ESG

“O Brasil precisa parar de vender só commodity e começar a vender inovação”, diz Gui Brammer

Gui Brammer, fundador e CEO The Hope Economy

Monica Miglio Pedrosa

Transformar desafios sociais e ambientais em soluções viáveis de negócio depende de uma conexão bem-sucedida entre empreendedores, empresas e investidores. Hoje, porém, esses três atores compõem uma espécie de “triângulo quebrado”. Empreendedores nem sempre têm clientes ou escala para conquistar grandes empresas; corporações hesitam em adotar soluções ainda incipientes; e investidores esperam provas de mercado antes de aportar recursos em startups.

Gui Brammer identificou essa dinâmica durante a produção do documentário The Hope Economy, que reúne histórias de inovação com impacto social e ambiental no Brasil e no exterior. Filmado em mais de 20 localidades, entre elas Coreia do Sul, China e Brasil, o filme foi lançado hoje, com acesso gratuito no YouTube, durante evento que reuniu cerca de 50 executivos na Experience House, em São Paulo.

Engenheiro de materiais, Gui trabalhou por quase 20 anos na indústria de embalagens. Em 2010, fundou a Boomera, empresa de economia circular que transforma resíduos complexos em produtos sustentáveis ou novas matérias-primas. Um contrato de offtake, que garantia a compra da produção, foi decisivo para o crescimento da companhia.

Gui contou que só atraiu a atenção de investidores depois de assinar o acordo com um cliente. O compromisso também lhe deu segurança para adquirir uma fábrica. Quando o investidor que o acompanharia desistiu, ele levou a compra adiante e pagou a operação com a receita dos serviços prestados ao comprador. Dessa experiência veio uma lição para empreendedores: “Precisamos mais de notas fiscais do que de pitches”, afirmou.

Ele também compartilhou quatro aprendizados para empreendedores de impacto. É preciso ser um especialista no problema, em vez de se apegar à solução; entender quem compra e construir relações com esses clientes; construir um ecossistema próprio de inovação, com universidades e centros de pesquisa; e tornar-se uma autoridade no mercado.

Gui revelou um descompasso entre a força da bioeconomia brasileira e a capacidade de transformar conhecimento em negócios. O setor movimenta R$ 2,7 trilhões por ano, pouco mais de 20% do PIB, e apesar de o país ocupar a 15ª posição no desenvolvimento de soluções de bioeconomia, é a 86ª na conversão dessas soluções em novos negócios. Parte desse conhecimento acaba sendo aproveitado por outros países. A China compra patentes brasileiras, desenvolve produtos a partir delas e depois os vende ao Brasil.

Descobrir, Experimentar e Escalar

À frente da The Hope Economy, Gui quer aproximar empreendedores, corporações, centros de pesquisa e investidores para ajudar a levar soluções de impacto ao mercado.

A atuação será organizada em três frentes. Descobrir vai aproximar tomadores de decisão dos desafios sociais e ambientais por meio de conteúdo em linguagem acessível. Além do documentário lançado no evento, a empresa prepara minidocumentários e grava videocasts e podcasts para apresentar iniciativas e experiências de impacto.

Experimentar vai oferecer jornadas de aprendizagem no Brasil e no exterior. Em parceria com a Schwab Foundation for Social Entrepreneurship e o IMD (International Institute for Management Development), a programação terá início em novembro e incluirá masterclasses, visitas a ecossistemas de inovação em Seul e Shenzhen e atividades online. Na Coreia do Sul, os participantes conhecerão iniciativas de social supply chain, que conectam grandes compradores a empreendedores sociais. A agenda prevê ainda a participação de uma comitiva brasileira no Summer Davos, em Tianjin, na China, em junho de 2027. A parceria com o IMD também inclui etapas presenciais em Lausanne e Genebra, na Suiça.

Escalar será a frente de financiamento. Gui anunciou a criação de um fundo de € 20 milhões na Europa destinado a tecnologias de impacto voltadas ao uso mais eficiente de recursos, com foco em aplicações de inteligência artificial. Os investimentos devem se concentrar em seis áreas: inteligência de recursos e materiais, eficiência de recursos na indústria, cadeia de suprimentos e compras, extensão da vida útil de ativos e infraestrutura, inteligência aplicada à recuperação de materiais; e eficiência de recursos no agro e no setor de alimentos.

François Bonnici
François Bonnici, diretor de Inovação Social do Fórum Econômico Mundial

Empresas sociais geram US$ 2 trilhões ao ano

A inovação de impacto depende da colaboração entre diferentes atores. Para François Bonnici, diretor de Inovação Social do Fórum Econômico Mundial, que participou do evento por videoconferência, a inovação social não se limita à redução dos impactos negativos das empresas. Ela também envolve mobilizar as capacidades dos negócios para criar valor econômico, social e ambiental.  Segundo François, existem 10 milhões de empresas de impacto social no mundo, que geram mais de US$ 2 trilhões em renda anual e criam mais de 200 milhões de empregos.

Sophie Bacq, professora de empreendedorismo social e codiretora do Centro de Inovação Social do IMD, pesquisa o tema há cerca de 20 anos. Ela define empreendedorismo social como “usar o negócio como força para o bem” e propõe ampliar a ideia de riqueza para incluir capital cultural, relações, infraestrutura e conhecimento, além de dinheiro e bens materiais.

Para levar essa visão à estratégia empresarial, Sophie sugere começar por uma pergunta: qual problema social ou ambiental a empresa está especialmente posicionada para resolver? A partir daí, o líder pode escolher como agir, seja desenvolvendo soluções dentro da própria companhia, seja trabalhando com empreendedores sociais, investindo em iniciativas ou cocriando com comunidades. Ela também defende metas e métricas confiáveis para demonstrar resultados e sustentar os projetos diante de conselhos, áreas financeiras e investidores.

Sophie Bacq, do IMD
Sophie Bacq, professora de empreendedorismo social e codiretora do Centro de Inovação Social do IMD

Crédito das fotos: Lorenzo Scavone

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