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SPIW: Na era da IA, a inteligência emocional é a maior vantagem competitiva

Marcelo Gleiser no São Paulo Innovation Week

Monica Miglio Pedrosa

No primeiro dia do São Paulo Innovation Week (SPIW), as discussões sobre o futuro que estamos construindo a partir do avanço acelerado da inteligência artificial convergiram para o debate sobre as habilidades humanas e sobre aquilo que a tecnologia ainda não pode substituir, a inteligência emocional. Este foi o tema principal do painel que reuniu o físico brasileiro Marcelo Gleiser, e o psicólogo americano Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional.

“As máquinas podem saber o significado de amor. Mas não podem amar”, disse Goleman. Em sua apresentação, ele destacou que entre as habilidades intrinsecamente humanas estão a autoconsciência, que é a capacidade de reconhecer as próprias emoções e entender como elas definem percepções e apoiam decisões; a autogestão, que permite manter o equilíbrio emocional, mesmo diante de situações de pressão; e a empatia.

A empatia se desdobra em outras três: a cognitiva, que permite compreender como o outro pensa; a emocional, que capta o que o outro sente mesmo sem palavras; e a preocupação empática, ligada ao cuidado genuíno com o outro. É nessa última que, segundo ele, está uma das limitações mais claras da inteligência artificial.

Na visão de Goleman, não existe liderança eficaz sem essas habilidades supracitadas. “Os líderes dependem da inteligência emocional para guiar, motivar e inspirar”, afirmou. Para o psicólogo, essas competências são fundamentais para construir confiança com os times, lidar com conflitos e criar relações genuínas. “A IA vai fazer tudo o que falarem para ela fazer. Mas ela não vai se tornar mais resiliente. Ela não pode entrar no que chamamos de não-dualidade, que é ter consciência da consciência. Ela não é consciente.”

Daniel Goleman, no palco do SPIW
O psicólogo Daniel Goleman no palco do São Paulo Innovation Week [Foto: Pedro Kirilos]
Gleiser, que durante sua palestra anterior já havia feito críticas contundentes à humanização da IA, trouxe elementos adicionais para essa discussão, Em sua visão, a humanidade está nas emoções, nas relações e na experiência vivida. Por isso, para ele, a tecnologia jamais substituirá completamente aquilo que caracteriza o humano. “Não conversamos só com palavras. Conversamos com o corpo, com as emoções”, exemplificou.

Em sua palestra de abertura, “Humanidade, IA e Ética na Inovação”, Gleiser criticou o transumanismo, que defende o uso da tecnologia para transformar o ser humano, ampliando suas capacidades. O físico criticou a ideia de que o ser humano pode ser uma espécie de máquina programável, capaz de transferir consciência e memória para sistemas artificiais.

“Não somos computadores”, disse. Para ele, reduzir a experiência humana a processamento de informação ignora justamente aquilo que caracteriza a vida, como emoção, subjetividade, sensibilidade e percepção do outro. “Vocês não querem sentir mais o toque de uma pessoa? Não querem se emocionar ao ler um poema, ou ao escutar uma música? A máquina não faz isso”, questionou.

A fadiga de decidir

Se a inteligência emocional aparece como um diferencial humano diante do avanço da IA, a capacidade de decidir sob pressão surge como outra habilidade crítica nesse novo cenário. Na palestra “Coragem para orquestrar futuros”, o near futurist Neil Redding e o fundador da Courage X, Julian Pistone, falaram sobre a “fadiga de decidir” que acomete os líderes atualmente.

Segundo Neil, à medida que a inteligência artificial passa a executar tarefas em velocidade cada vez maior, o valor humano migra da execução para o julgamento. “Estamos nos estágios iniciais de uma mudança profunda no papel dos humanos, de fazedores para designers e decisores”, afirmou. O problema é que decidir cansa mais do que executar, especialmente quando cada escolha envolve riscos, consequências e pouca clareza sobre o futuro.

Para explicar esse descompasso, ele apresentou o conceito de “clock drift”, a diferença entre a velocidade com que a IA executa e o ritmo, ainda lento, com que as organizações tomam decisões. Se uma empresa leva dias, semanas ou meses para decidir, mas seus sistemas já são capazes de executar em minutos, a liderança passa a operar sob uma pressão inédita. “Para muitas pessoas, tomar decisões é muito mais cansativo do que simplesmente executar o trabalho”, disse.

Já Julian Pistone foi além da aceleração tecnológica para falar sobre a pressão atual dos líderes. Cada vez mais eles precisam agir em ambientes marcados por incerteza, volatilidade econômica, transformações regulatórias e mudanças rápidas de mercado. “Nesse cenário, a hesitação pode ser extremamente custosa”, afirmou. Segundo ele, muitas lideranças vivem hoje um paradoxo entre o medo de errar e a urgência de decidir rapidamente.

Julian defende que a coragem é uma habilidade que pode ser treinada. “Existe uma ideia equivocada de que coragem é ausência de medo. Coragem é agir apesar do medo”, afirmou. Uma das formas de vencer esse bloqueio emocional e desenvolver coragem, segundo ele, é relembrar situações difíceis enfrentadas no passado e o que fizemos para superá-las. Na interpretação de Julian, esse exercício ajuda a tranquilizar o córtex pré-frontal e reduzir a resposta da amígdala, região do cérebro associada ao medo e à sensação de ameaça.

No final do painel, Julian enfatizou que os humanos devem estar no controle das escolhas para o futuro. “Podemos delegar dados e análises para a IA, mas não podemos delegar a responsabilidade pelas decisões”, concluiu, argumentando que a tecnologia definitivamente não pode decidir qual futuro queremos.

 

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