Um novo mundo

Um novo mundo

O despertar de uma nova consciência, por Eckhart Tolle

Publicado em 9 de abril de 2020

Ideias centrais:

1- Perdoar é ver, através do ego, a sanidade que há em qualquer ser humano como sua essência. O ensinamento de Jesus sobre “perdoar os inimigos” trata de desfazer uma das principais estruturas egoicas da mente humana.

2- Papel muito comum é o de vítima e a forma de atenção que o ego busca é a solidariedade, a piedade ou o interesse dos outros pelos meus “problemas”, por “mim e minha história”. Ver-se como vítima é componente de padrões egoicos, como queixar-se e sentir-se ultrajado.

3- O pensamento para de ser embotado pela emoção, enquanto nossas percepções do momento não são distorcidas pelo passado. A energia que estava presa no corpo de dor muda sua frequência vibracional e é convertida em presença.

4- Experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pensa que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse tudo e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber.

5- A nova Terra surge à medida que número cada vez maior de pessoas vai descobrindo que seu propósito mais importante na vida é trazer a luz da consciência a este mundo. A alegria do Ser é a alegria de estar consciente.

Sobre o autor:

Eckhart Tolle nasceu na Alemanha e, aos treze anos, trasladou-se para a Inglaterra, onde se formou pela Universidade de Londres. É mestre espiritual de renome internacional, com palestras em todo o mundo. Publicou também O Poder do Agora e O Poder do Silêncio.

Capítulo 1 – O desabrochar da consciência humana



Um ponto essencial do despertar é a identificação daquela parte em nós que ainda não se modificou. O ego da maneira como ele pensa, fala e age, assim como o reconhecimento do processo mental condicionado coletivamente que perpetua esse estado não desperto. É por isso que este livro mostra os aspectos principais do ego e como ele se manifesta no plano individual e coletivo. Isso é importante por dois motivos que se inter-relacionam. O primeiro deles é: é a menos que conheça o mecanismo básico por trás do funcionamento do ego, você não o detectará, e ele irá enganá-lo, impedindo que o reconheça todas as vezes que tentar. Isso mostra que ele o domina – é um impostor, fingindo ser você. O segundo motivo é que o ato de reconhecimento é em si uma das maneiras pelas quais acontece o despertar. Quando você descobre a inconsciência em si próprio, aquilo que torna o reconhecimento possível é o surgimento da consciência, é o despertar.

Ao pesquisarmos as antigas religiões e tradições espirituais, nos damos conta de que há duas ideias centrais. Embora com diferentes palavras, elas remetem a uma verdade fundamental dupla. A primeira, ou o aspecto ruim, dessa verdade é a compreensão de que o estado mental “normal” de quase todos os seres humanos contém um forte elemento do que podemos chamar de distúrbio, ou disfunção, e até mesmo de loucura. Determinados ensinamentos fundamentais do hinduísmo talvez sejam os que mais se aproximam da ideia de que esse desajuste é uma forma de doença mental coletiva. Eles o chamam de maya, o véu da ilusão. De acordo com Buda, a mente humana no seu estado normal produz dukkha, palavra que pode ser traduzida por sofrimento, insatisfação, tristeza. De acordo com os ensinamentos cristãos, o estado coletivo normal da humanidade é de “pecado original”.

No entanto, além dessa percepção da natureza humana, que é má notícia – há uma segunda percepção, ou a boa notícia, que é a possibilidade de uma transformação radical da nossa consciência. Nas mensagens hinduístas (e, em alguns casos, também no budismo), essa mudança é chamada de iluminação; nos ensinamentos de Jesus, de salvação; no budismo de fim de sofrimento. Outras palavras usadas são: libertação e despertar.

A nova espiritualidade, o despertar ou a transformação da consciência, está surgindo em grande parte fora das estruturas institucionalizadas. Em parte como resultado de ensinamentos espirituais que surgiram fora das religiões estabelecidas, mas também em decorrência da influência da antiga sabedoria do Oriente, um número cada vez maior de seguidores das religiões tradicionais tem sido capaz de deixar de lado a identificação com a forma, o dogma e um sistema de crenças rígido.

Capítulo 2 – Ego: o estado atual da humanidade

De um modo geral, encobrimos o mistério com um rótulo. Tudo – um pássaro, uma árvore, uma simples pedra e, certamente, um ser humano – é em última análise incognoscível. Isso ocorre porque todas as coisas têm uma profundidade insondável. Tudo o que podemos perceber, sentir e pensar a respeito é a camada superficial da realidade, menos do que a ponta do iceberg.

Quanto mais rápidos somos em ligar rótulos verbais ou mentais a coisas, pessoas ou situações, mais superficial e sem vida nossa realidade se torna.

Assim, mais fracos nos mostramos em relação a ela, ao milagre da vida que continuamente se desenrola dentro de nós e ao nosso redor. Com essa atitude, podemos ganhar inteligência, mas perdemos sabedoria, assim como alegria, amor, criatividade, e vivacidade. Essas qualidades ficam ocultas na lacuna silenciosa entre a percepção e a interpretação. É evidente que necessitamos usar palavras e pensamentos. Ambos têm sua própria beleza; no entanto, será que precisamos ser aprisionados por eles?

Uma das mais básicas estruturas mentais que possibilita a existência do ego é a identificação. A palavra “identificação” deriva dos termos latinos idem, que significa “o mesmo”, e facere, correspondente a fazer. Portanto, quando nos identifiquemos com algo, “fazemos dele o mesmo”. O mesmo que o quê? O mesmo que nós. E lhe atribuímos a percepção do eu – assim ele se torna parte de nossa “identidade”. Um dos níveis mais básicos de identificação é com as coisas, tanto que dizemos meu brinquedo, que mais tarde se torna meu carro, minha casa. Tentamos nos encontrar nas coisas, porém nunca conseguimos fazer isso inteiramente e acabamos nos perdendo nelas. Essa é a sina do ego.

Não podemos reverenciar as coisas verdadeiramente se as usamos como meios para ressaltar nosso eu, isto é, se tentamos nos encontrar por meio delas. É isso que o ego faz. Sua identificação com as coisas cria sentimentos de apego e obsessão em relação a elas, o que, por sua vez, forma a sociedade de consumo.

É importante reconhecer que a história e as formas de pensamento que a constituem, independentemente de todos concordarem com elas ou não, não têm nada a ver com quem a pessoa é. Ainda que a afirmação seja aceita, trata-se, no fim das contas, de uma ficção. Muitos indivíduos não compreendem isso até estarem no leito de morte e constatarem que nada que é exterior, nenhuma coisa, jamais correspondeu a quem eles são. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, disse Jesus. O que significa “humildes de espírito”? Nenhuma relação com coisas e com conceitos mentais que possuam uma percepção do eu.

Caso esteja consciente de que está identificado com algo, a identificação não é mais total. “Eu sou a consciência que está consciente de que existe este vínculo.” Esse é o começo da transformação da consciência. A identificação pode ser com seu corpo físico. Equiparar o corpo físico percebido pelos sentidos – que é destinado a envelhecer, definhar e morrer – ao eu sempre causa sofrimento, cedo ou tarde. Deixar de fazer essa identificação não quer dizer que estejamos negligenciando ou desprezando o corpo. Se não vincularmos o corpo a quem somos, quando a beleza desaparecer, o vigor diminuir ou nos tornarmos incapacitados fisicamente, isso não afetará nosso sentido de valor nem de identidade. O que se chama de “corpo interior” já não é mais o corpo e sim energia vital, a ponte entre a forma e o informe.

Capítulo 3 – A essência do ego

O núcleo central de toda a atividade mental consiste em determinados pensamentos, emoções e padrões reativos repetitivos e persistentes, com os quais nos identificamos com mais intensidade. Essa entidade é o próprio ego. Ele se compõe de pensamentos e emoções, de uma série de lembranças que reconhecemos como “eu e minha história”, de papéis habituais que desempenhamos sem saber e de identificações coletivas, como nacionalidade, religião, raça, classe social e orientação política. Ele contém ainda identificações pessoais não só com bens, mas com opiniões, aparência exterior, ressentimentos antigos e conceitos sobre nós mesmos como melhores do que os outros ou inferiores a eles, como pessoas bem-sucedidas ou fracassadas.

Não reagir ao ego das pessoas é uma das maneiras mais eficazes de não só superarmos nosso próprio ego, como também de dissolver o ego humano coletivo. No entanto, só conseguimos nos abster de reagir quando somos capazes de reconhecer o comportamento de alguém como originário do ego, como uma expressão do distúrbio coletivo da espécie humana. A não reação não é fraqueza, mas força. Outra palavra para não reação é perdão. Perdoar é ver além, ou melhor, é enxergar através de algo. É ver, através do ego, a sanidade que há em qualquer ser humano como sua essência. O ensinamento de Jesus sobre “perdoar os inimigos” trata, em essência, de desfazer uma das principais estruturas egoicas da mente humana.

Nada mais fortalece mais o ego do que estar certo. Isso o identifica com uma posição mental – uma perspectiva, uma opinião, um julgamento, uma história. Precisamos fazer com que os outros estejam errados para nos sentir mais fortes do que somos.

Todo ego confunde opiniões e pontos de vista com fatos. Além disso, nenhum ego consegue estabelecer a diferença entre um acontecimento e sua reação a ele. O ego é sempre um mestre da percepção seletiva e da interpretação distorcida. Apenas por meio da consciência – e não do pensamento – somos capazes de diferenciar fato e opinião.

O que é a compreensão da espiritualidade? É ver com clareza que o que nós percebemos, vivenciamos, pensamos ou sentimos não é, em última análise, quem somos, que não podemos nos encontrar em todas essas coisas, que são transitórias e se acabam continuamente.

Capítulo 4 – Interpretação de papéis: as muitas faces do ego

Um ego que quer alguma coisa do outro – e que ego não deseja isso – em geral representa um tipo de papel para satisfazer suas “necessidades”, que podem ser ganhos materiais; sensação de poder, de superioridade e de ser especial; além de um sentimento de gratificação, seja física ou psicológica.

Qualquer percepção conceitual do eu – ver a si mesmo como isso ou aquilo – é o ego, seja ela favorável (eu sou o maior) ou desfavorável (não sou bom). Por trás de toda autoimagem positiva há o medo de não ser bom o bastante. Por trás de toda imagem autonegativa está o desejo de ser o maior ou melhor que os outros. A interpretação de papéis negativos torna-se particularmente acentuada quando o ego é intensificado por um sofrimento emocional do passado que deseja se renovar com uma experiência diferente. Alguns egos cometem crimes na sua busca pela fama. Eles procuram atenção por meio da notoriedade e da condenação por parte das pessoas.

Um papel muito comum é o de vítima, e a forma de atenção que o ego busca é a solidariedade, a piedade ou o interesse dos outros pelos “meus” problemas, por “mim e minha história”.

Ver-se como vítima é um componente de muitos padrões egoicos, como queixar-se, sentir-se ofendido, ultrajado, e assim por diante. É claro que, depois que uma pessoa se identifica com uma história em que assume o papel de vítima, ela não quer que isso termine, e assim, como muitos terapeutas sabem, o ego não quer o fim de seus “problemas”, porque eles fazem parte de sua identidade.

Os papeis predeterminados podem nos dar uma sensação de identidade relativamente agradável, mas, no fim das contas, nos perdemos em meio a elas. As funções exercidas em organizações hierarquizadas, como os meios militares, a Igreja, instituições governamentais e grandes corporações, tendem a fazer com que as pessoas se tornem identidades representadas. As relações humanas passam a ser impossíveis quando nos confundimos com um papel.

Nos anos 1950, a maioria dos americanos ainda era extremamente conformista em sua forma de pensar e agir, mas, na década seguinte, milhões deles começaram a rejeitar sua identificação com uma identidade conceitual coletiva, cuja loucura se tornara óbvia. O movimento hippie representou um afrouxamento das estruturas egoicas rígidas. Embora tenha se eclipsado, abriu caminho para a sabedoria e espiritualidade orientais.

Em muitos casos, a felicidade é um papel que as pessoas representam. Um exterior sorridente pode ocultar um grande sofrimento. Depressão, esgotamento e reações exageradas são comuns quando a infelicidade é encoberta por sorrisos, sempre que há negação de que existe muita infelicidade.

Capítulo 5 – O corpo de dor

Ao longo de milhares de anos, a mente vem intensificando seu domínio sobre a humanidade, que deixou de ser capaz de reconhecer a entidade que se apossa de nós como o “não eu”. Por causa dessa completa identificação com a mente, uma falsa percepção do eu passa a existir – o ego. A densidade dele depende do grau em que nós – a consciência – nos identificamos com a mente, com o pensamento. Pensar não é mais do que um minúsculo aspecto da totalidade da consciência de quem somos.

As pessoas, em sua maioria, vivem alienadas de quem elas são. Alienação quer dizer que não nos sentimos à vontade em nenhuma situação, em nenhum lugar nem com ninguém, nem mesmo conosco. Estamos sempre tentando nos sentir “em casa”, mas isso nunca acontece. Alguns dos maiores escritores do século XX, como Franz Kafka, Albert Camus, T. S. Eliot e James Joyce, não só reconheceram a alienação como o dilema universal da existência humana, como é provável que a tenham sentido em si mesmos de modo profundo e, assim, foram capazes de expressá-la excepcionalmente em suas obras. Eles não ofereceram uma solução. Sua contribuição foi nos proporcionar uma reflexão sobre essa dificuldade humana, para que pudéssemos vê-la com mais clareza.

Indiretamente, uma emoção também pode ser uma reação a uma situação ou a um acontecimento real, porém ela será uma reação ao acontecimento que terá passado pelo filtro da interpretação mental, do pensamento, ou seja, dos conceitos de bom e mau, semelhante e diferente, eu e meu. Por exemplo, pode ser que você não sinta nenhuma emoção ao ser informado de que o carro de alguém foi roubado. No entanto, caso se trate do seu carro, é provável que fique perturbado. É impressionante a quantidade de emoção que um pequeno conceito mental como “meu” pode gerar.

A voz do ego perturba continuamente o estado natural de bem-estar do ser. Quase todo corpo humano se encontra sob grande tensão e estresse, mas não porque esteja sendo ameaçado por algum fator externo – a ameaça vem da mente. Há um ego vinculado ao corpo, que não pode fazer nada a não ser reagir a todos os padrões desajustados de pensamento que constituem o ego. Assim, um fluxo de emoções negativas acompanha o fluxo de pensamento incessante e compulsivo.

As emoções produzidas pelo ego decorrem da identificação da mente com fatores externos que são, é claro, instáveis e sujeitos a mudanças a qualquer momento. As emoções mais profundas não são emoções de maneira nenhuma, e sim estados do Ser. Elas existem dentro do âmbito dos opostos. Os estados do ser podem ser obscurecidos, porém não tem opostos. Eles emanam de dentro de nós, como o amor, a alegria e a paz, que são aspectos da nossa verdadeira natureza.

Somos capazes de aprender a refrear o hábito de acumular e perpetuar antigas emoções batendo nossas asas, metaforicamente falando, e nos abstendo de viver com a mente no passado, não importa se um incidente aconteceu ontem ou 30 anos atrás. Temos como aprender a não manter vivos acontecimentos e situações e, em vez disso, sempre dirigir a atenção para o momento presente – puro, atemporal -, em vez de nos deixarmos atrair por histórias mentais produzidas pela mente. Assim, nossa própria presença se torna nossa identidade, e não nossos pensamentos e nossas emoções.

Capítulo 6 – A libertação

O começo da nossa libertação do corpo de dor está primeiramente na compreensão de que o temos. Depois, e mais importante, na nossa capacidade de permanecermos presentes o bastante, isto é, atentos o suficiente para percebê-lo como um pesado influxo de emoções negativas quando entra em atividade. No instante em que é reconhecido, ele não consegue mais se passar por nós e se renovar por nosso intermédio.

O pensamento para de ser embotado pela emoção, enquanto nossas percepções do momento não são mais distorcidas pelo passado. A energia que estava presa no corpo de dor muda sua frequência vibracional e é convertida em presença. Quando compreendemos que os corpos de dor buscam inconscientemente mais sofrimento, isto é, que eles querem que algo ruim aconteça, passamos a entender que muitos acidentes de trânsito são causados por motoristas, cujo corpo de dor estava em atividade naquele momento.

Quando o corpo de dor de uma criança está se manifestando por meio de um ataque, não há muita coisa que os pais possam fazer, exceto se manter no estado de presença, para que não estejam estimulados a ter uma reação emocional. O corpo de dor da criança se alimentaria dela. Às vezes, os corpos de dor são extremamente dramáticos. Mas os pais não precisam “embarcar” nesse descontrole.

Nem toda infelicidade se deve ao corpo de dor. Parte dela é infelicidade nova, criada toda vez que não estamos alinhados com o momento presente, quando negamos o Agora de uma maneira ou de outra. Se reconhecemos que o momento presente é sempre o que importa e, portanto, é inevitável, podemos lhe dizer um “sim” interior descomprometido. Com isso, não só deixaremos de criar mais infelicidade como, graças ao desaparecimento da resistência interior, seremos fortalecidos pela própria Vida.

Capítulo 7 – Descobrindo quem somos realmente

“Conhece-te a ti mesmo”. Essas palavras estavam escritas acima da entrada do templo de Apolo em Delfos, lugar do Oráculo sagrado. Na Grécia antiga, as pessoas visitavam o Oráculo, esperando descobrir o que o destino lhes reservava ou o que fazer em determinada situação. Como compreender essa frase “Conhece-te a ti mesmo”? O significado implícito dessas palavras é: antes de qualquer indagação, faça a pergunta fundamental da sua vida: quem sou eu?

Quem as pessoas pensam que são é isto: “Sou um pequeno eu carente, cujas necessidades não estão sendo satisfeitas”. Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam. Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos.

Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse tudo e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber. Ninguém pode ganhar o que não dá. O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo, você já tem. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem.

A lei, segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus: “Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também”.

Capítulo 8 – A descoberta do espaço interior

Depois que compreendemos e aceitamos a impermanência de tudo o que existe e a inevitabilidade da mudança, conseguimos aproveitar os prazeres enquanto eles duram, mas agora livres do medo da perda e da ansiedade quanto ao futuro. Com o desapego desenvolvemos um ponto de vista privilegiado que nos permite observar os acontecimentos, em vez de ficarmos presos dentro deles. É como se nos tornássemos um astronauta que vê a Terra cercada pela vastidão do espaço e compreende uma verdade paradoxal: nosso planeta é precioso e ao mesmo tempo insignificante. O reconhecimento de que “isto também passará” produz esse distanciamento e, com ele, nossa vida ganha mais uma dimensão – o espaço interior.

Agora, podemos desfrutar e estimar as coisas e os eventos sem lhes atribuir uma importância que eles não possuem. Temos condições de participar da dança da criação e sermos ativos sem nos apegarmos ao resultado e sem impormos exigências pouco razoáveis em relação ao mundo, como satisfaça-me, faça-me feliz, faça-me sentir seguro, diga-me quem sou. O mundo não pode nos dar nada disso e, quando deixamos de ter essas expectativas, todo o sofrimento que nós mesmos criamos chega ao fim.

Quando ouvimos falar de espaço interior, pode ser que comecemos a buscá-lo. No entanto, se fizermos isso como se estivéssemos procurando um objeto ou uma experiência, não teremos sucesso.

Esse é o dilema de todos aqueles que estão tentando alcançar a compreensão espiritual, ou iluminação. Se não gastamos todo o nosso tempo com descontentamento, preocupação, ansiedade, depressão, desespero nem nos deixamos consumir por outros estados negativos; se temos a capacidade de desfrutar as coisas simples, como ouvir a som da chuva ou do vento; se conseguimos ver a beleza das nuvens passando pelo céu; se temos condições de ficar sozinhos de tempos em tempos sem nos sentir solitários nem carentes do estímulo mental de um entretenimento; se somos capazes de nos ver tratando um estranho com uma bondade sincera sem esperar nada em troca, isso significa que se abriu um espaço – não importa que seja curto – no fluxo incessante de pensamentos que é a mente humana. 

Capítulo 9 – Nosso propósito interior

A coisa mais importante a entender é: nossa vida tem um propósito interior e um propósito exterior. O primeiro deles diz respeito a Ser e é primário. O segundo se refere a fazer e é secundário. Embora este livro trate principalmente do propósito interior, este capítulo e o seguinte indicam também como alinhar esses dois propósitos. O interior e o exterior, contudo, estão a tal ponto interligados que é quase impossível falar de um sem mencionar o outro.

Nosso propósito interior é despertar. É simples assim. Nós o compartilhamos com todas as pessoas do planeta, porque esse é o propósito da humanidade. O propósito interior de cada indivíduo é uma parte essencial do propósito do todo – do universo e da sua inteligência emergente. Por outro lado, o propósito exterior pode mudar ao longo do tempo. Ele varia significativamente de pessoa para pessoa. Encontrar o propósito interior e viver alinhado com ele é o alicerce para a satisfação do propósito exterior. É a base para o verdadeiro sucesso. Sem esse alinhamento até conseguimos alcançar determinadas metas por meio do esforço, da luta, da determinação e da habilidade. Mas não existe alegria nesses empreendimentos, e eles costumam acabar em alguma forma de sofrimento.

A satisfação do propósito primário estabelece a base para uma nova realidade, uma nova Terra. Depois que esse alicerce passe a existir, seu propósito exterior se torna carregado de poder espiritual, porque seus objetivos e suas intenções estarão unidos ao impulso evolucionário do universo.

Quando vê aquilo que está fazendo ou o lugar em que está como o propósito principal da sua vida, você nega o tempo. A negação do tempo naquilo que está sendo realizado também fornece a ligação entre seus propósitos interior e exterior, entre ser e fazer. Sempre que nega o tempo, você nega o ego. Não importa a atividade que esteja executando, você a desenvolverá extraordinariamente bem, porque o fazer em si passa a ser o ponto focal da sua atenção. Sua ação se torna então um canal, pelo qual a consciência entra no mundo.

Capítulo 10 – Uma nova Terra

Todo pensamento pressupõe uma perspectiva, enquanto toda perspectiva, pela sua própria natureza, implica limitação, o que, em última análise, significa que não é verdadeiro, pelo menos não absolutamente. De uma perspectiva distante das limitações do pensamento e, portanto, incompreensível à mente humana, tudo está acontecendo agora. Tudo o que sempre foi ou o que será existe agora, fora do tempo, que é uma construção mental.

A ida do mundo em direção à sua forma manifestada e seu retorno ao não manifestado – sua expansão e contração – são dois movimentos universais que podemos chamar de a saída de casa e a volta ao lar. Ambos se refletem, em todo o universo, de muitas maneiras, como na incessante expansão e contração do coração, assim como nos atos contínuos de inspirar e expirar. Também se revelam nos ciclos do sono e da vigília. Toda noite, sem sabermos, retornamos para a Origem não manifestada de toda a vida quando entramos no estágio do sono profundo, sem sonhos, e depois, revigorados, ressurgimos pela manhã.

E precisamente com a chegada da velhice, com a vivência de uma perda ou de uma tragédia pessoal que a dimensão espiritual entra na vida das pessoas. Ou seja, seu propósito interior só aparece quando seu propósito exterior entra em colapso e a concha do ego começa a rachar. Esses acontecimentos representam o início do movimento de retorno á dissolução da forma. Nas culturas mais antigas, deve ter havido uma compreensão intuitiva desse processo, e é por isso que os idosos eram respeitados e reverenciados.

À medida que nossa consciência aumenta e o ego deixa de controlar nossa vida, não temos que esperar até que nosso mundo encolha ou entre em colapso por causa da velhice ou de uma tragédia pessoal, para despertarmos para o propósito interior. Como a nova consciência está começando a surgir no planeta, é cada vez maior o número de pessoas que já não precisam ser sacudidas para despertar. Elas abraçam esse processo de modo voluntário até mesmo enquanto ainda estão envolvidas no ciclo de crescimento e expansão. Quando esse ciclo deixar de ser usurpado pelo ego, a dimensão espiritual entrará tão poderosamente no mundo através do movimento de saída – pensamento, fala, ação, criação – quanto por meio do movimento de retorno – silêncio, Ser e dissolução da forma.

A nova Terra surge, à medida que um número cada vez maior de pessoas vai descobrindo que seu propósito mais importante na vida é trazer a luz da consciência a este mundo e, assim, usa suas ações, sejam elas quais forem, como um veículo para a consciência. A alegria do Ser é a alegria de estar consciente.

Ficha técnica:

Título: Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência

Título original: The New Earth

Autor: Eckhart Tolle

Primeira edição: Editora Sextante

Resenha: Rogério H. Jönck

Imagens: Reprodução e Unsplash