Mercado

“A eleição presidencial será definida nos últimos dias, por uma margem bem estreita de votos”

Lucas de Aragão, analista político

A pouco menos de três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais, o Brasil vive novamente uma disputa polarizada entre direita e esquerda, enquanto denúncias e controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) dominam o noticiário. Para o analista político e sócio-diretor da Arko Advice, Lucas de Aragão, a insatisfação com a economia impediu Lula de se consolidar como favorito claro à reeleição. Sua expectativa é de uma disputa que permanecerá aberta até os últimos dias e será decidida por uma margem estreita de votos.

Nessa entrevista à [EXP], Aragão avalia os impactos da eleição na economia do país e ressalta que, embora uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro possa encontrar uma reação inicial mais favorável do mercado, qualquer vencedor enfrentará pressão fiscal, crédito caro e dificuldades de governabilidade. O analista político defende também uma diplomacia voltada a ampliar mercados e atrair investimentos, especialmente em inteligência artificial, minerais críticos e data centers. A entrega de resultados à população, em sua avaliação, é fundamental para reduzir a tensão política. “Nada machuca mais a polarização do que um bom governo”, afirma.

[EXP] Qual sua análise da disputa presidencial deste ano? Ainda há espaço para uma terceira via crescer?

[Lucas de Aragão] A eleição presidencial está com o voto muito calcificado. Temos eleitores com o voto definido há muito tempo, com pouco espaço para o crescimento de uma terceira via. Vimos, ao longo do ciclo, empolgação com alguns nomes da terceira via, como Renan Santos ou Augusto Cury. Mas a resiliência de Lula e Flávio Bolsonaro em relação à sua base eleitoral de sustentação se mantém, mesmo após muitos escândalos e notícias negativas sobre ambos. A rejeição e o medo da vitória do oponente retroalimenta a candidatura deles, fazendo com que uma terceira via seja incapaz de gerar empolgação. Ela nasce muitas vezes do voto útil, a partir da desidratação de um dos candidatos.

[EXP] Podemos dizer que já há um favorito entre os dois candidatos que lideram as pesquisas?

[Lucas] Essa é uma eleição marcada por escândalos, vazamentos, pela judicialização da política, por casos de corrupção, acusações. Quem chegar na reta final com menos a se explicar tem uma sensação de uma possibilidade maior de vitória. O favoritismo é um pêndulo que ora aponta um pouco mais para um lado, ora para outro. Ao longo do ciclo eleitoral esse pêndulo apontou majoritariamente em direção ao Lula, mas no momento a sensação térmica da eleição aponta mais para o Flávio, mas isso pode mudar a partir de novos eventos. Essa eleição é ancorada em dois grandes temas. Um mais estrutural, que é a economia, e outro mais do momento.

Inflação, custo de vida alto, endividamento e crédito caro pressionaram famílias e empresários. Nos últimos 12 meses, Lula adotou medidas de estímulo para os mais pobres e a classe média, mas não conseguiu mudar o humor em relação à economia. As pesquisas mostram falta de otimismo, e a situação econômica impediu o presidente de se tornar um favorito claro. Neste momento, os maiores cabos eleitorais são a Polícia Federal e o STF. Acho que a disputa será decidida nos últimos dias, pela sensação do momento e por uma margem estreita, como em 2022. A eleição está em aberto e qualquer favoritismo seguirá instável.

[EXP] Que fatores podem influenciar essa balança?

[Lucas] Dependendo dos fatos, se a eleição fosse amanhã, a gente teria claramente um momento melhor para o Flávio. Mas ainda assim dentro de uma margem muito reduzida, onde a gente tem que levar em consideração muitos pontos, como o voto envergonhado de ambos os lados, a abstenção. A abstenção historicamente é ruim para o PT. Ela tende a ser maior em estados com faixas de renda menores, que são grupos demográficos que votam no presidente Lula, ou em áreas rurais, distantes, que também tendem a votar mais no PT. É muito sensível o que pode acontecer.

[EXP] Qual sua análise sobre o momento atual da crise no judiciário? Quais seriam as possíveis soluções?

[Lucas] Não há uma receita de bolo. O Brasil tem mecanismos para lidar com problemas políticos, da pressão da sociedade sobre políticas públicas ao impeachment de presidentes. Mas o Judiciário é a última instância, quem tem o direito de errar por último. Quando o próprio STF enfrenta uma crise de legitimidade, credibilidade e transparência, você fica sem ter a quem recorrer e sem consenso sobre uma saída. Já não vejo, na imprensa, no mundo político e na sociedade civil, o mesmo conforto para defender o Supremo e Alexandre de Moraes. Alguma resposta vai ter de ser dada.

A saída passa por uma autocontenção negociada entre os próprios ministros ou por uma pressão social capaz de provocar mudanças, como o fim de decisões monocráticas, mandatos ou até impeachment. Nunca houve impeachment de um ministro do STF, e ainda há a dúvida sobre como o próprio tribunal reagiria. É muito ruim para o país ter sua última instância de poder desacreditada e envolvida na disputa eleitoral.

[EXP] O mercado prevê um cenário econômico desafiador em 2027. Isso muda se o candidato de direita ou de esquerda vencerem as eleições?

[Lucas] Vai ser um ano difícil. O empresário já vem enfrentando crédito caro, e a economia cresceu muito apoiada no consumo. Só que, quando chega o endividamento, esse consumo acaba rápido. Num mês a pessoa compra, no outro já não consegue mais comprar. Não há uma cultura de poupança e de investimento no mercado de capitais, o que deixa as empresas muito à mercê dos ciclos dos investidores e da situação política. É bom ter um Banco Central independente e ele vai continuar no seu papel de proteger o país da inflação. Quem ganhar terá de melhorar a trajetória da dívida e a qualidade do gasto para criar condições de juros menores e crédito mais barato.

Uma eventual vitória do Flávio tende a encontrar mais boa vontade do mercado no momento inicial. A indicação de um ministro da Fazenda bem recebido pode gerar otimismo e dar uma lua de mel para tomar as primeiras medidas. É uma decolagem mais tranquila, baseada em expectativa. Já Lula, num governo de continuidade e com o mercado mais reticente, precisaria mostrar atos concretos desde o início. Vejo um governo Flávio podendo fazer um ajuste fiscal mais forte por convicção, enquanto o PT tenderia a um ajuste mais pontual, por pressão, testando a reação do mercado. Nem toda política pública é feita por convencimento. Algumas são feitas por pressão e sobrevivência.

Mas essa leitura é de curto prazo. Quando atingir a altitude de cruzeiro, qualquer governo terá de enfrentar os desafios estruturais do Brasil. Ambos precisarão de uma agenda contínua de melhora do gasto público, transparência e relação com o Legislativo e o Judiciário. O custo Brasil continua alto, e muitos setores pressionam pela manutenção de subsídios e benefícios tributários. A avaliação das políticas públicas muitas vezes esbarra nesses interesses, em vez de olhar para os resultados. A polarização também aumenta a tentação de medidas populistas para garantir popularidade. Um governo pode ter mais paz no começo pela expectativa, mas essas dificuldades não desaparecem com a vitória de um ou de outro.

[EXP] Como o contexto geopolítico influencia o cenário eleitoral brasileiro?

[Lucas] O Brasil tem de resolver a discussão das tarifas com os Estados Unidos e buscar acordos bilaterais num mundo cada vez mais fechado. Somos um país vendedor. Vendemos commodities: energia, comida, soja, carne, precisamos ampliar esses mercados. Nossa diplomacia tem de se concentrar em vender o que temos e atrair investimento, em vez de tentar resolver os problemas do mundo. A gente sempre soube conversar com Washington e Pequim preservando o interesse brasileiro. Precisamos usar essa capacidade e despolitizar a política externa, sem ficar fazendo julgamento sobre gostar ou não dos governantes com quem negociamos.

Eu vejo uma oportunidade nesse ciclo de investimentos em inteligência artificial, minerais críticos e data centers, mesmo com as incertezas. O Brasil pode não ter o software da IA, mas tem os insumos, com reservas importantes de minerais como o nióbio. Para data centers, talvez não tenhamos o clima ideal, mas temos espaço físico, água e capacidade de ampliar a geração de energia eólica e solar. Precisamos usar essas condições para atrair investidores e participar estrategicamente desse movimento. Política externa é uma política pública como qualquer outra. No final do dia, tem de melhorar a vida do brasileiro. E, para mim, a resposta é quase puramente econômica, vender nossos produtos, trazer investimentos e fazer disso um motor de crescimento.

[EXP] A polarização não é uma característica exclusivamente brasileira, mas um fenômeno global. Como você vê esse fenômeno? Como quebrar essa polarização extrema?

[Lucas] Eu acho que a polarização tem pontos positivos. Ela obriga o governante a se posicionar e ajuda o eleitor a saber quem defende uma economia mais aberta ou mais fechada, por exemplo. O problema é o excesso, quando um lado se torna automaticamente contrário ao que o outro propõe. Isso engessa o debate e dificulta o consenso. A paralisia acaba sendo confortável para os dois. Um comemora ter barrado a proposta, o outro se vitimiza porque não conseguiu aprová-la. E ambos seguem falando só com a própria base e culpando o adversário.

Agora, eu acho que nada machuca mais a polarização do que um bom governo. Quando a pessoa se sente segura, consegue pagar as contas e percebe uma melhora na economia, perde um pouco o interesse de ficar pensando nessa disputa. Nos últimos dois ciclos de quatro anos, Lula e Bolsonaro ficaram presos às próprias bases e ancorados na rejeição ao outro, sem produzir uma sensação de bom governo para a maioria da população. Crises externas acontecem, e todo governo precisa lidar com o imponderável. Entregar resultados e gerar uma sensação térmica positiva no país pode enfraquecer essa polarização, que também se alimenta do conforto das lideranças em não precisar conversar com quem pensa diferente.

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