“Para exercer nosso propósito de levar vida saudável é preciso investir em inovação”

Monica Miglio Pedrosa
“Desde sua fundação, o Einstein tem como essência levar vidas mais saudáveis para um número cada vez maior de pessoas”. A afirmação feita pelo Dr. Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita, que fez a palestra magna na abertura do Fórum CEO Brasil 2026, se conecta com as escolhas diárias feitas na instituição.
Criado em 1955 por um grupo de integrantes da comunidade judaica, com o propósito de retribuir à sociedade brasileira o acolhimento recebido pelos imigrantes, o Einstein nasceu do projeto de construir um hospital que oferecesse assistência de qualidade independentemente da condição econômica dos pacientes. A iniciativa mobilizou doações e o trabalho de voluntários durante os 16 anos que antecederam a inauguração oficial, em 1971. Exemplo disso, afirmou ele, é que mesmo dois anos antes de abrir as portas, o hospital já levava atendimento filantrópico à comunidade de Paraisópolis, maior favela em número de moradores na cidade de São Paulo.
Levar conhecimento médico de ponta e inovação a um número cada vez maior de pessoas é o propósito que permeia as decisões do Einstein, eleito o melhor hospital da América Latina e um dos melhores do mundo em oito especialidades médicas, segundo o ranking “World’s Best Specialized Hospitals 2027”, desenvolvido pela Newsweek.
Hoje, a atuação do Einstein na rede pública supera, em número de leitos, sua operação privada. São 34 unidades públicas sob sua gestão, incluindo nove hospitais, com mais de 2 mil leitos, diante de pouco mais de 800 nas duas unidades privadas. O volume de atendimentos de emergência no setor público é quase três vezes maior, segundo os dados apresentados por Klajner.
A relação também produz aprendizados que circulam entre as duas operações. A experiência na gestão de quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, ajudou a instituição a compreender como acompanhar a jornada de pacientes com demandas de saúde mental. Esse conhecimento contribuiu para a criação de uma unidade dedicada à área, o Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, em Pinheiro (SP), que atendeu mais de 2.400 pacientes em 2025.
Compartilhando conhecimento
“Conhecimento guardado para nós mesmos é um conhecimento que se perde”, afirmou. Essa convicção ajuda a explicar a expansão das atividades de ensino, pelas quais passaram 83 mil alunos em 2025, e a manutenção de uma plataforma gratuita que reúne quase 1 milhão de inscritos. A formação de profissionais permite que o conhecimento produzido na instituição chegue a outros serviços e populações.
Em Paraisópolis, essa atuação ganhou uma escola gratuita de ensino técnico integrado ao ensino médio. A iniciativa levou à comunidade um modelo já adotado pelo Einstein na Avenida Paulista, com formação para atividades como enfermagem, administração em saúde, imagem e laboratório. Segundo Klajner, a instituição contratou mais de 60% dos egressos de seus cursos técnicos integrados ao ensino médio.
Alunos de medicina da Faculdade de Ciências da Saúde Albert Einstein criaram o Projeto Kavanah, iniciativa de extensão universitária que organiza mutirões cirúrgicos de cirurgias eletivas de baixa e média complexidade para ajudar a reduzir filas de espera do SUS em municípios do interior de São Paulo, Minas e Goiás. Com quase dez missões realizadas, a experiência mostra como o compromisso de promover vidas mais saudáveis pode ser incorporado durante a formação e transformado em ação.
Klajner contou ainda um episódio que retrata o propósito à frente da gestão da instituição filantrópica. Ao discutir um programa de educação em saúde que chega a mais de 13 milhões de crianças de cinco a 11 anos, ele ouviu de um conselheiro um questionamento sobre qual seria o retorno da iniciativa para a organização. Desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde, o projeto ensina cuidados como higiene das mãos, escovação dos dentes e destinação de resíduos, conhecimentos que as crianças também levam para casa.
“O programa retorna porque essas crianças serão adultas um dia.” Para Klajner, formar pessoas capazes de cuidar melhor da própria saúde atende diretamente à missão do Einstein, ainda que os benefícios se distribuam pela sociedade e só se tornem mais evidentes ao longo do tempo.
Pesquisa e inovação
A mesma orientação sustenta investimentos em pesquisa, uma atividade cujos resultados não podem ser assegurados de antemão. Em 2025, o Einstein destinou R$ 180 milhões à área, quantia 10% acima do ano anterior. A pesquisa, explicou, é necessária para comprovar se tratamentos, tecnologias e práticas de gestão produzem os efeitos esperados. Essa validação também dá sustentação às iniciativas de inovação.
Para exercer nosso propósito de levar vida saudável às pessoas é preciso mudar os mecanismos antigos que usamos até hoje e investir em inovação.”
O ecossistema apresentado por Klajner reúne 164 startups e inclui programas voltados a soluções para a saúde pública. Nos centros colaborativos de inovação do Einstein, empresas trabalham com profissionais que conhecem as necessidades locais, aproximando o desenvolvimento de tecnologias dos problemas encontrados no atendimento à população.
No caso da inteligência artificial, essa orientação se traduz na busca por ferramentas que ampliem a capacidade dos profissionais, melhorem a assistência e ajudem a enfrentar a falta de especialistas em determinadas regiões.
No centro de inovação criado na Amazônia foram desenvolvidas soluções para reduzir o índice de mortalidade materna na região norte, que é uma das maiores do mundo por falta de obstetras atuando na região. Um dos projetos usa um LLM treinado em mais de 2 mil artigos científicos para apoiar médicos da atenção primária no atendimento às gestantes. Outra solução funciona sem conexão à internet e analisa imagens de lesões de pele para ajudar a identificar possíveis casos de leishmaniose e orientar o encaminhamento do paciente ao atendimento especializado.
A telemedicina também permite aproximar especialistas de populações que vivem longe dos grandes centros. O Einstein desenvolveu um programa de consultas em 12 especialidades que atendeu mais de 550 mil pacientes desde 2021. Em comunidades ribeirinhas, esse atendimento ajuda a evitar deslocamentos de pacientes doentes que precisariam viajar até 24 horas de barco para chegar até um município com especialistas para atendê-los.
Apesar de reconhecer a importância da tecnologia, Klajner alerta que a adoção de novas ferramentas deve preservar o cuidado e a atenção humana a cada paciente. “Aquilo que é insubstituível é o toque, o olhar, a sensibilidade. O entendimento da condição daquela pessoa, da sua família, o que o traz ao hospital.”
Impacto da crise climática na saúde
“Não há como falar de propósito sem olhar para o clima. 67% das unidades de saúde na América Latina estão em áreas de risco para extremos climáticos”, contou Klajner. Para ajudar nessa frente, o Einstein desenvolveu uma plataforma de saúde para cruzar informações de temperatura e umidade do ar dos 5.500 municípios brasileiros com dados de saúde de canais oficiais para entender a correlação com o aumento da mortalidade e o número de demanda de leitos hospitalares, entre outros, apoiando o gestor de saúde a antecipar demandas. Essa atuação inclui ainda projetos com comunidades indígenas e quilombolas que relacionam condições de saúde à qualidade da água, do solo e do ambiente.
Aos mais de 200 líderes empresariais presentes no Fórum, Klajner ressaltou que as decisões sobre saúde também têm consequências econômicas e sociais. Elas interferem na produtividade, na permanência dos profissionais nas empresas e nas condições de vida das famílias. “Decisões erradas em saúde vão diminuir produção, vão diminuir receita, vão prejudicar colaboradores, vão permitir evasão de bons colaboradores”, afirmou.
O presidente do Einstein, que atua de forma voluntária neste cargo, concilia a liderança da instituição com a prática médica. “Eu tenho o privilégio enorme de acordar todos os dias muito cedo para operar, fazer consultoria e estar à frente do Einstein, de forma voluntária. O que eu recebo é ajudar a construir o futuro”, finalizou, emocionando a plateia.
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



