Mercado

J.P. Morgan acelera estratégia internacional e investe US$ 20 bi por ano em tecnologia

Monica Miglio Pedrosa

O J.P. Morgan aposta na expansão internacional e em uma relação mais ampla e recorrente com os clientes para sustentar seu próximo ciclo de crescimento. Nos últimos 15 anos, o banco ampliou uma atuação historicamente concentrada em investimentos e trading, áreas mais sujeitas aos ciclos econômicos, e está investindo no fortalecimento de negócios como Corporate Banking, pagamentos e soluções de tesouraria. Segundo o executivo, o objetivo é que o cliente tenha uma única porta de entrada na instituição, mas possa acessar os diferentes serviços a partir daí. “Queremos ser o mais local dos globais e, ao mesmo tempo, o mais global dos locais”, afirmou.

A estratégia foi apresentada por Marcelo Gaiani, CEO do J.P. Morgan no Brasil e speaker da terceira edição da Confraria de CEOs, evento que reuniu ontem 120 CEOs e lideranças na Experience House, em São Paulo. O executivo, que nasceu na Argentina, teve uma trajetória internacional na instituição, atuando em Nova York e no Brasil, país em que volta a morar com a família pela segunda vez.

Ricardo Natale, CEO do Experience Club, recebe Marcelo Gaiani, CEO do J.P. Morgan Brasil

Conhecido como o maior banco de investimentos do mundo, o J.P. Morgan possui US$ 4,5 trilhões em ativos no balanço e mantém sob custódia mais de US$ 40 trilhões em ativos de clientes. A instituição faz negócios com aproximadamente 90% das empresas da Fortune 500 e processa cerca de US$ 12,5 trilhões em pagamentos por dia, em 120 moedas e 160 países. Segundo Gaiani, um em cada três dólares movimentados diariamente no mundo passa pelo banco.

Excluindo a operação de varejo, concentrada principalmente nos Estados Unidos, 40% da receita do banco já é gerada fora do país, volume que dobrou na última década. Embora Gaiani ainda veja espaço para o J.P. Morgan ampliar sua participação no mercado norte-americano, ele considera que as maiores oportunidades estão nos países em que o banco já está presente e em novos mercados, como África e Europa.

Trabalho presencial e tecnologia

A expansão também vem acompanhada de investimentos em espaços físicos, alinhados à política de trabalho presencial adotada pelo banco e defendida por Jamie Dimon, CEO global da instituição. No ano passado, o J.P. Morgan inaugurou sua nova sede em Nova York, movimento que, para Gaiani, simboliza a decisão de permanecer na cidade e a convicção de que ela continua sendo o centro do mercado financeiro mundial. A instituição também está ampliando sua estrutura em outras regiões. Na América Latina, realizou investimentos em escritórios no México e na Argentina e iniciou a reforma e a expansão de sua unidade na Faria Lima, em São Paulo.

A aposta do J.P. Morgan em tecnologia é alta. Anualmente, o banco destina US$ 20 bilhões à tecnologia, incluindo inteligência artificial e segurança cibernética. Dos pouco mais de 300 mil funcionários da instituição, aproximadamente 230 mil já utilizam diariamente ferramentas internas de IA, segundo Gaiani.

Macroeconomia e geopolítica

O executivo afirmou que o elevado patamar de juros é um dos principais desafios do mercado brasileiro atualmente. Gaiani considera a taxa real do país alta e avalia que uma mudança mais consistente depende de uma correção no comportamento fiscal. Os efeitos já são sentidos por empresas cuja estrutura de capital não estava preparada para suportar por tanto tempo um custo de financiamento tão elevado e devem avançar gradualmente sobre outras companhias e as pessoas físicas.

A permanência dos juros nesse nível também reduz a capacidade de financiar o crescimento, já que os investimentos precisam oferecer retornos suficientes para justificar o custo da dívida. “O Brasil não pode continuar nessa trajetória por muito tempo mais”, afirmou.

As pressões internas se somam a um ambiente internacional que deve continuar marcado por conflitos e disputas comerciais. Gaiani não espera uma solução de curto prazo para as principais tensões em andamento e define essa instabilidade persistente como “inflação geopolítica”. Para as empresas, isso significa manter as operações preparadas para choques de oferta, mudanças nas relações comerciais, oscilações cambiais e riscos de segurança. Esses fatores são acompanhados permanentemente pelo J.P. Morgan e podem provocar ajustes na estratégia do banco, embora não alterem sua direção de longo prazo.

Na América Latina, parte dessa pressão vem da disputa de influência entre China e Estados Unidos. A primeira se tornou o principal parceiro comercial da região, com exceção do México, enquanto os norte-americanos tentam recuperar parte do espaço perdido. O Brasil, segundo Gaiani, terá de administrar a relação com as duas potências, sem abrir mão de sua autonomia.

Aposta no Brasil

O Brasil ocupa uma posição relevante na estratégia internacional do J.P. Morgan. Presente no país de forma ininterrupta há mais de 70 anos, o banco reúne cerca de 1,2 mil funcionários, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, e atende aproximadamente 1,3 mil grupos econômicos, entre companhias brasileiras e subsidiárias de multinacionais. A operação também conecta empresas locais aos mercados internacionais e apoia grupos estrangeiros em suas atividades no país.

Entre os movimentos recentes, Gaiani destacou o lançamento, em parceria com a B3, dos primeiros ETFs ativos do mercado brasileiro. Os produtos permitem que investidores locais tenham acesso a ativos internacionais por meio de instrumentos cuja composição é administrada ativamente por um gestor.

O banco também acompanha o mercado brasileiro de varejo por meio de sua parceria estratégica com o C6 Bank. Já na área de pagamentos, o foco atual permanece nas grandes companhias brasileiras e nas subsidiárias de multinacionais.

Fotos: Marcos Mesquita

  • Aumentar texto Aumentar
  • Diminuir texto Diminuir
  • Compartilhar Compartilhar