ESG

The Hope Economy: como destravar os negócios de impacto no Brasil

The Hope Economy

Monica Miglio Pedrosa

As empresas já entenderam que precisam ser mais sustentáveis. Os investidores têm interesse em aplicar em negócios de impacto. E o Brasil tem empreendedores, cientistas e cooperativas capazes de entregar soluções concretas para alguns dos maiores desafios sociais e ambientais do país. O problema, segundo Gui Brammer, executive fellow do Fórum Econômico Mundial e fundador e CEO da The Hope Economy, é que essas três pontas ainda não se conectam, o que ele chama de “teoria do triângulo quebrado”.

“Negócios de impacto não conseguem crescer porque ninguém compra deles. As grandes empresas, embora precisem de fornecedores mais sustentáveis, muitas vezes deixam de avançar porque essas soluções ainda não têm alguns protocolos, escala ou maturidade tecnológica. Sem compradores, o mercado financeiro também não investe”, explica Gui.

Essa desconexão é o ponto central do documentário The Hope Economy (A Economia da Esperança), idealizado por Brammer em parceria com Gustavo Fonseca e Fernanda Andrade, a partir de sua experiência de mais de 20 anos na indústria de reciclagem e à frente da startup de reciclagem Boomera. Filmado em Seul, na Coreia do Sul, na China e em mais de 20 localidades no Brasil ao longo do ano passado, o filme reúne mais de 70 entrevistas que mostram tanto a potência brasileira nessa agenda quanto os desafios que ainda impedem essas soluções de ganhar escala.

Gui Brammer, fundador e CEO da The Hope Economy
Gui Brammer, fundador e CEO da The Hope Economy

The Hope Economy será lançado no festival EcoFalante nos próximos dias 9 e 10 de junho e terá também uma sessão exclusiva em junho na Experience House, em parceria com o Experience Club. Em paralelo ao documentário, Gui Brammer firmou uma parceria com a Schwab Foundation e o IMD, na Suiça, uma das escolas de negócio que mais estudam inovação social no mundo, para desenvolver um programa exclusivo para o público brasileiro, em formato híbrido, voltado ao estudo de mudanças sistêmicas para escalar a inovação social no Brasil. A etapa final do programa será realizada no campus do IMD, em Lausanne, e também na sede do World Economic Forum, em Genebra.

Gui se conectou ao Fórum Econômico Mundial após vender a Boomera para o Grupo Ambipar. Em 2025, ano da COP30 no Brasil, Brammer foi convidado a se tornar o primeiro brasileiro a ocupar a posição de executive fellow na área de Natureza e Clima, com a missão de ajudar a aproximar o país do ecossistema global de negócios sustentáveis.

A vivência nesse ambiente internacional, que inclui a reunião anual de cúpula em Davos, Suiça, e o Summer Davos, na China, reforçou que o Brasil ainda participa pouco das discussões globais. “O Brasil, para mim, é o país mais privilegiado para abraçar essa oportunidade que está surgindo da bioeconomia. Temos milhares de cientistas no Brasil, super especialistas em bioeconomia, que estão escondidos nas universidades”, afirma.

Para Gui, os setores mais aderentes para a primeira onda são agro, químico, alimentos e cosméticos. Ele conta que, no documentário, entrevistou o professor aposentado da Unicamp Lauro Barata, que atualmente mora em Santarém, no Pará, onde ensina novos alunos a se tornarem biotécnicos e engenheiros. Aos 83 anos, ele desenvolveu uma técnica para extrair a essência das folhas do pau-rosa para uso em perfumes, sem a necessidade de derrubar a árvore. “Ele é o único brasileiro contratado pela Chanel para fazer o perfume Chanel nº 5”, revela.

O documentário também mostra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM, instituto de pesquisa científica de Campinas ainda pouco conhecido no país, que tem um dos aceleradores de partícula mais avançados do mundo. “Mais de 1.800 cientistas trabalham no CNPEM estuando biodiversidade.”

A The Hope Economy, fundada por Gui, vai atuar inicialmente em três engrenagens: conhecimento, experiência e matchmaking. A primeira parte da premissa de que os executivos precisam de repertório para aprender a liderar na bioeconomia. “Simplesmente, aprendemos a fazer de um jeito. Agora precisamos de conhecimento para mudar a forma de fazer.”

A segunda engrenagem é a experiência. Para Brammer, não basta estudar o tema à distância. É preciso aproximar os executivos das realidades, dos territórios e das soluções que já existem. A terceira frente é o matchmaking, quando conhecimento e experiência se transformam em decisão de negócio. A ideia é conectar empresas que têm problemas concretos a soluções de impacto capazes de respondê-los. Essas três engrenagens vão criar pontes para que os vértices do triângulo finalmente se conectem e o potencial do Brasil como líder da bioeconomia possa aflorar.

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