Brasil precisa decidir se será fornecedor ou comprador de tecnologia, diz presidente do Porto Digital

Monica Miglio Pedrosa
“O Brasil está agora em uma encruzilhada para decidir se vai ser fornecedor ou se será comprador de soluções de tecnologia.” A avaliação é de Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, principal distrito de inovação da América Latina. Para ele, a chegada da inteligência artificial abre uma oportunidade para o Brasil se tornar um grande celeiro de aplicações capazes de resolver problemas complexos na saúde, educação e saneamento, entre outros. Esse avanço exige formação de pessoas em larga escala e maior aproximação entre empresas, universidades e governo, uma articulação que ajudou a transformar a região do Recife em um polo de inovação ao longo dos últimos 25 anos.
Com 541 empresas e mais de 24 mil colaboradores, o Porto Digital alcançou um faturamento de R$ 7,4 bilhões em 2025 e já planeja sua próxima década de expansão. O recém-lançado NERD, Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital, busca ampliar as conexões entre empresas de diferentes setores, startups e universidades. Instalado em um casarão histórico restaurado com investimento de R$ 18,5 milhões no Centro de Recife, o núcleo tem entre seus objetivos dobrar o tamanho do Porto Digital em dez anos.
Entre os dias 11 e 14 de novembro, a cidade também recebe a oitava edição do REC’n’Play, que busca aproximar a população da tecnologia. A programação gratuita terá mais oficinas práticas do que na edição anterior, ampliando as oportunidades de capacitação em novas ferramentas. Nessa entrevista à [EXP], Lucena fala sobre alguns caminhos que o Brasil pode trilhar para aproveitar as oportunidades da IA, os riscos da falta de uma estratégia digital nacional e questiona a aposta em data centers para o crescimento da economia local.
[EXP] O que falta para o Brasil se tornar um país mais inovador?
[Pierre Lucena] O Brasil está muito menos atrás do que as pessoas imaginam quando a gente fala de inovação. Ficamos nos comparando com Estados Unidos e China, mas eles estão em outro patamar. Nesse momento, o Brasil está numa encruzilhada para decidir se vai ser fornecedor ou comprador de soluções de tecnologia.
A inovação não surge simplesmente de uma ideia, mas da resolução de problemas. E o Brasil tem muitos problemas complexos. Com a chegada da inteligência artificial, temos inúmeras possibilidades de ser um grande celeiro de aplicações. A questão é entender o nosso papel, o nosso tamanho e construir a agenda que nos interessa.
Por que essa agenda exige uma aproximação maior entre empresas, universidades e governo?
A agenda de inovação é diferente daquela da economia tradicional, em que você montava um negócio e no outro dia já estava tendo receita. Uma empresa de base tecnológica pode levar dois ou três anos para ter a primeira receita. E estamos entrando num cenário de deep tech, de tecnologia mais intensiva e problemas mais complexos.
O empresariado nacional vai precisar aprender a se juntar com a universidade. É uma coisa que ele não sabe fazer, e nem a universidade sabe. Daí a importância de ambientes articuladores como o Porto Digital e os parques tecnológicos, para que essa aproximação aconteça, com a participação do governo, que vai assumir grande parte do risco da inovação. Você não monta estruturas inovadoras sem formação de alto nível. Não surge uma Embraer, não surge um Porto Digital sem a presença da universidade.
Os próprios Estados Unidos estão mudando de rota, com o governo se aproximando das empresas de tecnologia, porque entendem que não vão conseguir competir com a China no longo prazo se mantiverem o modelo atual. O Brasil tem espaço nesse mercado, mas precisa entender seu papel e seu tamanho. A China protege seu mercado, a Europa também está se impondo, e a gente vai precisar se impor. Essa discussão de soberania tem muito a ver com isso.
O Brasil está muito exposto por falta de estratégia digital. Você tem o Banco Central utilizando o ChatGPT como plataforma de dados e 70% da conexão de internet chegando por uma praia em Fortaleza. Veja os problemas de segurança nacional aos quais a gente se expõe por não ter uma estratégia digital.
A busca pela soberania em inteligência artificial deve passar pela criação de um grande modelo brasileiro?
Acho que o governo tem um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PIBIA) muito bem articulado. Mas não acho que o nosso caminho seja criar um grande modelo de linguagem como o ChatGPT. A China já está disponibilizando modelos em código aberto. É possível baixar a base e treinar aqui.
O modelo americano que usamos não é financeiramente sustentável para as empresas. Acho que vamos acabar importando modelos, como o DeepSeek, e usando infraestrutura nacional, por meio das grandes corporações que já estão aqui. A gente pode acabar buscando essa soberania muito mais por uma lógica financeira, pela inviabilidade de pagar determinados produtos.
O que precisamos é aproveitar a oportunidade para montar produtos aqui dentro. Temos problemas de saneamento, de educação, um sistema de saúde gigante. Há muitas oportunidades, mas vamos precisar de uma articulação nacional e de formação em larga escala. O papel da educação é fundamental na economia do conhecimento. É daí que pode surgir a próxima geração de grandes corporações nacionais.
Como você avalia a aposta na atração de data centers para gerar desenvolvimento no país?
Acho que buscar data centers como saída é uma visão de quem não está enxergando lá na frente. Você coloca uma parcela da infraestrutura nacional, de meio ambiente e energia, para trazer algo que quase não gera emprego depois da obra. Um data center é uma usina nuclear, é um equipamento que causa problemas ambientais. Ele gera consumo de energia e nisso temos uma vantagem competitiva devido à nossa energia limpa.
Mas é preciso olhar o que vai acontecer daqui a dez anos, porque você pode ficar com o esqueleto daquela infraestrutura. Essa não pode ser a saída para Pernambuco, por exemplo. Isso é uma miopia. Prefiro aumentar o consumo de um território pelo aumento da renda das pessoas do que pelo consumo de energia elétrica. O Nordeste tem uma vantagem pois tem muito mais vagas em universidades federais de alta qualidade do que o Sudeste. Precisamos aproveitar isso para gerar emprego na economia de serviço. Foi o que Londres, Nova York e Califórnia fizeram.
O setor de saúde do Recife, por exemplo, é uma base econômica incrível, com mais de 80 mil empregos. É esse tipo de saída que temos de buscar. Precisamos manter bem a indústria local, levar inovação para ela e também apostar no setor de serviços. A inovação melhora a indústria e os outros setores.
Que exemplo mostra como o Brasil pode aproveitar o seu tamanho para inovar?
O Pix. É um projeto aparentemente simples, mas veja o impacto que teve na economia popular e na redução dos custos das transações financeiras. Quantas empresas e pessoas estão economizando com ele?
É uma inovação nacional que aproveitou o tamanho do Brasil. O Pix é simples do ponto de vista da usabilidade, não necessariamente da tecnologia. A conveniência e a facilidade para todo mundo fazem dele uma inovação disruptiva. Precisamos buscar outras soluções assim. Temos muita coisa para fazer e não há por que ficar na mão dos outros. Eu aposto muito na capacidade das pessoas, mas precisamos de um projeto de longo prazo.
Como os programas de formação e as residências do Porto Digital contribuem para essa agenda?
Temos um projeto de formação muito vitorioso, o Embarque Digital, e agora projetos de requalificação por meio das nossas academias. Isso tem gerado muito emprego. Nos últimos 12 meses, segundo o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), a base de empregos em tecnologia do Recife cresceu 13%, enquanto o Brasil cresceu 1,7%. São Paulo e Florianópolis recuaram. É fruto de uma estratégia que começou em 2019, 2020.
Estamos trabalhando também com uma residência de empreendedorismo junto à Universidade Federal de Pernambuco e vamos fazer com outras universidades. Agora, tudo para a gente é em escala. Recife tem uma quantidade muito grande de alunos de tecnologia por habitante, e queremos trabalhar essa base também no empreendedorismo.
Tenho a incumbência de trazer, nos próximos anos, cerca de 300 pessoas da universidade para trabalhar dentro do Porto Digital, com bolsas de pesquisa e trabalho. Queremos resolver mais problemas complexos junto com a universidade. O papel do Porto Digital é fazer essa ponte entre academia, empresas e governo.
O NERD é voltado apenas aos empreendedores de tecnologia?
Não. É para todas as empresas, para a área de negócios. O NERD, Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital, é uma estratégia para fortalecer os negócios que já temos, atrair novos e aproximar a economia tradicional.
Há um movimento de internalização das equipes de tecnologia nas empresas. O Bradesco tinha 15 mil pessoas internas de tecnologia e 10 mil externas e está internalizando essas pessoas. Coca-Cola, Baterias Moura, Banco Inter estão no mesmo movimento e todos estão transferindo seus centros para o Porto Digital. Recife é hoje a cidade com maior número de alunos de tecnologia per capita do Brasil.
Nos próximos anos preciso trazer cerca de 300 pessoas da Universidade Federal de Pernambuco para trabalhar dentro do Porto Digital, tanto para pesquisa quanto trabalho, para resolver problemas complexos. Isso fortalece o ambiente de inovação de Recife e o setor privado.
Como você vê os desafios de competitividade das empresas brasileiras?
Com a Reforma Tributária vamos sair de uma agenda de subsídios e disputa de benefícios fiscais para uma competição mais dura. O empresariado brasileiro é resiliente, e temos um mercado muito grande. Mas precisamos nos inserir numa agenda internacional de economia do conhecimento. Isso exige universidades com pesquisa e uma aproximação maior com as empresas.
O mercado de trabalho também ganhou uma dinâmica nova com plataformas como Uber. Uma pessoa que antes aceitava um emprego de baixa qualidade pode migrar para esse trabalho autônomo e ganhar mais. É isso que tem gerado maior dificuldade de contratação de mão de obra, não tem nada a ver com o Bolsa Família. Isso faz todo mundo se mexer e buscar produtividade.
Gosto de citar a chegada da Accenture ao Recife. As empresas locais sentiram, mas ela fez todo mundo subir a barra. A chegada do Bradesco teve o mesmo efeito. As empresas precisaram buscar melhores clientes para pagar salários melhores. É um ciclo positivo. A gente só sai do comodismo quando tem competição.
Precisamos buscar alguns consensos, e um deles é a educação de qualidade. A educação precisa gerar receita nas empresas e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Por que o Porto Digital criou o Rec’n’Play?
Acreditamos muito na mobilização popular. Colocar um jovem dentro do Porto Digital, do CESAR, e fazer com que ele entenda que aquilo pode ser para ele. Você mexe com o imaginário das pessoas e faz com que elas passem a olhar para tecnologia e inovação.
O festival surgiu dessa possibilidade de mobilizar a cidade em torno da inovação. Por isso é gratuito. Recife tem uma capacidade muito grande de mobilizar a rua, e juntamos tecnologia, cultura e arte no Rec’n’Play. O objetivo é criar e fortalecer esse imaginário para a inovação na cidade. O festival cresceu muito, e estamos esperando entre 80 mil e 90 mil inscritos nesta edição.
Quais são as novidades desta edição?
Abrimos a possibilidade de pessoas e entidades proporem atividades, principalmente oficinas. Aumentamos muito essa oferta para que as pessoas saiam de lá tendo aprendido alguma coisa. Você pode passar três horas numa oficina de inteligência artificial e aprender a usar uma ferramenta.
Também estamos trabalhando a memória afetiva do Recife. Todas as atrações culturais são de Pernambuco. Queremos mostrar para quem vem de fora o que produzimos em tecnologia, inovação e cultura. Estamos esperando pelo menos 10 mil pessoas de outros lugares.
Vai ter cinema de rua, com a exibição de O Agente Secreto, e, pela primeira vez, palestras no meio da rua. A abertura será feita pela Déia Freitas, criadora do podcast Não Inviabilize, na Rua da Moeda. São formas de trabalhar elementos da cultura pernambucana e da memória afetiva da cidade.
Quais são os principais planos do Porto Digital para 2027?
Até o final de 2027, queremos abrir o hub de Petrolina. Será um espaço de 3 mil metros quadrados, na beira do rio, em parceria com o governo. A obra já começou.
Também queremos fortalecer o NERD e os capítulos do Rec’n’Play, com eventos setoriais focados em negócios. Estamos trabalhando com inteligência artificial e saúde, em encontros para cerca de duas mil pessoas. Já temos um capítulo de energia com a Baterias Moura e vamos fazer outro de saúde com o Hospital Português.
Vamos fortalecer também o projeto de internacionalização em Portugal e o trabalho em Caruaru. Mas, se você me perguntar qual é a principal frente, é a área de negócios. Queremos trazer a economia tradicional para mais perto e construir uma agenda conjunta de inovação.
Acredito muito no potencial do empreendedorismo nacional. Temos um empresariado resiliente e precisamos juntar essas agendas, entender o nosso tamanho e o nosso papel no mundo. Temos condições de fazer projetos muito mais ousados.
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