Tecnologia

World Creativity Organization e ioasys lançam centro dedicado aos impactos da IA na criatividade

Crédito da Foto: Júlio Piccin

Monica Miglio Pedrosa

Como a inteligência artificial está mudando a forma como pensamos e criamos? Essa será a primeira linha investigativa do recém-criado Centro Internacional de Criatividade e IA Aplicada, iniciativa da World Creativity Organization (WCO) e da ioasys. A proposta é estruturar um espaço permanente de investigação sobre como a criatividade humana e os sistemas inteligentes podem se potencializar, mas também entender os limites dessa interação.

O lançamento foi feito em um evento no Híbrido ioasys, em São Paulo, que será a sede do Centro Internacional, e reuniu líderes, profissionais de tecnologia e equipes das duas organizações. O recém-nomeado CEO da ioasys, Ronaldo da Matta, e o cofundador da WCO, Lucas Foster, também estiveram presentes no evento. Para mostrar, na prática, como o Centro irá funcionar, foi feita uma dinâmica colaborativa entre os participantes usando um aplicativo que simulava uma suposta “IA do futuro”, que enviava perguntas para provocar a reflexão dos participantes.

O tema “Como a IA muda a forma como pensamos e criamos?” será explorado a partir de diferentes ângulos. Entre eles, estão questões como em que momento a inteligência artificial desloca ou preserva o julgamento humano; quais práticas ajudam a manter autoria, protagonismo e responsabilidade ao criar com a tecnologia; que critérios humanos passam a ser indispensáveis em processos de decisão mediados por IA; e quando esta tecnologia amplia a imaginação ou a estreita?

Os estudos serão conduzidos por meio da análise de casos reais, pela observação de práticas em diferentes setores e por meio de discussões públicas com especialistas. Uma prévia dos primeiros resultados será apresentada durante o World Creativity Day, em 21 de abril, enquanto o relatório completo está previsto para ser divulgado ao público até o final do primeiro semestre.

Além das frentes de pesquisa, o Centro Internacional de Criatividade e IA Aplicada realizará encontros temáticos, debates intersetoriais e grupos de trabalho dedicados a investigar como criatividade humana e sistemas inteligentes podem evoluir juntos. “A IA precisa de data centers. Mas também de think centers, espaços para pensar. E é para isso que estamos aqui”, afirmou Edna dos Santos-Duisenbert, cofundadora e vice-presidente Global de Parcerias da World Creativity Organization.

Outro objetivo da iniciativa é posicionar a América Latina, e especialmente o Brasil, como um protagonista das transformações provocadas pela inteligência artificial, se tornando um radar para o mundo a partir de uma perspectiva local.

Crédito da Foto: Júlio Piccin
Lançamento Centro Internacional de Criatividade e IA Aplicada [Crédito da Foto: Júlio Piccin]

Que sociedade estamos construindo com a IA?

Na última parte do evento de lançamento do Centro, Edna convidou o antropólogo e futurista Chico Araújo e o fundador do Instituto Minerva, Marcos Barretto, para participar de um bate-papo. Entre os pontos levantados na discussão esteve a preocupação com o crescente poder dos algoritmos de influenciar decisões e comportamentos por meio da recomendação de conteúdos a partir da captação de dados dos usuários. O olhar dos painelistas esteve particularmente voltado ao uso dessas tecnologias em conflitos geopolíticos e em eleições locais.

Chico Araújo trouxe para o debate uma reflexão provocadora: “A inteligência artificial está sendo usada hoje para vender produtos, capturar votos nas bolhas algorítmicas, e matar, no âmbito da guerra”, afirmou, contextualizando que as guerras [contra a Venezuela, o Irã e a Ucrânia] atuais têm como objetivo o acesso a metais, como o lítio e o cobre, e a combustíveis fósseis e energia, não por acaso os insumos de data centers que processam IA.

Para o antropólogo, uma das principais questões da atualidade é a transparência sobre os critérios que orientam os sistemas de IA. “O algoritmo está te ajudando a tomar decisões de acordo com o que você definiu e escolheu, ou de acordo com o alinhamento com quem o desenvolveu?”, provocou.

Araújo acredita que existe uma tendência de tratar as plataformas digitais como ferramentas neutras, quando na prática elas carregam valores e visões de mundo de quem as desenvolveu. “Se o Tinder tivesse sido desenvolvido no Butão, provavelmente seria um aplicativo completamente diferente”. Ele provocou a plateia a abandonar a posição de consumidora passiva dessas tecnologias e adotar uma postura crítica diante das estruturas sociológicas que estão sendo importadas por meio delas. “Precisamos ser produtores do nosso próprio conhecimento.”

Outro ponto levantado pelo antropólogo foi o risco de uniformização do pensamento em ambientes mediados por algoritmos. Segundo ele, a forma como sistemas de recomendação organizam e filtram informações pode reduzir a diversidade de referências e experiências, concentrando a atenção em conteúdos cada vez mais semelhantes.

Ao mesmo tempo, ele destacou que o avanço da IA também traz oportunidades inéditas para ampliar o repertório humano, especialmente quando combinado com experiências no mundo real. “Vamos viver a maior explosão de criatividade humana da história”, disse Araújo. Usando ferramentas baseadas em IA, as pessoas criam músicas, escrevem textos, exploram novos caminhos de pesquisa, mesmo sem formação técnica prévia ou atuação na área.

“Pesquisadores estão usando a IA para entender, por exemplo, a linguagem de animais como as baleias e isso pode transformar radicalmente a nossa relação com os animais. A tecnologia pode nos permitir enxergar espectros de luz que hoje não vemos com nossos olhos”, exemplificou, dizendo que passaremos do Large Language Model (LLM) ao “Large Nature Model”, ou seja, o mundo poderá se abrir em um universo de novas possibilidades.

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