Guerra contra o medo: 7 lições de um ex-correspondente de guerra em zonas de conflito

“Quando você tem foco em um objetivo e está ocupado com uma tarefa, que é o meio para atingir seu objetivo, o medo tem um papel secundário”. A frase é do jornalista Lourival Sant’Anna, ex-correspondente de guerra que cobriu conflitos em países como Líbano, Afeganistão, Iraque e Síria. Em 2006, durante a guerra no Líbano, o jornalista foi entrevistar moradores cujas casas haviam sido bombardeadas. Enquanto trabalhava e focava a atenção no que acontecia à sua volta, manteve o medo sob controle. À noite, ao ouvir aviões e explosões próximos à casa onde se encontrava, o medo de morrer e nunca mais ver os filhos voltou com toda a força.
“Guerra contra o medo” foi o tema de sua palestra no Fórum CEO Brasil 2026. A partir de experiências vividas em zonas de conflito, Lourival trouxe reflexões sobre propósito, empatia e como agir diante da incerteza.
Sinceridade de propósito
Depois dos atentados de 11 de setembro, Lourival pegou o último voo para Israel antes do espaço aéreo fechar. Seguiu então por terra para a Jordânia e depois para o Paquistão. Seu objetivo era entrar no Afeganistão e entrevistar os talibãs, mas a autorização era negada. Em uma dessas conversas, um jovem disse que se explodiria diante de um tanque americano, enquanto o pai apoiava a justificativa da Al-Qaeda e do Talibã para os atentados.
Todos os dias, Lourival e seu guia, Iqbal Afridi, reviam as anotações e discutiam os contextos cultural, religioso, social e histórico que ajudariam a compreender aquele posicionamento. O jornalista também entrevistou o diretor e estudantes de uma escola que havia formado líderes talibãs. Iqbal percebeu que Lourival tentava compreender a população, sem buscar argumentos para retratá-la como primitiva ou radical. “Meu papel aqui não é julgar ninguém, não é defender e nem criticar, é só entender.”
Essa postura levou Iqbal a ajudá-lo a chegar ao Afeganistão. Depois de várias tentativas, o guia conversou com o chefe da guarda na fronteira e conseguiu a autorização. Lourival foi à tenda dos líderes talibãs em Kandahar, apresentou-se e fez perguntas delicadas sobre o Alcorão, o martírio e a ausência de eleições. Os líderes discutiram o que fazer com ele e decidiram protegê-lo como hóspede. A entrevista terminou com a expulsão do jornalista do país.
Anos depois, Lourival perguntou a Iqbal como ele havia convencido a guarda. O guia contou que seu tio era um general que lutava ao lado do Talibã. Com essa informação, arriscou a própria vida para ajudar o jornalista a cumprir o objetivo. Lourival recordou que outros jornalistas chegaram a oferecer US$ 5 mil a Iqbal para repetir a travessia, mas ele recusou a oferta. Na visão de Lourival, o guia agiu porque reconheceu a sinceridade de seu propósito. “Ele sentiu em mim uma sinceridade de propósito que transformou o meu objetivo num objetivo dele.”
Incoerência entre o fazer e o ser
Na Coreia do Norte, Lourival viveu o efeito de agir sem coerência entre o que dizia e o que fazia. Entrou no país como turista e se apresentava às guias como consultor de negócios, enquanto filmava e fotografava o Exército e a zona rural, práticas proibidas. Escondia cartões de memória no quarto e temia ser descoberto. “Eu estava sentindo muito medo, porque eu estava mentindo”, contou.
Para explicar essa tensão, Lourival citou o neurocientista Fabiano Moulin de Moraes, da Universidade Federal de São Paulo, que escreveu o prefácio de seu livro. Ele alega que “quanto maior a distância entre o que você diz e o que você é, mais se dissipa energia mental”. O jornalista contou que a vontade de mostrar as condições de vida da população norte-coreana lhe dava coragem, mas que a mentira o fragilizava.
A ilusão do controle aumenta o medo
Em 2014, enquanto cobria o avanço do Estado Islâmico no Iraque, Lourival voltava da frente de batalha com um jornalista iraquiano e um motorista curdo. Um parente do motorista enviava informações sobre as posições do grupo para que evitassem seu território. Em uma das viagens, eles erraram uma conversão e entraram na área controlada pelo Estado Islâmico. Uma placa furada por um tiro os alertou para o perigo. Lourival observou que ela poderia ter sido derrubada por uma tempestade de areia ou por bombardeios. “Se a placa não estivesse lá, eu não estaria aqui”, disse.
A experiência o levou a refletir sobre os limites do planejamento. Organizar e preparar o que está ao alcance ajuda a prevenir problemas, mas não permite controlar o desfecho. “Você organiza tudo que tem para organizar, planeja tudo que tem para planejar, mas você não controla o resultado”, afirmou. Para Lourival, aceitar essa incerteza preserva energia para enfrentar os imprevistos inevitáveis. Porque quando algo não sai do jeito que você imaginou, você vai dobrando a aposta e se tornando cada vez mais ansioso. A saída? “Aceitar que ninguém controla o resultado. Você só faz a sua parte.”
O instinto responde ao perigo concreto
Lourival diferencia o medo diante de uma ameaça concreta e iminente daquele que surge ao imaginar o que pode acontecer. No primeiro caso, recomenda confiar no instinto. Em situações incertas, em que há tempo para avaliar, a razão deve ajudar a ponderar o objetivo e as circunstâncias. A experiência oferece referências, mas não garante que uma resposta usada antes funcione de novo.
Na guerra entre Rússia e Geórgia, em 2008, Lourival queria chegar à Ossétia do Sul, território em disputa. Ao se aproximar de um posto de controle, viu um soldado russo apontar uma arma para o carro. Saiu do veículo e caminhou em direção a ele com as mãos erguidas, mostrando o passaporte com visto russo e a credencial de jornalista brasileiro. O soldado não atirou e o levou até o comandante do posto. Para Lourival, demonstrar tranquilidade ajudou a não alimentar o medo do outro.
Mais tarde, guerrilheiros o obrigaram a entrar em um Lada e apontaram um fuzil para seu peito. Quando a porta se abriu, ele pulou do carro. Em outro posto, um guerrilheiro encostou o fuzil em sua garganta. Lourival ficou imóvel enquanto um cabo russo tentava explicar que ele era jornalista. Ele avaliou depois que fugir poderia ter levado o homem armado a persegui-lo e a não ouvir a explicação. Na palestra, associou as três respostas aos chamados “três Fs”: enfrentar, fugir e paralisar. Disse que, nos três momentos, agiu por instinto, sem ter tempo para pensar.
Experiências passadas não garantem êxito
Na guerra do Iraque, em 2003, Lourival tentou conseguir o visto por meio de um contato diplomático em Amã, repetindo uma estratégia que já havia funcionado em outra viagem. Dessa vez, o funcionário que o ajudaria não apareceu e o embaixador não o recebeu. Lourival entrou no Iraque sem visto, em um comboio com outro jornalista.
Anos depois, ao cobrir a volta do Talibã ao poder, ele quase repetiu o mesmo erro. Em vez de recorrer a um profissional que conseguia vistos, decidiu viajar com Iqbal, seu antigo guia no Afeganistão, e confiou que poderiam refazer o caminho de duas décadas antes. Mas Iqbal havia se tornado empresário, e a embaixada afegã ainda representava o governo anterior. Com a viagem marcada para dali a poucos dias, Lourival voltou a procurar o profissional que havia dispensado. O visto saiu na última hora.
As duas situações reforçaram uma conclusão de Lourival: “A experiência é um repertório muito rico, mas é preciso ter cuidado.” Pessoas e circunstâncias mudam, por isso experiências passadas podem orientar uma decisão, mas não devem ser repetidas automaticamente.
A escuta dá valor a quem vive a guerra
Em uma missão de observadores da ONU na Síria, Lourival acompanhou a equipe até um povoado. Na véspera, havia estado no mesmo lugar com funcionários do regime e outros jornalistas, mas os moradores ficaram em casa. No dia seguinte, diante dos observadores e de uma câmera, começaram a relatar o que viviam, mesmo sabendo que aquelas declarações poderiam levá-los a ser presos, torturados ou desaparecer. A polícia secreta, que havia combinado não participar da visita, também estava lá.
De volta a Damasco, Lourival temeu que a divulgação do material expusesse os moradores a represálias sem trazer resultados. Ainda assim, traduziu o vídeo para o inglês e o enviou a contatos de organizações de direitos humanos. O registro foi usado pela ONU como uma das evidências dos crimes contra a humanidade cometidos pelo regime.
A experiência reforçou sua percepção de que ouvir as pessoas também é uma forma de ajudá-las. “Quando alguém vem de longe para ouvir a sua história, essa pessoa restaura um pouco do valor da sua vida”, afirmou. Para Lourival, voltar a atenção para a história do outro também o afastava do próprio medo e do drama interno.
A vida só acontece no presente
Na Líbia, enquanto filmava rebeldes disparando foguetes durante o avanço das forças de Muammar Kadafi, Lourival tinha de se concentrar no que acontecia diante dele. O impacto dos disparos fazia a câmera tremer. Nesses momentos, não havia espaço para pensar no passado ou antecipar o futuro. “Você só vive o presente.”
Ao preparar seu livro, Lourival revisitou seus cadernos, vídeos, gravações e reportagens e percebeu que sua memória reorganizava os acontecimentos conforme as emoções. Para ele, voltar ao momento presente ajuda a não consumir energia com lembranças e cenários que ainda não aconteceram.
O jornalista contou que só depois das coberturas de guerra descobriu a meditação. “A guerra foi a minha meditação, mas eu não recomendo isso para ninguém”, concluiu.
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