“É inadmissível conviver com o custo do dinheiro que existe hoje no Brasil”, diz Dario Durigan

Monica Miglio Pedrosa
“É inadmissível que a gente conviva com o custo do dinheiro que existe hoje no Brasil”, afirmou o ministro da Fazenda Dario Durigan, na palestra de encerramento do segundo dia do Fórum CEO Brasil 2026. Ele defendeu contas públicas no azul e superávits crescentes como uma contribuição do governo atual para reduzir os juros. Também explicou que outros fatores, como a Selic, o spread bancário e as taxas de longo prazo pagas pelo Tesouro Nacional, influenciam o custo do dinheiro.
Ao longo de sua palestra, Durigan apresentou sete desafios que, em sua visão, considera oportunidades para o Brasil: atrair investimentos internacionais; fortalecer as lideranças; avançar em energia, tecnologia, infraestrutura e educação; responder às mudanças no trabalho; melhorar as condições de vida e os serviços públicos; e tornar o Brasil um porto seguro para o mundo. Os detalhes você acompanha a seguir.
Economia em 2027
Durigan defende que, apesar de a taxa de juros estar caindo de forma muito lenta, o governo precisa continuar fazendo sua parte. Isso inclui deixar as contas públicas no azul e manter o superávit crescente. Outras ações incluem o corte de despesas obrigatórias, a abertura de espaço no orçamento, sem aumentar o limite geral de gastos e a revisão de privilégios e benefícios tributários.
Ao falar dos gastos obrigatórios, citou os pisos de saúde e educação que, em sua visão, não deveriam crescer acima do conjunto de despesas. Mencionou também o aumento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que passou de R$ 112 bilhões no fim do governo anterior para R$ 145 bilhões no atual. Reconheceu que a alta tem relação, entre outros fatores, com uma maior identificação de casos de autismo, mas aponta para possíveis abusos e expansionismo indevido que precisam ser averiguados. Também criticou os possíveis desvios do Seguro-Defeso, benefício voltado ao pescador artesanal durante o período em que a pesca é proibida por lei, afirmando haver estados com mais pescadores cadastrados do que o IBGE registra.
Esse caminho de a gente ir fazendo gradativamente, mas sempre com o sentido de melhorar a conta, é o único caminho possível sem disrupção social.”
Reforma Tributária
Durigan descreveu o atual sistema de tributação do consumo como complexo e disse que, hoje, a carga para as empresas supera 30% quando se somam tributos como ISS, ICMS, IPI e PIS/Cofins. Para o ministro, o novo modelo, após a Reforma Tributária, permitirá mostrar na nota fiscal o valor exato cobrado em cada operação.
Em 2027, no período da transição, ele lembrou que apenas a parcela federal entra na alíquota, o equivalente a cerca de um terço do novo imposto. Também reforçou que este será um período de adaptação para empresas e contadores, sem penalidades por dúvidas ou problemas nas emissões das notas fiscais. O ministro afirmou ainda que programas podem ser criados para tratar eventuais dificuldades das empresas. Sobre o imposto seletivo, declarou que seu compromisso é o de manter, pelo menos em 2027, uma cobrança equivalente ao IPI que será substituído.
Confiança do mercado
Durigan lembrou que a atual gestão recebeu do governo anterior um orçamento com um déficit de R$ 189 bilhões e o governo precisou acertar as contas ao longo dos anos. A previsão é de que em 2027 o país alcance R$ 20 bilhões de superávit. Apesar disso, o ministro afirmou que o mercado ainda acha este resultado baixo e espera por mais. Ele ponderou, porém, que o ajuste não deve deixar de lado educação, desigualdade social e defesa. Também reconheceu que o governo falhou ao não definir com clareza as prioridades para o país. Na visão de Durigan, foco, gestão e corte de gastos poderiam ajudar a convencer o mercado a cobrar juros menores.
O ministro defendeu uma relação menos conflituosa entre o Estado e a iniciativa privada. Citou como referência o programa Operador Econômico Autorizado (OEA), em que empresas que cumprem os requisitos recebem um “selo verde” da Receita Federal e deixam de passar por fiscalizações rotineiras. Propôs uma lógica semelhante na área tributária. O objetivo seria o de reduzir contenciosos, custos e ineficiências por meio de mais diálogo e programas de conformidade.
Brasil, um porto seguro para o mundo
Durigan apresentou a ideia de transformar o Brasil em um porto seguro para o mundo como o primeiro dos desafios que também considera oportunidades. Para que isso aconteça, disse, é preciso reforçar a democracia, o respeito às instituições, a soberania e uma economia forte. O Brasil está fora da zona de guerras, tem boas relações internacionais, a riqueza da Amazônia, um mercado consumidor enorme e é uma potência energética. Todos são ativos que despertam o interesse do investimento externo.
Lideranças públicas e empresariais exemplares
“Dinheiro público não é da autoridade, mas do país inteiro. A autoridade deve exercer sua função para o bem da coletividade. É uma lição básica, mas que precisa ser reforçada”, afirmou. O ministro disse que procura mostrar esse padrão de conduta no Ministério da Fazenda. Contou que, quando alguém sugere oferecer algo em troca da apresentação de um projeto, responde que aceita discutir propostas que ajudem as contas públicas ou tragam eficiência à economia, sempre sem contrapartidas. Ele acredita que episódios que desgastam instituições e autoridades, como o que estamos vendo no Supremo hoje, desunem o país e comprometem sua imagem diante do mundo. “Temos uma necessidade urgente de ter lideranças, públicas e privadas, honestas, corretas e patrióticas.”
Energia, tecnologia, infraestrutura e educação
Ao falar das prioridades que o país deveria comunicar com mais clareza, Durigan destacou quatro áreas. Na energia, citou biocombustíveis, SAF (Sustainable Aviation Fuel), o combustível sustentável de aviação, etanol e tecnologias que permitam combinar combustíveis fósseis e sustentáveis. Também falou de oportunidades em óleo e gás e da possibilidade de o Brasil fornecer combustível para navios, contribuindo para reduzir as emissões do transporte marítimo.
Na tecnologia, apontou os minerais críticos como uma oportunidade para desenvolver atividades de maior valor agregado no país. Em vez de extrair e exportar minério para depois importar produtos acabados, defendeu criar condições para processar esses materiais no Brasil e produzir localmente itens como baterias. Também mencionou a eletrificação, a atração de data centers e o uso de inteligência artificial como prioridades.
“Não temos que querer competir com os Estados Unidos e China em tecnologia. Temos que saber como usar isso em aplicações para as coisas que são importantes para o Brasil”, afirmou. Entre as aplicações, citou o uso de IA no agronegócio, na indústria, nos serviços e no poder público. Mencionou o potencial da tecnologia também na saúde, usando os dados do Sistema Único de Saúde (SUS).
Na educação, reconheceu que o Brasil ainda apresenta resultados ruins em avaliações como o PISA. Durigan ponderou que o país investe em educação há menos tempo que as nações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e afirmou que o próximo passo deve ser melhorar a qualidade do ensino e o desempenho dos estudantes.
Trabalho e custo de vida
O ministro disse que o mundo do trabalho mudou e que é necessário proteger a dignidade dos trabalhadores sem ignorar a realidade dos microempreendedores individuais, dos profissionais da nova economia, como os que trabalham em aplicativos, e dos empreendedores. Durigan enfatizou que, além de manter as pessoas mais tempo na escola — e programas como o Pé de Meia ajudam nisso —, o próximo passo é dar oportunidades para que elas prosperem da forma que quiserem, seja em empregos formais, seja como empreendedores. “O ciclo da educação precisa se completar no que eu chamo de empreendedorismo com base digital.”
Como resposta ao alto custo de vida, defendeu a geração de empregos, a manutenção de benefícios para quem precisa e o enfrentamento do endividamento. Durigan comemorou a redução do número de beneficiários do Bolsa Família, de 21,9 milhões em 2022/2023 para 18,7 milhões em 2025, atribuindo parte dessa queda à entrada de pessoas no mercado de trabalho. Sobre as dívidas, disse que programas como o Desenrola evitaram que o problema aumentasse, mas ainda não reduziram de forma significativa o problema. Muitas pessoas continuam negativadas por débitos antigos e ainda enfrentam dificuldades para acessar crédito.
Um Estado que simplifique a vida
O sétimo desafio é a melhoria dos serviços públicos. Durigan defendeu que o Estado reduza burocracias e ofereça serviços de forma mais simples, como por exemplo a eliminação da declaração anual do Imposto de Renda, já que a Receita Federal recebe informações digitais de bancos, planos de saúde e empresas.
Também citou o caso dos produtores rurais, que precisam atualizar informações sobre o imóvel em cartórios, no Incra e no Cadastro Ambiental Rural. O processo, disse, deveria ser resolvido em um único lugar. Já o programa Farmácia Popular apareceu como exemplo positivo de serviço público que reduz despesas das famílias por meio da compra de medicamentos pelo SUS a preços menores.
Para encerrar, o ministro se posicionou em relação ao momento eleitoral atual. “Temos que ter muita consciência em momentos difíceis. Precisamos nos unir, nos fortalecer enquanto país, fortalecer as instituições e dar o exemplo.”
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