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Robôs empáticos e Mattering são os temas em destaque no primeiro dia do SXSW

missão [EXP+PROS]

O primeiro dia do South by Southwest foi marcado por dezenas de painéis, temas e debates, mas dois chamaram mais a atenção da missão [EXP+PROS]. Enquanto o designer e tecnólogo Afshin Mehin, fundador do estúdio Card79, afirmou que trazer mais “humanidade” para os robôs passa pelo design do comportamento, a jornalista Jennifer B. Wallace destacou o poder do mattering, conceito que descreve a sensação de ser valorizado por quem se é e de ter a oportunidade de gerar valor para outras pessoas.

Mattering vai além de pertencer ou se sentir incluído. Trata-se de sentir-se necessário e significativo para a família, amigos, colegas e para a comunidade. Wallace ressaltou que aplicar esse conceito é fundamental para fortalecer o engajamento dos colaboradores no trabalho e também na vida pessoal. Segundo ela, a ideia ajuda inclusive a explicar a nostalgia que muitos jovens da Geração Z demonstram em relação às décadas de 1990 e 2000.

Confira, a seguir, os principais insights dos dois painéis:

Jennifer B Wallace
Jennifer B Wallace

Keynote Speaker: Jennifer B Wallace

Principais insights da palestra da autora de Mattering – The Secret of Building a Life of Deep Connection and Purpose.

É verdade que o telefone com fio está voltando?

E não só ele. Tem gente dirigindo horas para comer numa Pizza Hut decorada como se fosse nos anos 1990 e registrando a experiência em câmeras analógicas.

Não é só a geração Z fazendo graça?

Em seu keynote, a jornalista Jennifer B. Wallace defendeu que é menos sobre os objetos e mais sobre a busca de uma sensação. Uma saudade daquele passado com menos notificações e mais encontros.

E como a gente se sentia nesse passado?

A gente sentia que importava! Que éramos valorizados e fazíamos diferença na vida dos outros: o termo em inglês é mattering, não por coincidência também o nome do livro que ela lançou em janeiro.

Isso é tão importante assim?

É uma necessidade humana básica, ligada à nossa evolução como espécie, mas que a sociedade atual hiperindividualista deixou de lado. Ansiedade, depressão e isolamento podem piorar quando não sentimos que importamos.

E como saber se o meu caso está crítico?

Ela aplicou um teste simples. Dê uma nota de 1 a 4 para cada pergunta a seguir. Se o total der menos que 12, ligue o alerta:

  1. Quão importante você é para os outros?
  2. Quanto os outros prestam atenção em você?
  3. O quanto sentiriam sua falta se você fosse embora?
  4. O quanto outras pessoas dependem de você?
  5. O quanto outras pessoas demonstram que se importam com você?

Mas por que falar disso agora?

Tem mais gente sendo reprovada nesse teste… Com a IA ameaçando eliminar muitas das tarefas que fazemos hoje, ela argumenta que precisamos tornar o “mattering” uma prática o quanto antes.

Ela resume suas ideias num acrônimo, SAID:

Significant (ser visto como alguém único),

Appreciated (ser valorizado),

Invested in (ter alguém apostando em você),

Depended on (ser alguém de quem os outros dependem).

Vale tanto na vida pessoal quanto no trabalho. Cerca de 70% dos funcionários estão desconectados do trabalho hoje em dia e, segundo ela, não é por preguiça, mas porque sentem que o que fazem não faz diferença.

Não se resolve isso com autocuidado?

Definitivamente, não. Décadas de pesquisa mostram que resiliência não nasce no isolamento. Ela depende de relações profundas que lembram que você é visto, valorizado e necessário. Jennifer sugere imaginar que todo mundo carrega uma plaquinha invisível no pescoço, perguntando: “Eu importo?” e nosso trabalho é entender como podemos responder que sim.

Charmageddon: Robots That Steal Hearts and Jobs

E se em vez de máquinas frias dominando o mundo, um cenário típico de diversas ficções científicas distópicas, tivéssemos algo um pouco mais inesperado: robôs que acabam conquistando simpatia humana?

A provocação foi feita pelo designer e tecnólogo Afshin Mehin, fundador do estúdio Card79, no painel “Charmageddon: Robots that Steal Hearts and Jobs”: “Talvez eles não roubem alguns dos nossos empregos e, mais surpreendente, pode ser que a gente comece a achá-los encantadores.”

Durante décadas, lembra Mehin, os robôs ficaram isolados em fábricas, atrás de grades de segurança. Isso vem desde o final dos anos 1970, após alguns acidentes com os primeiros robôs industriais.

A prioridade, claro, passou a ser evitar novos riscos. “As pessoas ficaram fora da grade, os robôs ficaram dentro”, resume. O resultado foi uma robótica poderosa, mas distante da vida cotidiana.

Mas esse cenário começa a mudar. Com o avanço da chamada “Physical AI”, sistemas que aprendem com dados do mundo físico, robôs estão saindo das fábricas e entrando em hospitais, armazéns e, no futuro muito próximo, também nas casas.

Isso cria um novo desafio: não basta fazer com que eles funcionem direito, é preciso torná-los compreensíveis para quem convive com eles.

Segundo Mehin, o problema central não é a inteligência artificial em si, mas a clareza do comportamento da máquina. “O verdadeiro desafio não é a inteligência, é a ‘legibilidade’ do sistema”, explica.

Todo ser humano precisa ser capaz de “ler” um robô assim como consegue “ler” as outras pessoas. Quando, por exemplo, um robô para de repente ou muda de direção, as pessoas tentam imediatamente interpretar o que está acontecendo, e essa incerteza gera desconforto.

A solução está no design do comportamento. Pequenos sinais, como antecipar um movimento, avisar antes de agir ou ajustar o ritmo ao se aproximar de alguém, podem tornar o robô mais previsível e até mais educado. O modo como ele se move comunica intenção.

“O movimento carrega significado”, aponta Mehin. Para ele, a próxima fase da robótica será tanto cultural quanto tecnológica. “A IA vai determinar do que os robôs são capazes, o design vai determinar como os humanos vivem com eles”, encerra.

Se essa visão estiver certa, o futuro da robótica pode ser menos apocalíptico do que parece. E até mesmo simpático.

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