não devem ser tratadas como tendências para o futuro. Elas já são realidade. Obviamente quando a gente olha o capital humano ainda há uma carência de profissionais especializados em vários desses temas. Podemos observar em vários segmentos, seja o mercado financeiro, com blockchain, inteligência artificial, seja o agronegócio, com IoT e no varejo com machine learning.. Já existem vários produtos e serviços rodando e impulsionando grandes mudanças baseadas nessas tecnologias. Devemos encarar que não é um movimento para o futuro, ele é realidade hoje!

Uma pauta muito importante hoje e que vem ganhando muito espaço no setor de tecnologia é a diversidade, que também dialoga com a questão da percepção dos vieses. Como a CI&T vem trabalhando a diversidade dentro da empresa e nos trabalhos com os clientes?

Isso é um assunto fundamental. Pessoalmente, eu venho numa jornada de aprendizado. Considero que o Brasil ainda precisa evoluir muito nesse tema. Eu vejo duas perspectivas. A primeira é a responsabilidade social. Como a gente pode acelerar essa jornada, aumentar os investimentos, criar mais espaços, enaltecer os movimentos que promovem a diversidade, seja dentro das organizações, seja na sociedade. Mas eu também vejo como fundamental, e é o que mais me apaixona e eu realmente acredito, que tanto a CI&T como qualquer outra organização será muito mais inteligente, muito mais criativa e muito mais propositiva se ela trabalhar com mais diversidade. Trazer novas cabeças para essas discussões de produtos, serviços e experiências. Trazer novas provocações, novos pontos de vista, outras visões de mundo. Eu acredito que a gente sai com ideias e insights muito mais poderosos. É determinante asorganizações terem agenda focada neste tema e aqui na CI&T estamos buscando aprender, evoluiri  e dar cada vez mais poder para todos os grupos.