“A IA não nos transforma. Ela expõe formas ultrapassadas de pensar”, diz Ian Beacraft

Monica Miglio Pedrosa
“Com IA, tudo está mudando, mas, ao mesmo tempo, nada mudou de verdade nas empresas”. Foi com essa provocação que Ian Beacraft, CEO da Signal and Cipher, abriu a palestra de encerramento do segundo dia do São Paulo Innovation Week. Ele afirmou que a maioria das empresas ainda usam a inteligência artificial para continuar operando da mesma forma, apenas com processos mais rápidos, mais baratos e, em alguns casos, mais eficientes.
É aí que está o grande equívoco, em sua opinião. Ao tratar a tecnologia apenas como uma ferramenta de produtividade, as organizações podem até ganhar velocidade na execução de tarefas, mas não transformam a lógica do trabalho. Existe uma grande diferença, segundo ele, entre ter agentes de IA rodando na empresa e usar os agentes para transformar a forma como o trabalho realmente acontece dentro da organização.
Isso porque, para chegar a esse segundo estágio, é preciso revisar estruturas que durante décadas foram tratadas como naturais nas empresas, de departamentos e descrições de cargos até fluxos de aprovação, hierarquias e modelos de tomada de decisão. “A IA não nos transforma. Ela expõe formas ultrapassadas de pensar”, afirmou, dizendo que a tecnologia pode se tornar um espelho e revelar que as empresas foram desenhadas seguindo as limitações humanas, como o número de horas por dia que conseguimos trabalhar e quanta complexidade conseguimos administrar.
Isso significa, por exemplo, que aprovações hierárquicas foram criadas para reduzir riscos e controlar erros. Os fluxos lineares de trabalho existiam porque as pessoas só conseguiam executar uma tarefa por vez. Com a IA, essa lógica pode mudar completamente.
Ele trouxe um exemplo relacionado à inovação de produto. “Criar um protótipo custa menos do que a reunião para planejá-lo”, disse, sugerindo que, em vez de investir em longos ciclos de planejamento, validação e aprovação para lançar uma novidade ao mercado, as empresas podem desenvolver dois ou três protótipos rapidamente com IA e colocá-los em teste real.
Beacraft apresentou então uma mudança de paradigma que vai definir o futuro do trabalho. Ele a chama de transição da execução para o planejamento do trabalho. Sua empresa, a Signal and Cipher, decidiu testar então até onde poderia ir uma organização operada apenas por agentes de IA.
Durante algumas semanas, a equipe criou uma estrutura autônoma, sem humanos executando as tarefas, para desenvolver um bot. O sistema consumiu 6,5 bilhões de tokens em apenas dois dias e meio, com dezenas de agentes rodando continuamente, falhando, aprendendo com os próprios erros e tentando novamente.
Para Beacraft, o mais importante do experimento não foi a automação em si, mas a capacidade do sistema de aprender com os próprios erros e incorporar essas falhas como novos fluxos e regras operacionais. “Na maioria das organizações, aprendemos lições, mas nossa memória é curta. Frequentemente cometemos os mesmos erros repetidas vezes”, afirmou. Já em um ambiente agêntico, o sistema não apenas se lembra do erro, ele atualiza a si próprio.
Apesar do avanço da tecnologia, Beacraft defendeu que organizações continuam sendo, essencialmente, duas coisas ao mesmo tempo: sistemas de coordenação de trabalho e sistemas culturais. Enquanto a IA pode assumir parte da coordenação operacional, cultura, propósito, visão e significado continuam sendo elementos essencialmente humanos. Por isso ele critica empresas que enxergam a IA apenas como uma forma de substituir pessoas ou reduzir custos.
Ian encerrou sua apresentação com um chamado à liderança. Nos próximos anos, os profissionais e as empresas precisarão ser capazes de questionar modelos antigos, testar novas formas de trabalhar e deixar de responder às perguntas com estruturas criadas no modelo antigo. “Esta não é apenas uma revolução tecnológica. É um teste da nossa liderança.”
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