“Acima de tudo, a saúde vai precisar de gente que goste de gente”, diz Alline Cezarani, CEO da Rede Santa Catarina

Monica Miglio Pedrosa
Ela foi a primeira mulher a assumir como CEO da Rede Santa Catarina, em mais de um século de história da instituição no Brasil. Graduada em Administração de Empresas com ênfase em Gestão Hospitalar, Alline Cezarani possui pós-graduação em Saúde Pública, especialização em Gerontologia e MBA em Gestão de Saúde e entrou na Rede Santa Catarina há 23 anos, no programa de trainee da instituição.
Em uma entrevista concedida na Experience House, sede do Experience Club, Alline falou sobre como lidera uma organização centenária em um momento de grandes transformações no setor de saúde. À frente de uma rede com 20 unidades em sete estados, incluindo o Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo, e o Hospital São José, no Rio de Janeiro, que são privados, ela lidera uma equipe de 13 mil colaboradores. No Santa Catarina – Paulista, já foram realizadas mais de 4 mil cirurgias robóticas, incluindo o primeiro transplante renal entre irmãos por robótica da América Latina.
Durante a conversa, ela falou sobre o burnout que sofreu durante a pandemia, a importância da tecnologia médica no cuidado do paciente e os impactos do envelhecimento populacional no hospital do futuro. A executiva acredita que, acima de tudo, o futuro da saúde continuará dependendo de profissionais e de líderes que gostem de gente.
[EXP] Como conciliar os valores de uma instituição centenária com a necessidade de inovação e modernização na saúde?
[Alline Cezarani] Como ser centenário e ser deste tempo? A Rede Santa Catarina tem 126 anos de Brasil, mas foi fundada em 1571 em Braunsberg, hoje Polônia, pela Madre Regina Protmann. Trabalhamos com saúde, educação e assistência social, sempre muito fiéis ao que veio da fundadora, que é cuidar dos doentes e educar crianças.
Ao longo dos anos, o Brasil foi mudando e a gente foi mudando junto. Se você olhar o Hospital Santa Catarina, aqui em São Paulo, ele foi crescendo e se modernizando de acordo com as necessidades da cidade e do tempo. Hoje é um hospital super moderno, com toda a tecnologia necessária, mas que mantém a sua tradição. Acho que esse é o nosso grande desafio e também a nossa força: continuar sendo uma instituição fiel à sua essência, mas conectada ao presente.
É uma história muito bonita de entrega de muitas mulheres que dedicaram a vida a construir algo melhor para quem precisa. Tanto que o nosso logo é uma mão, porque representa trabalho, cuidado e serviço. E isso continua muito vivo até hoje.
Como foi sua história junto à Rede Santa Catarina?
Entrei na Rede Santa Catarina por meio de um programa de trainee. Estava no segundo ano de administração hospitalar e participei de um processo seletivo com mais de 100 alunos. Veja como as irmãs são visionárias! Há 23 anos elas já tinham criado um processo para formar diretores e sucessores dentro da rede. Como temos uma cultura muito própria, elas foram buscar alunos ainda na faculdade para que, depois de alguns anos, essas pessoas estivessem prontas e alinhadas à cultura da instituição.
Nos dois anos do programa eu me sentava com os diretores em reuniões, participava de decisões, viajava nas férias escolares para conhecer os hospitais fora de São Paulo e entendia, na prática, o que significava ser diretora. Fui efetivada, assumi cargos de gerência, passei por unidades menores, pelo corporativo, dirigi hospital até me tornar diretora de saúde.
Qual foi o período mais desafiador que viveu na instituição?
Sem dúvida, foi durante a pandemia. Foi extremamente difícil. Eu tive burnout à época, por tudo que vivi dentro dos hospitais. Em uma das nossas unidades que atendia o SUS, tivemos que entrar com protocolo de esgotamento de recursos, que é quando você precisa escolher a quem dar assistência porque não há recurso para todos. Isso me marcou profundamente.
Assumi como CEO da rede em 2022 e nesse momento comecei a me aproximar também da frente de educação, que até então não era meu mundo. Venho da saúde, mas comecei a entender esse outro braço e a importância dele. Porque, se quisermos construir um mundo diferente e mais justo, é ali, na educação, que isso começa.
A Rede Santa Catarina já tinha uma forte atuação social antes mesmo de ESG virar uma pauta nas empresas. Como vocês enxergam esse tema hoje?
Eu costumo dizer que a Rede Santa Catarina já nasceu ESG, porque o social faz parte da nossa origem. Nós existimos para cuidar, para servir, para fazer o bem. Mas, quando você começa a estudar o tema mais profundamente e colocar tudo no papel, percebe que ainda há muito o que fazer, principalmente na agenda ambiental. Como somos uma instituição centenária, temos desafios enormes relacionados às nossas estruturas físicas.
No social, isso está muito ligado à nossa vocação. Temos olhado bastante para inclusão, para dar mais espaço para mulheres, pessoas pretas e pardas e pessoas com deficiência. É curioso porque somos uma instituição fundada por mulheres, mas eu fui a primeira mulher a assumir a liderança máxima da rede. Então esse ainda é um desafio do nosso tempo.
Na governança, as irmãs sempre foram muito visionárias. Há mais de 30 anos, mesmo sem necessidade legal, elas já estruturavam conselhos e um modelo de governança muito organizado.
Achei interessante a abordagem ASG+E, de Espiritualidade. Como isso funciona, na prática?
Como somos uma instituição confessional católica, entendemos que a espiritualidade faz parte do cuidado. A gente acredita que, se você não estiver bem com você mesmo, não conseguirá cuidar bem do outro.
Isso aparece no dia a dia de uma forma muito natural. Todas as reuniões começam com um momento de espiritualidade, que pode ser uma oração, uma música, um silêncio ou apenas um momento de reflexão. Temos equipes de pastoral nos hospitais e nas escolas, que apoiam colaboradores, pacientes e alunos. Mas é importante dizer que isso vai muito além da religião. Para nós, espiritualidade é amor ao próximo, é formação de valores, é cuidado.
Tanto que no nosso Balance Scorecard existe uma dimensão chamada “cuidar com amor”. E isso vale para tudo: cuidar das pessoas, do patrimônio, do ambiente e de quem servimos.
Como está o uso de tecnologia na Rede Santa Catarina?
Em tecnologia médica, estamos bem avançados. Temos dois hospitais de mercado, o Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo, e o Hospital São José, no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro, que são os grandes motores financeiros da instituição. Eles ajudam a sustentar a nossa atuação filantrópica, porque eu costumo dizer que só faz filantropia quem tem recursos. É a partir deles que conseguimos dar bolsas para alunos e manter outras frentes da rede.
Nesses hospitais, investimos muito em tecnologia médica. Temos robótica, equipamentos modernos, centros cirúrgicos atualizados e tecnologias aplicadas a diferentes especialidades, como a oncologia, por exemplo. Temos robôs em três hospitais e já realizamos mais de 4 mil cirurgias robóticas. Mas eu sempre volto para a nossa essência. Tecnologia é necessária, mas ela não é o nosso maior diferencial. Ele está no cuidar, no olhar humano, em entender que estamos cuidando do amor de alguém.
De que forma a Rede usa inteligência artificial?
A gente está começando a olhar para a inteligência artificial, mas ainda existem barreiras naturais de uma tecnologia nova chegando, especialmente na saúde. Acabamos de montar uma comissão de ética para o uso de inteligência artificial, porque esse tema precisa ser tratado com muito cuidado. Temos várias frentes sendo estudadas, como uso no prontuário médico e na leitura de laudos e exames, mas ainda são iniciativas que não estamos fazendo em grande escala.
Na saúde, qual é o desfecho possível do uso errado de uma inteligência artificial? Pode ser o óbito de alguém. Então precisamos ter critérios muito éticos para usar essa tecnologia em um ser humano. É um caminho importante, mas precisa ser feito com muita cautela.
E a pauta de saúde mental dentro da instituição?
A saúde mental está totalmente dentro da nossa agenda. Eu mesma tive burnout durante a pandemia, então é um tema que me toca muito pessoalmente. Mas, para além da minha história, nós entendemos que cuidar do outro não é simples. Os nossos profissionais lidam diariamente com dor, sofrimento, pressão e desgaste emocional.
Mesmo antes das novas exigências regulatórias, já tínhamos implantado um programa de saúde mental para os colaboradores. Hoje temos apoio psicológico, apoio psiquiátrico e um programa chamado ASA, que significa Agente de Suporte ao Acolhimento. Treinamos colaboradores dentro das nossas unidades para identificar sinais de deterioração da saúde mental nos colegas, porque isso não acontece de uma hora para outra.
A sociedade está doente emocionalmente e nós somos um reflexo dela. Temos 13 mil colaboradores, então vivemos histórias muito diferentes dentro da instituição. Já tivemos casos de suicídio de colaboradores, afastamentos importantes por questões emocionais e situações familiares extremamente difíceis. Embora tenhamos identificado que a rede é um ambiente saudável do ponto de vista organizacional, existem pessoas que precisam de apoio e nós fazemos questão de oferecer esse suporte. E tem o programa Florescer.
O que é essa iniciativa?
O Florescer nasceu há quase dois anos dentro da nossa agenda ESG, muito conectado à realidade da própria instituição. Somos uma empresa formada majoritariamente por mulheres, que representam cerca de 70% dos nossos colaboradores, e a violência doméstica e de gênero é uma realidade cada vez mais presente.
Criamos o programa em parceria com uma ONG para oferecer suporte completo às colaboradoras que querem sair de ciclos de violência. Esse apoio vai desde retirar a mulher de dentro de casa até oferecer acolhimento em hotel, suporte financeiro e acompanhamento especializado. Já realizamos mais de 150 atendimentos nesse período.
O que mais me marcou foi perceber que muitas mulheres nem identificavam que viviam violência. Uma líder da rede me procurou depois de ler a cartilha do Florescer e disse que só entendeu que estava dentro de um ciclo de violência quando percebeu que violência não é apenas agressão física. Existe violência psicológica, patrimonial, financeira. Muitas vezes é aí que tudo começa. É um programa pelo qual tenho um carinho enorme, porque vejo o impacto real na vida das pessoas.
Como o envelhecimento da população deve transformar o sistema de saúde nos próximos anos?
Existe uma discussão muito importante aí, já que vamos viver mais, mas não necessariamente teremos alguém para cuidar da gente. Nossa geração tem menos filhos, as famílias mudaram e ninguém envelhece ficando mais rico. Envelhecemos ficando mais pobres e mais dependentes de cuidado. Então a construção desse envelhecimento precisa começar agora. A tecnologia vai ajudar muito nisso. Ela já permite diagnósticos mais precoces, tratamentos mais rápidos e um acompanhamento muito mais eficiente dentro dos hospitais.
Do ponto de vista médico, acreditamos que o câncer será a doença que mais vai pressionar o sistema de saúde nos próximos anos. Hoje ainda são as doenças cardíacas que mais matam, mas quanto mais as pessoas vivem, maiores são as chances de desenvolver doenças oncológicas. E isso terá um impacto enorme tanto no sistema público quanto no privado.
Também acreditamos que o modelo hospitalar deve mudar bastante no futuro. Teremos menos internações de média complexidade e muito mais cuidado dentro de casa, apoiado por tecnologia e dispositivos de monitoramento. Os hospitais devem ficar mais concentrados em doenças de alta complexidade, como câncer e neuro, além de cuidados terminais. Parte dessa mudança virá pela evolução tecnológica, mas também por uma questão de recurso. O sistema de saúde já vive uma pressão financeira muito grande e isso tende a aumentar nos próximos anos.
Que tipo de liderança a saúde precisará ter nos próximos anos?
Acho que, acima de tudo, a saúde vai precisar de gente que goste de gente. Cada vez mais estamos nos relacionando por meio da tecnologia, e a inteligência artificial já consegue entregar respostas rápidas, diagnósticos e informações. Mas o cuidado continua sendo humano.
Claro que vamos precisar de profissionais muito preparados tecnicamente, porque o sistema de saúde é extremamente complexo. É preciso entender de gestão, finanças, tecnologia e comunicação. Mas, mais do que qualquer competência técnica, acredito que vamos precisar de líderes humanos, empáticos, que saibam ouvir e se conectar com o outro. A tecnologia vai continuar avançando e resolvendo muitas questões, mas aquilo que realmente transforma a experiência do cuidado ainda é o humano.
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



