Luto corporativo: o custo de silenciar o sofrimento no trabalho

Monica Miglio Pedrosa
“Vivemos em uma sociedade onde a felicidade e a positividade exigem uma negação da tristeza. Temos que performar e desempenhar o tempo todo”. A frase da psicóloga Mariana Clark resume um paradoxo da vida contemporânea, a pressão por bem-estar e alta performance que silencia o sofrimento, apesar de ele ser inerente à experiência humana.
E é no ambiente de trabalho, no qual as pessoas passam a maior parte do tempo, que essa repressão da dor se manifesta de forma mais evidente, por meio de crises de ansiedade, esgotamento, adoecimentos psíquicos e, em casos mais extremos, ideação suicida.
“Em uma conversa com um diretor, ele me contou que seu filho, em depressão há cinco anos, havia passado pela terceira tentativa de suicídio e que ninguém na empresa sabia disso”, conta, afirmando que o maior medo desse líder não era o de ser demitido se abrisse seu desafio pessoal no trabalho, mas o de virar chacota entre colegas.
Foi para ajudar a transformar essa realidade nos ambientes corporativos e humanizar as relações de trabalho, que Mariana decidiu fazer uma transição de carreira em 2017, após atuar por mais de 18 anos na área de Recursos Humanos de grandes empresas. À frente da Humanizar Consultoria, Clark atua com programas de letramento para lideranças em empresas como Mercado Livre, O Boticário, EDP, Itaúsa, Nestlé, Hershey’s, Icatu e Rede Globo. Ela esteve, também, na equipe de psicólogos que atuou na tragédia de Brumadinho, sendo uma das responsáveis pelo trabalho com as lideranças da Diretoria de Reparação criada pela Vale após o acidente.
Nessa entrevista para a [EXP], ela fala sobre a responsabilidade da liderança, as máscaras corporativas que impedem as pessoas de expressar suas dores, e a importância do autoconhecimento e do autocuidado na jornada dos indivíduos.
Especialização em Luto
Enquanto atuava como executiva de RH, Mariana Clark já se inquietava com a dificuldade das organizações em abrir espaço para escuta, diálogo e relações mais humanizadas. Era um período em que a resposta ao sofrimento ainda passava mais pela medicalização do que por uma discussão estruturada sobre saúde mental.
Somava-se a isso um momento pessoal de inflexão. Aos 17 anos, ela viveu uma experiência profundamente desorganizadora com o assassinato do irmão, uma dor que atravessou sua história familiar e despertou a curiosidade sobre como perdas traumáticas reverberam ao longo da vida.
Já na casa dos 40, em meio ao desejo de retomar a psicologia, dedicar mais tempo à família e planejar a chegada do terceiro filho, a especialização em luto, com duração de dois anos, surgiu como um passo decisivo antes da transição de carreira. “Meu trabalho também teve um processo de autocura.”
Lutos corporativos
No livro Lutos Corporativos: Como lidar com a dor e o sofrimento de colaboradores e manter o bom desempenho na sua empresa, lançado pela editora Intrínseca em agosto de 2025, Mariana amplia o conceito de luto ao tratá-lo como um processo presente em diversas perdas ao longo da vida, como mudanças de cidade ou país, divórcios, adoecimentos e também a morte de familiares ou amigos.
Ela defende que a forma como as empresas acolhem ou negligenciam o luto de um colaborador tem impacto direto não apenas no processo de cura, mas também no engajamento e no desempenho no trabalho. Ao responsabilizar lideranças e organizações a lidarem com essas questões, as pessoas se sentem mais seguras para passar pelo desafio.
Apoio em Brumadinho
Mariana fez parte do trabalho de acolhimento às famílias e aos funcionários impactados pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), em 2019, que causou 272 mortes. Ela também colaborou com a Diretoria de Reparação da Vale, criada na época como uma diretoria multidisciplinar para que executivos da empresa atuassem na reparação de danos. Nessa ocasião, ela foi convidada para fazer um trabalho com a liderança sobre luto e como isso reverbera nas dimensões individual e coletiva.
Efeito “batata-quente”
No trabalho como consultora, em que atua com letramento e psicoeducação das lideranças e também com os profissionais de RH, Mariana procura atuar para diminuir o chamado efeito “batata-quente”, que é a transferência de responsabilidades entre liderança e RH sobre o cuidado aos colaboradores. “Enquanto o RH procura que o líder se aproprie e esteja à frente do tema com sua equipe, a liderança quer deixar esse problema para o RH, para que possa focar no negócio”, conta. Ela recomenda que as duas áreas precisam assumir suas responsabilidades e atuar em conjunto nos casos de adoecimento.
Adoecimento nas empresas
“O principal atributo da liderança está na relação com os liderados. O líder não precisa assumir o papel de médico ou de psicólogo, mas ele precisa investir tempo nesse assunto. Ele precisa ter interesse genuíno pelo liderado”, afirma Mariana. Para a consultora, o líder está na linha de frente com o time e portanto é capaz de fazer o que ela chama de primeiro atendimento, onde identifica o problema, conversa com o liderado, tenta algumas estratégias e depois traz a questão mais redonda para o RH apoiar o processo ao lado dele. “O acolhimento não é técnico, é humano.”
Maior dificuldade dos líderes
No trabalho com líderes, o maior medo destes profissionais é não saber por onde começar. “Ele precisa usar uma máscara e dizer que tem domínio sobre o assunto, tem todas as respostas para lidar com a situação”, explica. Por isso, Mariana faz um trabalho de letramento e dá algumas ferramentas para apoiar o dia a dia dos executivos, embora enfatize que cada caso é um caso e precisa ser tratado de forma individualizada, de acordo com sua complexidade.
Protagonismo individual do cuidado
Embora reconheça o papel das lideranças e das organizações na criação de ambientes de trabalho mais seguros, Mariana acredita que a mudança mais consistente começa no indivíduo. É no contato com a própria história, com os limites e com os gatilhos emocionais que cada pessoa carrega, que se constrói a base para relações mais saudáveis no trabalho. Acessar essa história pode ajudar a explicar por que uma conversa difícil com um colega de trabalho traz um gatilho de rejeição, ou porque uma pessoa tem tanta dificuldade de receber feedbacks. “A felicidade e o bem-estar são consequências de uma viagem interna”, afirma.
Resultados do letramento
“É muito bonito ver que as pessoas se reconhecem ao acessar os conteúdos do letramento, se emocionam. Oferecer esses espaços de expressão e validação gera uma conexão muito importante. As pessoas relatam sentir bem-estar depois de compartilhar suas dores, colocar para fora suas emoções. É um trabalho ainda com muitas barreiras, mas é minha missão de vida”, conclui.
Crédito da foto de abertura: Ana Paula Paiva
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