Carlos Piani quer levar a Sabesp a avançar 50 anos em 5

Desde que assumiu a liderança da Sabesp, em 1º de outubro de 2024, três meses após sua privatização, Carlos Piani topou o desafio de “fazer 50 anos em 5” e, nos primeiros 50 dias como diretor-presidente da companhia, autorizou o investimento de R$ 15 bilhões para abrir em até cinco meses todos os canteiros de obra previstos na primeira etapa do novo momento da empresa.
Piani foi o convidado de honra da Confraria de CEOs, realizada ontem, na Experience House, em São Paulo, evento que reuniu cerca de 100 CEOs e líderes de grandes empresas, e marca o início do calendário 2026 do Experience Club.

A urgência tem relação direta com o tamanho do desafio da gestão. Segundo Piani, enquanto a Sabesp investia cerca de R$ 5 bilhões por ano antes da privatização, a companhia precisará aportar cerca de R$ 70 bilhões para cumprir a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2029, prazo estipulado pelo governo de São Paulo. Na prática, isso significa concentrar em poucos anos uma expansão de infraestrutura que, no ritmo anterior, poderia levar décadas para ser concluída.
Entre os indicadores de ganho de escala operacional, Piani citou o avanço nas ligações de esgoto da atual gestão. Ele fez um paralelo com a execução do governo Dória (2019-2022), que realizou 650 mil conexões de esgoto em três anos e meio, dentro da estratégia do projeto de despoluição do Rio Pinheiros. Segundo Piani, a Sabesp fez, apenas no último ano, 1,1 milhão de novas ligações. Nas contas do executivo isso significa sair de uma média de 500 para 3 mil conexões por dia.
O diretor-presidente da Sabesp enfatizou que a nova Sabesp precisa preservar a excelência técnica que construiu ao longo dos 50 anos de existência, mas operar com mais eficiência e agilidade para responder ao desafio do negócio e, também, eliminar um gap social histórico.
Segundo o executivo, os 375 municípios atendidos pela Sabesp concentram hoje pouco mais de 10 milhões de pessoas sem acesso à água, esgoto ou uma combinação dos dois, incluindo moradoras de favelas e áreas rurais que, antes da privatização, estavam fora da obrigação formal de atendimento da companhia. Com a privatização, afirmou, esses territórios passaram a fazer parte do dever de cobertura da empresa.
Piani compartilhou, ainda, algumas ineficiências que comprometiam a capacidade de investimento da companhia. Segundo ele, antes da privatização, a Sabesp deixava de arrecadar o representativo montante de R$ 1,5 bilhão, considerando que o faturamento era de R$ 26 bilhões e o EBITDA de cerca de R$ 10 bilhões. Além disso, contou que, do R$ 1,5 bilhão, R$ 800 milhões estavam ligados a descontos concedidos a grandes consumidores por diversos governos anteriores. Ele citou o caso de uma multinacional que pagava menos pelo valor em m3 da água consumida do que um cliente enquadrado na tarifa voltada à população mais vulnerável.
Modelo de privatização
O executivo avalia de forma positiva o modelo de privatização conduzido pelo governo do Estado. Na visão de Piani, a decisão passa por dividir com a iniciativa privada os investimentos necessários para acelerar a redução de uma dívida social que recai sobretudo sobre a população de menor renda, justamente a que mais sofre com a falta de acesso à água e ao esgoto.
No processo de privatização, o Estado reduziu sua participação acionária de 50% para 18%, enquanto a Equatorial passou a integrar um bloco de governança de 33%, com acordo de acionistas previsto para 10 anos, em uma transição pensada para conduzir a passagem do controle público para uma companhia de capital difuso.
Para Piani, um dos diferenciais da operação foi a criação de mecanismos para mitigar um dos principais focos de resistência a processos de privatização no setor de infraestrutura, o aumento da tarifa. Segundo ele, o governo destinou cerca de 30% dos recursos arrecadados na operação, de um total aproximado de R$ 15 bilhões, para o FAUSP, o Fundo de Apoio à Universalização do Saneamento Básico do Estado de São Paulo.
Além desse valor inicial, comprometeu também 100% dos dividendos futuros do Estado ao fundo. A função do FAUSP, de acordo com o diretor-presidente, é a de amortecer a pressão tarifária decorrente do novo ciclo de investimentos. Hoje, afirmou, o fundo conta com R$ 10 bilhões em caixa.
O segundo pilar foi a antecipação das metas de universalização exigidas pelo novo marco regulatório do saneamento aprovado em âmbito federal, com a diferença que, em São Paulo, a data limite, que é 2033, foi antecipada para 2029.
Experiência anterior
À frente dessa transformação está um executivo que construiu a carreira entre investimento e operação. Piani contou que começou no Banco Pactual, hoje BTG Pactual, onde atuou na área de alocação de capital dos sócios. Ele se aproximou desse mercado quando o Pactual investiu na Equatorial, na época Equatorial Energia. Participou, também, da aquisição da Companhia Energética do Maranhão, empresa que havia passado às mãos da americana Pennsylvania Power & Light Company e atravessava um momento de forte deterioração.
A partir desse investimento, Piani decidiu migrar da área financeira para a operação. Morando no Rio de Janeiro, passou a fazer a ponte com São Luís, no Maranhão, até assumir de vez a rotina da companhia. Primeiro, ocupou a diretoria financeira por cerca de um ano e meio. Depois, foi alçado à presidência da empresa, posição a partir da qual liderou uma nova fase de reestruturação e crescimento. Segundo relatou, o IPO da Equatorial foi realizado 18 meses depois de sua chegada ao comando, marco que ajudou a consolidar a virada da companhia no mercado.
Piani permaneceu por seis anos na presidência da Equatorial e, na sequência, assumiu a presidência do conselho. Mesmo depois da venda da participação do Pactual e da GP, foi convidado pelos novos controladores a seguir ligado à companhia. Também desenvolveu carreira internacional, com passagens por uma empresa no Canadá e depois em Chicago, nos Estados Unidos. Depois de deixar a Kraft Heinz, onde comandava a área global de fusões e aquisições, voltou a assumir a presidência do conselho da Equatorial em 2019, posição em que permaneceu até 2024, quando o grupo adquiriu participação relevante na Sabesp e ele assumiu a diretoria-presidência.
Atualmente, a Equatorial, que valia cerca de R$ 200 milhões à época do investimento e levantou R$ 2 bilhões após o IPO, é hoje uma companhia avaliada em R$ 50 bilhões. Trajetória de crescimento em escala que Piani usa como referência para o futuro que ele quer construir na Sabesp.
Crédito das Fotos: Marcos Mesquita
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