Inovação

Após perder o filho para o câncer, engenheiro cria dispositivo para salvar vidas

Monica Miglio Pedrosa

Um investimento equivalente a 1% do custo mensal do tratamento de uma criança com câncer pode reduzir em até 30% o custo total das despesas com os cuidados do paciente. A estimativa é da startup Luckie Tech, que desenvolve um dispositivo de monitoramento capaz de enviar imediatamente qualquer alteração nos sinais vitais de pacientes oncológicos como um alerta para seus pais e responsáveis, médico e hospital.

Esse potencial de economizar os custos hospitalares não foi, no entanto, a motivação do engenheiro Joel Oliveira, ao fundar a startup Luckie Tech. Ela nasceu da vontade de transformar uma tragédia pessoal em uma solução que salve a vida de pacientes e ajude outras famílias. Joel perdeu o filho Lucas, diagnosticado com câncer na véspera de completar um ano, após um ano e meio de tratamento contra a doença.

Durante essa experiência, ele aprendeu que, em pacientes submetidos à quimioterapia, a queda da imunidade deixa o organismo especialmente vulnerável a infecções que podem ser letais. Detectar o momento exato em que uma febre começou, por exemplo, pode ser a diferença entre a necessidade de internação na UTI e o controle rápido da infecção antes que o quadro se agrave. “As primeiras duas horas, chamadas de ‘golden hours’ são decisivas para que o paciente receba a medicação e tenha menores chances de precisar de cuidados intensivos”, conta.

Lucas Oliveira durante o tratamento oncológico [Foto: acervo pessoal]
Lucas Oliveira durante o tratamento oncológico [Foto: Acervo pessoal]
Durante o tratamento de Lucas, a família precisava medir sua temperatura manualmente a cada três horas, inclusive durante a madrugada. Além de exaustiva, a rotina acabava deixando intervalos nos quais uma pequena alteração poderia passar despercebida. Foi a partir dessa vivência que Joel começou a pensar em uma forma de manter o paciente acompanhado continuamente, mesmo fora do hospital.

A ideia ganhou forma cerca de cinco anos após a morte do filho. Joel teve um sonho e, logo depois que acordou, desenhou no papel a primeira versão do que seria o produto. Para ele, algo que pudesse ajudar outras crianças em tratamento oncológico. Ao compartilhar o projeto com um médico, Joel ouviu repetidas vezes a pergunta sobre a viabilidade da tecnologia. A surpresa do profissional o fez perceber que enxergava uma possibilidade ainda distante da rotina dos hospitais. Para ele, no entanto, criar o dispositivo parecia factível porque toda a sua trajetória havia sido construída entre a engenharia, a tecnologia e a área comercial.

Formado em engenharia mecânica pela Escola de Engenharia Industrial, em São José dos Campos, Joel começou a carreira como trainee no Banco Itaú, mas logo percebeu que não se identificava com o setor bancário. Na sequência, foi trabalhar na Ericsson, empresa que considera sua principal escola profissional. Após cerca de dois anos e meio, foi reconhecido como um profissional de alto potencial e enviado para a Suécia, estadia que inicialmente seria de seis meses. Permaneceu no país durante cinco anos, recebeu promoções e passou pelas áreas de produção, logística e comercial.

A carreira internacional ainda o levou à França, à Itália e a Santa Lúcia, no Caribe, onde foi o responsável pela gestão financeira de um projeto da empresa no país. De volta ao Brasil, foi gerente de vendas na Embraer e ocupou posições comerciais em outras empresas de tecnologia, até chegar ao cargo de diretor.

Sua passagem pela Embraer criaria laços que se mostraram fundamentais para a Luckie Tech. Ao conhecer o projeto, um executivo da área de design de interiores das aeronaves apresentou a iniciativa à equipe do escritório da companhia em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, perguntando quem gostaria de fazer parte do desenho do produto. Para sua surpresa, todo os 12 profissionais do time se dispuseram a trabalhar no redesenho do aplicativo.

Dispositivo da Luckie Tech teve o design criado pela Embraer
Dispositivo da Luckie Tech teve o design criado pela equipe de designers de aeronave da Embraer

O dispositivo integra um sistema composto por diferentes interfaces. Os responsáveis recebem pelo aplicativo os dados e alertas relacionados à criança, enquanto os médicos conseguem acompanhar todos os pacientes vinculados ao hospital. A instituição também conta com um painel que indica a localização de cada pessoa monitorada, obtida pelo celular do responsável, para calcular a distância e agilizar o atendimento em caso de emergência.

Reconhecimento nacional e internacional

Em 2024, a Luckie Tech foi selecionada pela FAPESP para realizar uma prova de conceito no Hospital de Amor, em Barretos. O projeto previa a participação de 30 crianças. A startup demonstrou o funcionamento do equipamento, dos aplicativos e do painel hospitalar e o hospital emitiu um parecer favorável à solução, reconhecendo seu potencial para salvar pacientes e reduzir os custos do tratamento.

O projeto obteve ainda diversos reconhecimentos no Brasil e no exterior. Em 2021, conquistou o segundo lugar no BNDES Garagem. Em 2023, a startup conquistou o primeiro lugar em uma competição do Instituto Português de Oncologia e a segunda colocação no Prêmio do Hopital Pediátrico Sabará.

Em 2025, venceu a etapa brasileira da Startup World Cup e chegou ao grupo das 25 melhores startups na fase mundial da competição. No mesmo ano, recebeu o primeiro lugar no G7 Startup Challenge e no Prêmio ABINC de IoT, na categoria Startups, além do segundo lugar no Sahlgrenska Innovation Challenge, realizado na Suécia.

O reconhecimento internacional mais recente veio em 2026, quando a Luckie Tech conquistou o terceiro lugar em uma competição promovida pela Royal Academy of Engineering, no Reino Unido, após um processo que avaliou 3.215 startups de diferentes países.

As premiações ampliaram a visibilidade e a credibilidade do projeto, mas ainda não eliminaram os obstáculos para que a solução chegue aos pacientes. O produto segue em fase de estudos clínicos e testes e o processo de aprovação pela Anvisa é apontado por Joel como o principal desafio atual. A empresa também busca recursos para realizar uma prova de conceito de maior escala e avançar na comercialização.

Propósito e legado

Quando deixou a carreira executiva para se dedicar integralmente à Luckie Tech, Joel vendeu a própria casa para financiar o desenvolvimento do produto. Também contou com investimento de William Souza, sócio do projeto, que é presidente do Grupo Kainos. A startup também se deparou com a pandemia durante seus primeiros anos, o que dificultou testes, processos regulatórios e a aproximação com hospitais.

A conta que sustenta a tese do negócio foi construída ao longo do desenvolvimento da solução. Joel explica que o tratamento de uma criança com câncer custa, em média, R$ 35 mil por mês, e as internações em UTI representam de 45% a 56% desse valor. O preço sugerido do dispositivo desenvolvido pela Luckie Tech é de R$ 350 mensais, equivalente a 1% da despesa média com o paciente.

Uma diária de UTI custa cerca de R$ 5,5 mil, enquanto um ano de acompanhamento pela Luckie Tech totalizaria R$ 4,2 mil pelo valor inicialmente calculado. Evitar apenas um dia de internação seria suficiente para financiar aproximadamente 15 meses de monitoramento. É dessa relação que vem a estimativa de redução de até 30% nos custos totais do tratamento. Joel acredita que as operadoras de saúde e o governo, que são os atores que financiam o tratamento oncológico dos pacientes atualmente, seriam os principais interessados pela solução da startup.

O potencial de escala e a economia gerada ajudam a sustentar o modelo de negócio, mas Joel continua medindo o sucesso da Luckie Tech pelo impacto sobre a vida dos pacientes. “Vidas não têm preço, mas têm custo”, afirma. Reduzir as despesas com internações é, para ele, uma forma de tornar o cuidado viável e ampliar o alcance da solução. A grande ambição de Joel é diminuir a taxa de mortalidade de crianças. Para ele, se a tecnologia conseguir salvar ao menos um paciente, todo o esforço para transformar a perda de Lucas em um legado já terá encontrado seu propósito.

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