Gestão

IA acelera, mas ainda não transforma

Monica Miglio Pedrosa

Será que estamos aproveitando todo o potencial da inteligência artificial quando a utilizamos apenas de forma incremental, para acelerar atividades e processos de trabalho definidos antes de sua chegada? A provocação de Olga Loffredi, CEO global do Vanto Group, ganha força diante de um levantamento da McKinsey que revela que, embora 88% das organizações já utilizem IA regularmente em pelo menos uma função, apenas 39% atribuem ao uso da tecnologia algum impacto no EBIT.

Para Olga, a distância entre adoção e resultado está relacionada à tentativa de encaixar uma tecnologia nova em uma lógica antiga. “Ela está sendo utilizada a partir de parâmetros que já existiam”, afirma. Análises que antes consumiam meses podem ser concluídas em segundos, mas continuam partindo das mesmas referências, dos mesmos processos e das mesmas expectativas.

“A tecnologia é um acelerador, mas é preciso alterar as perguntas. Elas não podem ser as mesmas”, afirma Olga. Para a executiva, tratar a IA como uma máquina que recebe um comando e devolve um resultado reproduz a lógica industrial e limita seu potencial.

Olga contesta a ideia de que substituir profissionais por agentes resulte, por si só, em redução de custos. “Se você não tiver agentes bem construídos, estará contratando novos funcionários muito caros”, alerta. Segundo ela, quando opera por meio de um agente sem contexto e orientação, a IA não entrega o resultado esperado. “Ela simplesmente está ali como um processador. Então, é um processador muito caro.”

IA e o novo papel das consultorias

Segundo Olga, a inteligência artificial também afeta o escopo de atuação das grandes consultorias. O primeiro impacto é a perda de relevância de serviços concentrados na coleta de informações e na elaboração de projeções. Durante anos, essas entregas foram sustentadas pelo acesso privilegiado a dados, pela experiência acumulada e pelas horas necessárias para organizar e analisar o material. A IA reduz esse diferencial ao executar essas atividades com maior velocidade e eficiência.

A mudança afeta também o modelo tradicional de remuneração por hora trabalhada. A transição para a cobrança baseada em resultados, apontada como uma tendência do setor, pode ser um sinal de que as grandes consultorias reconhecem essa perda de exclusividade. Olga acredita que a construção de um futuro ainda imprevisível envolve o compartilhamento de riscos.

Conhecimento como commodity

Em sua visão, a principal oportunidade das consultorias está em outro território. “O conhecimento agora virou commodity”, afirma. Como líder do Vanto Group, boutique global de nicho voltada ao alto desempenho das pessoas nas organizações, ela define esse campo como o espaço entre o previsível e o desejável, no qual a IA pode desempenhar um papel extraordinário. “A grande dificuldade é que a linguagem e a estrutura de pensamento necessárias para conduzir esse diálogo e preencher esse espaço não são alcançadas por meio do conhecimento. Elas chegam por meio da descoberta.”

A distinção ajuda a explicar onde estará o valor das consultorias. A IA consegue organizar informações, ampliar análises e explorar aquilo que a empresa já sabe que precisa investigar. A descoberta começa quando o cliente ainda não consegue identificar o que deveria buscar ou quais possibilidades poderia explorar. “A grande oportunidade é a descoberta para entrar no ‘não sei que não sei’, porque o território é muito maior”, afirma Olga.

O papel do consultor passa a ser conectar esse futuro ainda desconhecido às decisões e ações do presente. “Quem se posiciona como uma ponte entre o futuro e o presente tem muito a contribuir”, diz. Olga ressalta, porém, que aproveitar essa oportunidade exige “musculatura” para lidar com o processo de descoberta, e não apenas para expandir o conhecimento existente.

Competências linguísticas e ontológicas

A capacidade de ocupar esse espaço não depende apenas do domínio técnico da inteligência artificial. Olga afirma que surgem competências de outra natureza, sobretudo linguísticas e ontológicas, necessárias para estabelecer contextos, alinhar diálogos, esclarecer intenções e calibrar resultados. Elas permitem que profissionais e organizações expressem com clareza o que desejam construir antes de recorrer à tecnologia para encontrar os caminhos.

Para a executiva, que foi professora no início da carreira, a formação tradicional foi estruturada principalmente para transmitir e ampliar conhecimentos. Já o processo de descoberta exige experimentação e revisão contínua das perguntas. São essas habilidades que permitem reconhecer se o resultado produzido pela IA corresponde ao objetivo original e ajustar a interação quando necessário.

No Vanto Group, a inteligência artificial já faz parte dos projetos voltados ao alto desempenho e é utilizada para acelerar o processo de descoberta. Segundo Olga, a melhoria na qualidade das respostas começa pela mudança na forma como as pessoas se relacionam com os agentes e estruturam as informações fornecidas a eles.

Apesar dos avanços, Olga considera que a adoção coletiva e estratégica da IA ainda é incipiente. Parte da dificuldade decorre da resistência dos profissionais, que frequentemente percebem a tecnologia como uma ameaça de substituição. Para dar um salto, porém, a empresa precisa definir com clareza o futuro que pretende construir. “Esse futuro desejável, que antes era um luxo, agora se torna uma necessidade”, afirma. Sem essa direção, a IA pode aumentar a velocidade do trabalho, mas continuará conduzindo a organização por caminhos já conhecidos.

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