Black Mirror na vida real? Startup russa testa pombos como drones biológicos

Monica Miglio Pedrosa
A fronteira entre ficção científica e realidade parece cada vez mais tênue. No episódio Odiados pela Nação, da série distópica Black Mirror, um mundo que extinguiu as abelhas naturais passa a depender de insetos robóticos para garantir a polinização e a segurança alimentar das espécies. O experimento, porém, sai do controle quando os dispositivos são hackeados. O episódio levanta uma questão incômoda: até onde estamos dispostos a ir quando tecnologia e biologia se fundem?
Fora das telas, iniciativas reais começam cada vez mais a impulsionar questões éticas. Empresas como a Neuralink, fundada por Elon Musk, investem em interfaces cérebro-máquina para ampliar capacidades humanas, com uso inicial em pessoas que têm deficiências cerebrais. Na Rússia, a startup Neiry iniciou a fase de testes práticos de uma plataforma que utiliza pombos vivos com interfaces neurais implantadas no cérebro. A proposta é transformá-las em uma espécie de drone biológico, guiado por estímulos elétricos que influenciam a direção do voo.
Os primeiros experimentos envolvem pombos que carregam um pequeno controlador acoplado ao dorso, em formato de mochila, alimentado por painéis solares. Segundo a empresa, os animais podem voar até 400 Km sem necessidade de interrupções para recarga, superando limitações comuns a drones mecânicos tradicionais, como autonomia de bateria e restrições de peso.
Segundo a Neiry, a interface neural fornece uma leve estimulação a regiões específicas do cérebro, levando o pombo a “preferir” determinada direção. Caso haja captação de imagens, os dados poderiam ser filtrados no próprio dispositivo para atender às regulamentações de privacidade locais.
As aplicações potenciais incluem inspeções de infraestrutura, apoio a operações de busca e salvamento, observação costeira e ambiental e monitoramento de áreas remotas. Alexander Panov, fundador e CEO do Grupo Neiry, afirma que outras espécies poderiam ser utilizadas dependendo do ambiente e da carga transportada.
O grupo reúne ainda empresas como Neurotech, voltada à reabilitação médica; NeuroFarming, que aplica estimulação neural em rebanhos para aumentar produtividade; Neurotrend, focada em pesquisas de mercado; e Neiry Research, que desenvolve algoritmos de IA para varejo e marketing.
À medida em que essas soluções avançam, cresce também o debate sobre seus limites. Diferentemente de drones mecânicos ou robôs autônomos, aqui não se trata apenas de hardware e software, mas de seres vivos submetidos a intervenções neurais para cumprir objetivos definidos por humanos. Os debates éticos e a defesa do bem-estar dos animais serão determinantes para discutir até onde a inovação deve ir.
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