“Nossas empresas vão entrar em um vale da morte se não trabalharem com IA”

Monica Miglio Pedrosa
Um faturamento de R$ 47,9 bilhões, 102,2 mil empregos formais e 34,2 mil empresas de tecnologia em 2025. Santa Catarina é hoje o sexto maior polo empresarial de tecnologia do Brasil, com um setor que responde por 8% do PIB estadual e 21% do PIB de Florianópolis. Esses números mostram o alcance que o ecossistema da ACATE (Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia) ajuda a construir na região há 40 anos.
Fundada em 1986, a associação surgiu de um movimento da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da visão de Caspar Stemmer, ex-reitor que trouxe a ideia de integrar o meio acadêmico e o setor produtivo nos anos 1980. “Esse é um movimento orgânico, que se tornou cultural. Nós criamos um ambiente colaborativo”, conta Walmoli Gerber Jr., vice-presidente de marketing da ACATE.
Nessa entrevista à [EXP], Walmoli fala sobre os desafios para ampliar a inovação no Brasil e como a ACATE prepara as empresas de tecnologia catarinenses para as transformações trazidas pela inteligência artificial. Ele também aborda o risco de o país precisar importar tecnologias que têm competência para desenvolver, mas que não chegam ao mercado por falta de investimento.
Como a cultura de colaboração da ACATE se traduz em apoio concreto às empresas?
O trabalho e a colaboração sempre estiveram presentes, e isso gera outro tipo de visão sobre o negócio. Hoje, a ACATE já transcendeu o papel de uma associação. Temos, por exemplo, um fundo garantidor de crédito para empresas, que não conseguem oferecer garantias reais aos bancos.
Um empresário que está começando muitas vezes precisa oferecer um imóvel ou outro patrimônio para conseguir um empréstimo. Sabendo que isso é um problema para as nossas empresas, criamos um fundo que garante operações de até R$ 350 mil para empresas associadas que estejam com o nome limpo. A empresa toma o empréstimo no banco e, se não pagar, a gente cobre.
Esse dinheiro vem dos próprios empresários. Eu posso estar ajudando a garantir o crédito de um concorrente, mas a gente trabalha pelo ecossistema. Agora, vamos ampliar o limite das garantias para R$ 5 milhões, porque temos empresas que faturam R$ 10 milhões ou R$ 15 milhões e para as quais R$ 350 mil já não fazem tanta diferença.
Já fizemos mais de 200 operações e tivemos somente uma inadimplência, mesmo passando pela pandemia. Cada um assume suas responsabilidades, porque seu nome e sua posição em um ambiente em que todo mundo se conhece têm muito valor.
Como é a relação das empresas de tecnologia com os setores mais tradicionais da economia catarinense?
Temos uma relação muito próxima com a Federação das Indústrias, mas ainda temos muito a explorar nessa relação, estamos em um estágio embrionário diante das oportunidades que existem. Uma nação que quer ter competitividade, gerar oportunidades, riqueza e soberania precisa de tecnologia.
Criamos recentemente um curso de qualificação de lideranças que reuniu empresas da indústria tradicional e de tecnologia para aproximar interesses. Também temos o LinkLab, que conecta grandes empresas com empresas de tecnologia. O projeto procura colocar a inovação na cultura da organização, envolvendo toda a sua hierarquia, inclusive com pitches reversos, em que a indústria expõe seus problemas.
A Havan, por exemplo, apresentou um problema de logística para o qual não encontrava solução no mercado. Chamamos as nossas empresas, dois empresários ouviram o desafio e perceberam que sabiam resolvê-lo, porque já tinham trabalhado em uma solução para outro setor. A Havan contratou, e aquilo se transformou em um produto que passou a atender outras empresas. Um ano depois, a Equilibrium foi comprada pelo Grupo Boticário por R$ 60 milhões.
O que ainda dificulta uma aproximação maior entre a indústria tradicional e as empresas de tecnologia?
Acho que existe muito tradicionalismo, especialmente em empresas de administração familiar. O mercado de tecnologia tem peculiaridades. Uma empresa pode escolher consumir caixa para crescer. Para um industrial que sempre trabalhou pensando no resultado e na segurança financeira, pode ser difícil entender um investimento em uma empresa que naquele momento não vai dar lucro.
Na minha percepção, precisamos trabalhar mais com fundos de investimento, para que essas empresas possam alocar recursos e deixar que o fundo faça a gestão, sem depender apenas de uma relação direta com a empresa de tecnologia. Tento fazer essa aproximação o tempo todo. Algumas vezes temos sucesso; em outras, esbarramos nessas questões culturais.
Também precisamos aprender a trabalhar melhor com os recursos de renúncia fiscal. O Porto Digital tem uma experiência importante nisso, podemos aprender com eles e criar uma cadeia de oportunidades que a própria indústria poderá aproveitar depois.

A ACATE mantém parcerias e troca experiências com outros polos de inovação do país?
Temos parceria com praticamente todos os polos. A gente visita, recebe essas organizações e, em alguns casos, presta serviços a partir do que fazemos aqui. Também temos o Startup Summit, realizado uma vez por ano, com foco na jornada de desenvolvimento de uma empresa de tecnologia. As trilhas são avaliadas pelo que aquele conteúdo pode contribuir para uma empresa em crescimento.
Procuramos manter essa relação para aprender o que os outros estão fazendo bem e fazer melhor. Da mesma forma, queremos compartilhar o que fazemos para que eles também possam melhorar e a gente aprenda de novo. Somos uma caixa aberta. Não há segredo ou sigilo no que fazemos.
Imagine se houvesse uma ACATE em cada estado do Brasil. Todo mundo ganharia. O salário médio do nosso setor é três vezes o da indústria tradicional, e cada emprego em tecnologia gera quatro empregos indiretos. É muita oportunidade.
Como a associação apoia a internacionalização das empresas catarinenses?
Temos uma vice-presidência de internacionalização e escritórios em diferentes lugares do mundo, como Miami, Canadá, Inglaterra, Alemanha e China. Esses espaços são financiados pela associação. Dependendo do escritório, o empreendedor pode passar um período lá sem pagar, com um lugar para trabalhar e uma pessoa que o conecte ao ecossistema local. Não adianta colocar uma cadeira em outro país e deixar o empreendedor sozinho, perdido.
Também temos projetos de qualificação, inclusive com o Sebrae. A maioria das nossas empresas tem produtos globais, mas seus empreendedores ainda não sabem disso. Nosso papel é ajudá-los a olhar para fora do Brasil, perceber oportunidades e chegar a esses ambientes. A associação não tem participação comercial nos negócios que forem fechados. Se o empreendedor fizer um negócio de milhões, o que a gente ganha é uma boa história para mostrar que o trabalho está dando resultado.
Por que a inteligência artificial passou a ser uma prioridade para o ecossistema catarinense?
A verdade, quando vem atrasada, vem com juros. Existe uma verdade no mercado: as nossas empresas vão entrar em um vale da morte se não se atualizarem. Temos um perfil muito presente em Santa Catarina, o das empresas SaaS B2B, que vai sentir fortemente as consequências da facilidade que a inteligência artificial traz para desenvolver produtos e criar inovação a um custo muito menor.
Por um lado, isso facilitou muito a vida do empreendedor criativo, que consegue testar e validar uma ideia sem aquela necessidade de investimento que antes era uma trava muito forte. Por outro, muitas empresas vão deixar de existir se não atualizarem seus produtos e o que estão desenvolvendo.
Se queremos continuar sendo um centro de referência em tecnologia para o Brasil e para o mundo, temos que trabalhar com inteligência artificial. Ponto.
Como o projeto ACATE AI First pretende apoiar essa transformação?
Eu lidero esse projeto. Hoje temos 34 mil empresas de tecnologia no estado e queremos que, em cinco anos, pelo menos 10 mil tenham a IA como meio ou fim em seus produtos. É um projeto focado no empreendedor.
Já começamos movimentos para despertar esse interesse, com parcerias e benefícios, e vamos oferecer cursos de certificação. Também estamos trazendo empresas que trabalham com inteligência artificial em alto nível para compartilhar o que estão fazendo. É uma frente que chamamos de Código Aberto, para que os empreendedores percebam onde estão as oportunidades, o que está dando certo e o que está dando errado.
A ideia é conectar o empreendedor com um executivo que já passou pela jornada e pelas dificuldades, viu onde errou e onde acertou. Queremos que ele compartilhe isso para facilitar o caminho de quem vai seguir uma trajetória parecida. Vamos fazer ações a cada semana ou a cada duas semanas, com informações que ajudem o empreendedor a transformar seu produto e sair desse vale da morte.
Qual é a visão do projeto sobre o impacto da IA no emprego?
Um pilar importante é que não estamos fazendo isso para reduzir mão de obra. Queremos que as empresas cresçam, e a falta de profissionais é um problema para o nosso setor. Temos uma demanda reprimida de mais de 100 mil vagas para os próximos três anos.
A IA pode ajudar a atender essa demanda e permitir que a empresa continue crescendo, se desenvolvendo e gerando empregos. Fazer um projeto para eliminar mão de obra seria um tiro no pé. Não vamos ter um estado com segurança e qualidade de vida se houver desemprego e falta de oportunidade. Estamos trabalhando para que as nossas empresas continuem crescendo.
Quais barreiras precisam ser vencidas para que ecossistemas como esse se desenvolvam em outros estados?
A cultura é uma barreira. Acho que há estados que ainda não estão preparados para colaborar, onde as pessoas trabalham de forma muito individual. O ecossistema não pode ser individualizado, ele tem que ser coletivo. Precisa ser mais democrático e tratar a empresa pequena e a grande com o mesmo respeito em uma mesa de negócios.
Aqui temos grandes empreendedores entre as nossas lideranças, mas todo mundo tem oportunidade. O empresário que já cresceu tem conhecimento para compartilhar. Quem está surgindo traz inspiração e inovação. Eles se completam. Ninguém vai ser inovador a vida inteira; em algum momento, vai precisar buscar oportunidades fora do seu próprio negócio.
Também é preciso falar dos projetos e perder o medo de que alguém copie. Isso vai acontecer naturalmente. A ideia não vale nada. O que vale é o poder de execução.
Além da cultura, o que mais dificulta a vida do empreendedor brasileiro?
A burocracia é muito complicada. Minha empresa atua com física médica, em um setor regulado. Para cadastrá-la e prestar serviços em São Paulo, precisei alugar uma sala física porque a vigilância sanitária exigia. O processo demorou dois anos. Fiquei dois anos pagando aluguel para um fiscal ir lá e fazer uma vistoria de dois minutos.
A carga tributária também precisa ser equilibrada e proporcional ao que o empresário começa a entregar. Cobrar antes disso quebra as pernas de quem está começando. É dinheiro que poderia gerar oportunidades e voltar aos cofres públicos de outra forma. Ninguém aqui é contra pagar imposto, mas queremos que ele seja justo e cobrado no momento certo.
Qual deveria ser o papel das políticas públicas no desenvolvimento de novas tecnologias no Brasil?
A subvenção econômica é fundamental, via Finep e fundações de amparo à pesquisa, para dar oportunidade a quem tem uma ideia, mas não tem dinheiro nem de onde tirar. É por isso que temos tanto software, 90% do nosso setor é software. Desenvolver hardware no Brasil sem subvenção e sem investimento forte é muito difícil. A gente não consegue ser competitivo e precisa importar.
Precisaríamos de uma política forte, orientada pelas necessidades do país. O que o SUS mais está comprando de equipamento? É Raio-X? Então vamos investir no desenvolvimento disso. Qual é o maior problema do agronegócio? É trator? Então vamos desenvolver trator. Temos competência para fazer e fazer bem.
Eu invisto em empresas da área da saúde e sei o quanto sofremos para colocar esses negócios de pé. Se tivéssemos recebido investimento para desenvolver aquilo em que já tínhamos competência, poderíamos estar exportando e reinvestindo esses recursos. Há empresas aqui que receberam subvenção há 15 ou 20 anos e hoje pagam, por mês, mais impostos do que todo o valor que receberam lá atrás. Esse investimento retorna.
Que transformações o senhor enxerga para os próximos anos e como o Brasil está se preparando para elas?
Não sou muito futurólogo, mas algumas coisas já são reais. Tenho certeza de que vamos sofrer as consequências de mercados que vão se consolidar fora e chegar aqui. Um exemplo são as tecnologias quânticas, especialmente computação, sensoriamento e comunicação quântica.
O Brasil forma profissionais em física quântica, mas muitos dos nossos principais físicos estão em Dubai, nos Estados Unidos e na Alemanha, ganhando bem e trabalhando em grandes empresas. Eu fundei uma empresa de computação quântica no Brasil e acompanho isso. Poderíamos ser pioneiros pela competência humana que temos, mas quem vai investir no desenvolvimento de um processador quântico?
Outro movimento é o da robótica e dos humanoides, que vão realizar atividades dentro de casa, nas empresas e na indústria. Isso vai chegar e nos atingir. Também temos competência e pesquisa avançada em biotecnologia, mas muitas vezes o trabalho fica na dissertação que vai para a prateleira. Estamos perdendo essas oportunidades.
Como o trabalho da ACATE se conecta à formação profissional e à inclusão social?
Por meio da nossa vice-presidência de talentos, já geramos mais de 50 mil vagas para qualificação de profissionais de tecnologia, em parceria com organizações como Sebrae, Google e Oracle. Praticamente todas gratuitas. Em alguns casos, oferecemos bolsas, porque não adianta dar uma vaga para uma pessoa em vulnerabilidade social se ela não consegue pagar o ônibus ou precisa trabalhar.
Alguns empreendedores escreveram um livro que já arrecadou mais de R$ 200 mil. Todo o dinheiro é destinado a bolsas para meninas em vulnerabilidade social entrarem no setor de tecnologia. É um trabalho voltado para a sociedade.
Há também iniciativas para identificar e desenvolver talentos ainda na escola?
Temos uma relação muito próxima com uma escola em que testamos alguns produtos. Um deles foi usado para identificar crianças com habilidades especiais, incluindo altas habilidades. Para essas crianças, criamos atividades no contraturno, com cursos para aprender a usar aplicativos. Muitas dessas crianças já estão no mercado e hoje ajudam a sustentar suas famílias.
De que forma a tecnologia desenvolvida no estado chega aos serviços públicos de saúde?
Eu dou muitas palestras em eventos de tecnologia e saúde e falo que Santa Catarina é referência. Mas, se alguém me perguntar se a tecnologia que desenvolvemos está nos hospitais públicos do estado, eu posso passar vergonha. Comprar tecnologia é difícil para o poder público, há processos e impugnações, e o hospital acaba recebendo essas soluções depois.
Por isso, resolvemos doar. Há um hospital que usa sensores das nossas empresas para controlar a cadeia de frio de medicamentos de alto custo. Eu também doei um tomógrafo de brinquedo para um hospital infantil. A criança brinca antes de fazer o exame e se envolve com aquela experiência. Isso reduz em 30% o uso de anestesia, além de reduzir custos. Em um atendimento de 20 crianças por dia, são seis que deixam de precisar de anestesia.
Também temos iniciativas de doação de aparelhos auditivos. Fazemos o que está ao nosso alcance, dentro das condições das empresas. Minhas filhas têm plano de saúde, mas, se precisarem de um atendimento de alta complexidade, vou levá-las ao hospital infantil do estado, porque ali está uma grande competência técnica. Quando contribuímos para melhorar esse atendimento, também protegemos nossas famílias. É o ambiente trabalhando para que todo mundo ganhe.
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



