Ao criar a Stay, Tsai Chi-yu transforma a gratidão pelo Brasil em legado

Monica Miglio Pedrosa
Redução de processos burocráticos, simplificação da experiência e comunicação mais fluida com o cliente. O que as fintechs fizeram para ampliar o acesso ao sistema bancário no Brasil, a Stay está fazendo com a previdência privada, ao mesmo tempo em que ajuda empresas a enfrentar um dos maiores desafios da gestão de pessoas hoje, a retenção de talentos.
Criada em 2023 por Tsai Chi-yu, atual CEO, ao lado de outros três cofundadores, a empresa poderia ser apenas o próximo passo na trajetória de um executivo que passou por posições de liderança na Uber e na 99, além de ter atuado como CPO (Chief Product Officer) e CTO (Chief Technology Officer) da Hash. Mas, para Tsai, a Stay também representa uma forma de contribuir com o país que o acolheu, em um dos temas mais sensíveis para os brasileiros, a educação financeira.
Nascido no sul de Taiwan, em uma cidade portuária da ilha chinesa, Tsai chegou ao Brasil ainda criança, aos seis anos. Veio com a família, após os pais, empresários bem-sucedidos, decidirem buscar uma vida mais tranquila. Como tinham amigos no país, decidiram se mudar para o Brasil e se estabeleceram em Araraquara, no interior de São Paulo, onde Tsai passou boa parte da infância e adolescência. “Foi uma infância muito feliz. Me identifiquei rapidamente com o Brasil. Sempre nos sentimos em casa”, lembra.

Três anos após a mudança, uma crise econômica que se espalhou por países asiáticos atingiu diretamente os negócios da família em Taiwan, mudando a realidade financeira aqui no Brasil. O que seria um período de estabilidade se transformou em uma fase de restrições. Tsai passou a estudar na escola pública da cidade, enquanto os pais e, em especial, a mãe, retornavam ao país de origem para reerguer as empresas.
Ainda assim, ele reconhece que permaneceu em posição privilegiada. “Como meus pais tinham uma excelente formação, nunca me faltou cultura nem aptidões sociais. Costumamos olhar para a desigualdade apenas do ponto de vista financeiro, mas a desigualdade social e cultural é pouco discutida”, reflete.

Ao se formar no Ensino Médio, ingressou na USP e veio morar em São Paulo, onde se graduou em finanças e contábeis. Ele reconhece o impacto dessa oportunidade, já que não teria condições de arcar com uma formação superior privada. A defasagem que não havia percebido antes se tornou evidente na universidade, já que Tsai não dominava o inglês, algo comum entre seus colegas.
Para superar essa lacuna, decidiu trabalhar nos Estados Unidos durante três meses, vendendo serviço de TV a cabo na Califórnia. Após essa experiência, conquistou uma bolsa da Goldman Sachs para um programa em Yale. Depois, iniciou a carreira no mercado financeiro como trader de derivativos no Morgan Stanley, em São Paulo.
Apesar de adorar o ambiente de trabalho e os colegas, Tsai sentia que aquele ainda não era o caminho que queria trilhar para o resto da vida. Com uma bolsa de estudos, foi morar em Paris para concluir o Mestrado em Política Econômica Internacional na Sciences Po, um Instituto de Estudos Políticos francês que formou vários estadistas da Europa. Após alguns anos na França, concluiu que não era essa a trajetória que queria seguir e decidiu voltar ao Brasil.
Mudança de rumo
Entre as oportunidades que surgiram, uma se destacou, a de participar da operação da Uber no país. Na empresa, atuou na expansão para outras capitais, além de trabalhar na área de produtos e engajamento dos clientes. Fez parte da equipe que ajudou a transformar o Brasil na maior operação da companhia no mundo.
Quando a empresa chinesa Didi Global comprou a 99, no início de 2018, tornando a companhia o primeiro unicórnio brasileiro, Tsai foi convidado a se juntar ao time. Nos dois anos em que esteve lá, passou por diferentes áreas, incluindo produto, marketplace e novos negócios. Participou da criação da categoria Comfort, posteriormente replicada pela Uber. “Foi uma excelente escola”, afirma.

Foi nesse momento que conheceu as fundadoras da Maya Capital, Monica Saggioro e Lara Lemann. Nas conversas iniciais, deixou claro que só seguiria com um novo projeto se fosse para construir algo com impacto duradouro. “A maioria dos meus colegas, que nasceram aqui, não entendem essa gratidão enorme que tenho pelo Brasil”, afirma.
Assim nasceu a Stay, com a proposta de trazer uma vida financeira mais digna para milhões de brasileiros. “Saber que as pessoas estão construindo uma vida financeira mais digna e realizando seus objetivos de vida porque puderam ter acesso a um produto confiável, a um preço justo, é o que me move”, explica.
A empresa nasce em um contexto de envelhecimento populacional acelerado e pressão crescente sobre a previdência pública. “Se a previdência privada é um produto tão bom, por que ele não é popular? Porque é complicado, burocrático e complexo. A Stay nasceu para mudar isso”, afirma.

Do lado das empresas, a oferta do benefício melhora a eficiência tributária e cria diferenciais para reter talentos, ao vincular o benefício ao tempo de permanência do colaborador.
Com pouco mais de três anos de operação, a Stay está prestes a chegar a 100 clientes. O foco da companhia são as organizações de médio e grande porte. Em parceria com a seguradora Zurich, a Stay tem atualmente uma equipe de cerca de 30 pessoas.
À frente da Stay, Tsai defende que o papel de um líder tem três dimensões. A primeira é a energia, como forma de manter o time engajado mesmo diante das oscilações do dia a dia. A segunda é o senso de urgência, que nasce de uma visão mais ampla do negócio e da capacidade de traduzir prioridades de forma objetiva para a equipe. A terceira é a clareza, para reduzir incertezas e dar direção estratégica.

Entre os livros que o inspiraram está Sapiens, de Yuval Harari, e O Príncipe, de Maquiavel, menos pela forma e mais pela visão pragmática e dura que ajuda a tomar decisões difíceis. Além da leitura, ele gosta de jogar tênis, correr e ir ao cinema no tempo livre.
Recém-casado, Tsai planeja com a esposa o nascimento dos herdeiros e dividem hoje a casa com uma pet. Seus filhos serão os primeiros, após gerações, a nascer fora de Taiwan. Uma decisão que simboliza a continuidade de uma história construída no Brasil e que ele busca, agora, retribuir por meio da empresa que lidera.
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