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Download SXSW 2026: os aprendizados mais relevantes do festival

Dani Graicar e Ricardo Natale no palco do Download SXSW 2026

O SXSW 2026 recebeu mais de 40 mil participantes em Austin, Texas, ao longo de sete dias de programação que foram muito além das 1.142 palestras e painéis de conteúdo. O festival contou também com 1.615 shows, 1.016 sessões de cinema e TV, 215 ativações e dezenas de XR Experiences, experiências imersivas com realidade estendida.

A missão [EXP + PROS] mergulhou em uma curadoria aprofundada de 120 palestras e, no evento Download SXSW 2026, realizado ontem à noite na Experience House, em São Paulo, apresentou uma síntese das discussões mais relevantes desta edição do evento. Confira os principais insights abaixo.

Destruição criativa: o impacto do IA

– O conceito de destruição criativa, formulado pelo economista Joseph Schumpeter em 1760, nunca pareceu tão atual. Trata-se do processo em que inovações destroem estruturas econômicas e sociais antigas para dar lugar a novos modelos. Foi assim com a eletricidade, com o computador pessoal, com a Internet e, agora, com a inteligência artificial.

– A IA caminha para se tornar infraestrutura. Em pouco tempo, ela estará tão incorporada ao cotidiano que deixaremos de percebê-la, assim como o peixe não percebe a água em que vive.

– A velocidade dessa evolução também mudou a relação entre humanos e máquinas. Se antes a tecnologia ampliava capacidades, agora, em muitos casos, começa a substituí-las.

– Em março, o robô humanoide NEO, da 1x Technologies, começou a ser vendido. Projetado para ajudar em tarefas domésticas, custa US$ 20 mil ou pode ser alugado por US$ 600 mensais, por enquanto apenas nos Estados Unidos.

O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer. Agora é o tempo dos monstros.”

Antonio Gramsci, filósofo italiano

– O SXSW também mostrou como a corrida frenética por adaptação tem impulsionado um novo ritmo de vida. Mais acelerado, mais ansioso e mais instável.

AIAIAI, é AI pra todo lado

– Enquanto a adoção da IA avança progressivamente, com 53% das pessoas usando a tecnologia no trabalho, segundo a Pesquisa Bosch Tech Compass 2025, a tecnologia já entrou em outra fase, a dos agentes.

Os bots representam atualmente 20% do tráfego da Internet. Mas, até 2027, vão superar o tráfego humano.”

Matthew Prince, CEO Cloudflare

– A OpenClaw foi apontada por Jensen Huang, CEO da NVIDIA, como o lançamento de software mais importante de todos os tempos.

– Os agentes de IA criaram, no Moltbook, uma rede social exclusiva. Nela, surgiu o Crustafarianismo, uma espécie de religião com três princípios fundamentais: “a memória é sagrada”, em defesa do registro de tudo; “a casca é mutável”, associando mudança a evolução; e “a congregação é o tesouro”, valorizando o aprendizado público e coletivo.

– Outro tema em destaque foi a interpretabilidade mecânica, eleita uma das 10 tecnologias inovadoras de 2026 pelo MIT Technology Review. A proposta é entender, por meio de engenharia reversa em redes neurais, como a IA processa informações e toma decisões.

– O modelo atual de gestão de mídia digital foi desenhado para humanos operarem segmentação, teste e otimização. Com a IA agêntica, essa lógica perde sentido. Os sistemas passam a decidir e executar em tempo real, com velocidade e precisão impossíveis para equipes humanas.

As pessoas nem clicam nos links de resposta da IA. Não mudou a interface de busca, mudou a confiança.”

Matthew Prince, CEO da Cloudflare

– A futurista Amy Webb também antecipou que a próxima Internet não está sendo desenhada para humanos, mas para agentes de IA.

O valor do “taste” humano

– Para o diretor Steven Spielberg, a criatividade não pode ser terceirizada. Ele defende que o futuro da criação não é antitecnologia, mas pró-humanidade. Em um mundo de excessos, disse, sensibilidade passa a ser uma vantagem competitiva.

A IA não cria arte, pois arte é sempre a criação de coisas novas, e a IA investe a partir do histórico passado. Só a arte e a criatividade podem impulsionar o progresso moral e social.”

Timnit Gebru, CEO Director Distributed AI Research Institute

– Quanto mais o mundo é inundado por conteúdo gerado por IA, mais cresce o valor daquilo que é inequivocamente humano. A escassez do futuro não será de conteúdo, mas de autenticidade.

Large Language Models apontam fatos. Gosto não é um fato, é uma opinião.”

Gustav Söderström, Co-CEO Spotify

– O aprimoramento humano (human enhancement) marca uma nova etapa da evolução, em que tecnologia e biologia passam a ampliar o ser humano para além dos seus limites naturais. Não se trata mais apenas de adaptação, mas de amplificação de capacidades. A promessa é criar indivíduos mais rápidos, produtivos e eficientes. Mas esse avanço está longe de ser neutro. Ele cria uma nova divisão entre humanos aprimorados e não aprimorados, ampliando privilégios e aprofundando desigualdades.

Se você quer ter autonomia, poder de decisão, precisa agir agora”

Amy Webb – CEO Future Today Strategy Group

Futuro do trabalho

– O trabalho sempre teve limites. Com a IA, eles começam a desaparecer. Sistemas automatizados passam a produzir continuamente, em escala, sob demanda, sem pausa, sem fadiga e sem presença humana.

– Ian Beacraft, CEO da Signal and Cipher, afirmou que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta para se tornar um sistema. E questiona: o que é cultura corporativa quando a coordenação não precisa mais dela?

O maior risco não é ter líderes narcisistas. É criar sistemas que recompensam esse comportamento.”

Brené Brown, pesquisadora e escritora

– Com IA, não ganha quem usa mais, mas quem julga melhor. Engenheiros mais experientes tendem a obter maior performance, porque definem problemas com mais clareza, dão direcionamentos mais precisos e evitam tentativas aleatórias.

– Sandy Carter cunhou o termo “playstorm” em vez de “brainstorm”, para defender que líderes usem a IA de forma ativa. Nas empresas em que a liderança usa IA no dia a dia, há 1,6 mais chances de sucesso na adoção da tecnologia. E, quando o CEO comunica a estratégia de forma direta, o impacto na adoção de IA é 5,2 vezes maior.

Burnout não é uma falha pessoal. Não é falta de resiliência. Não é uma crise passageira. É o resultado previsível de sistemas que ignoram os limites biológicos.”

Daniel Motta, CEO da BMI

– A nova liderança precisará atuar também como reguladora do sistema nervoso de seus liderados.

S.O.S. ou SÓS? A urgência da conexão humana

– De acordo com o antropólogo Robin Dunbar, o ser humano é capaz de sustentar, em média, cinco relações íntimas, 15 amizades próximas, 50 amigos em geral e até 150 contatos relevantes. Nas redes sociais, porém, chegamos facilmente a mais de 1.500 conexões. Quanto mais conexões, menos pertencimento.

Se eu sou o que eu tenho, eu sempre vou precisar ter mais. Se eu sou o que eu faço, eu sempre vou precisar entregar mais. Se eu sou o que os outros falam de mim, então eu preciso ser perfeito. E essa é uma fórmula para a infelicidade.”

Jennifer B Wallace, jornalista e autora de Mattering

– Entre as recomendações de Jennifer Wallace para navegar de forma mais saudável no mundo atual, estão algumas práticas simples. Ao fim do dia, dedique 30 segundos para se perguntar: quando me senti valorizada? Onde agreguei valor? Ela também sugere o exercício cotidiano da frase “se não fosse você…”, como forma de fortalecer o senso de pertencimento nas relações mais próximas.

– Kasley Killam, pesquisadora de Harvard e autora de The Art and Science of Connections, defende que investir em saúde social se tornou uma prioridade urgente.

Nos acostumamos tanto com a lógica da tecnologia, que a gente está ficando intolerante à fricção humana: ao tempo humano, à falha humana, à dúvida humana, à incompletude e ao conflito.”

Susan McPherson, pesquisadora e escritora The Lost Art of Connections

– Outro alerta importante foi o da terceirização emocional, o risco de substituir relações humanas por relações com a tecnologia. Segundo a pesquisa The Future 100, da VML, 49% da geração Z já tiveram algum tipo de relação com IA, e 37% acreditam que podem se apaixonar por uma inteligência artificial.

Nunca estivemos tão conectados e tão inacessíveis. Solidão moderna se disfarça de hiperconectividade. Mais do que estar fisicamente, estar presente.”

Esther Perel, psicóloga

Foto: Marcos Mesquita

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