Aperte o F5

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A transformação da Microsoft e a busca de um futuro melhor para todos

Publicado em 15 de agosto de 2020

Ideias centrais:

1 A Microsoft foi além de produtos que a tornaram uma das empresas mais valiosas para encontrar oportunidades na plataforma de computação em nuvem, a Azure, e nos serviços na nuvem, como o 0365, a versão online do pacote de produtividade, o Office.

2 A alma da Microsoft impulsiona a empresa a empoderar as pessoas. Não só as pessoas individualmente, mas também as instituições que elas criam, como escolas, hospitais, órgãos públicos, organizações sem fins lucrativos.

3 A empresa busca encontrar maneiras inteligentes de firmar parcerias, para que seus produtos possam ser disponibilizados nas populares plataformas dos outros, a exemplo da ferramenta de busca Bing nos tablets Amazon Fire.

4 A Microsoft está investindo para liderar três importantes tecnologias que definirão seu próprio setor e também outros no futuro: realidade mista, inteligência artificial e computação quântica.

5 A educação e a inovação, aplicadas em toda a economia e em especial em setores, em que o país ou região tem vantagem competitiva, e multiplicadas pelo uso intensivo da tecnologia, obtêm com o tempo crescimento econômico e produtividade.

Sobre o autor:

Satya Nadella é CEO da Microsoft, o terceiro ao longo de 40 anos da empresa. Entrou na Microsoft em 1992. É um humanista e um entusiasta da tecnologia. Nadella acredita que sua missão e a de sua empresa é empoderar as pessoas e as organizações em vista de um planeta melhor.

Greg Shaw é coautor e diretor sênior da Microsoft. Assessora Bill Gates em sua fundação filantrópica.

Jill Tracie Nichols é coautora e CEO de Tracie Group.

Prefácio

Bill Gates, fundador e primeiro CEO da Microsoft, fez apreciações sobre este livro, algumas das quais reproduzimos a seguir:

“Não me surpreendi quando, assim que assumiu o cargo de CEO, Satya já começou a deixar sua marca na empresa. Como o título deste livro sugere, ele não se desfez totalmente do passado. Quando você aperta o botão F5 no seu computador, parte da página continua alterada. Mas, sob a liderança de Satya, a Microsoft conseguiu se afastar de uma abordagem centrada no Windows. Ele liderou a adoção de uma nova e ousada missão para a empresa. Satya promove um diálogo constante com clientes, pesquisadores e executivos. E o mais importante, está fazendo grandes apostas em algumas tecnologias importantes, como a inteligência artificial e a computação na nuvem, nas quais a Microsoft vai se diferenciar.”

“Satya traçou um plano para que a humanidade possa se beneficiar, ao máximo, das oportunidades criadas pela tecnologia sem fechar os olhos para as questões mais complexas e difíceis. E ele nos oferece uma fascinante história pessoal, pontuada com mais citações literárias do que você poderia esperar neste tipo de livro, e até algumas lições aprendidas jogando críquete.”

Da Índia aos Estados Unidos

Diz Nadella: este livro é sobre transformação, uma transformação que está se desenrolando dentro de mim e dentro da nossa empresa, impulsionada pela empatia e pelo desejo de empoderar as pessoas. Mas, ainda mais importante, é uma transformação que ocorrerá na vida de todos, à medida que vivemos a onda da tecnologia mais transformadora da história da humanidade, uma onda que incluirá a inteligência artificial, a realidade mista e a computação quântica.

Estamos prestes a ver como pessoas, organizações e sociedades podem e devem se transformar (ou em outras palavras, apertar o F5 ou “atualizar”) em sua busca constante por uma nova energia, novas ideias, relevância e renovação. E veremos como a empatia se tornará cada vez mais valiosa num mundo que será desestabilizado como nunca antes, pela torrente tecnológica que logo varrerá o planeta.

O poeta místico austríaco Rainer Maria Rilke escreveu que o “futuro adentra em nós, para se transformar dentro de nós, muito antes de se concretizar”. Assim como um código elegante de computador para máquinas, a poesia existencial tem o poder de nos iluminar e nos instruir.

Sigamos nas palavras do autor a descrição das partes que compõem o livro: “Nas páginas a seguir, você acompanhará três histórias distintas. Primeiro, a título de prólogo, contarei a história da minha própria transformação, saindo da Índia para meu novo lar nos Estados Unidos, com paradas no interior, no Vale do Silício e na Microsoft, na época a caminho do seu auge.

A segunda parte fala de como apertei o botão F5 na Microsoft, como CEO improvável que foi nomeado sucessor de Bill Gates e Steve Ballmer. A transformação da Microsoft, sob a minha liderança, ainda não está completa, mas posso dizer que me orgulho muito do nosso progresso.

E, no terceiro e último ato, falarei da Quarta Revolução Industrial, em que a inteligência da máquina competirá de igual para igual com a inteligência do ser humano. Vamos explorar algumas questões absolutamente intrigantes: qual será o papel dos seres humanos no futuro? Será que a desigualdade vai ser eliminada ou vai se agravar ainda mais? Como os governos e incorporações internacionais podem ajudar?” 

Aprendendo a liderar

Para Nadella, o críquete é uma obsessão. “Não importa onde eu esteja, esse belo jogo está sempre na minha cabeça. Tanto o beisebol como o críquete são esportes infinitamente complexos, mas basta dizer que o time que conseguir mais corridas vence o jogo. Não espere que eu consiga evitar analogias entre o críquete e os negócios neste livro”.

Como se pode imaginar, são incontáveis as lições e os princípios que podemos aprender com o críquete, mas a principal é a da liderança. Diz Nadella: “Olhando para trás agora, lembro-me de uma partida, na qual os adversários estavam fazendo a festa com as minhas bolas.

De fato, o único efeito das minhas bolas era a alegria dos oponentes. Foi quando o capitão do time mostrou a verdadeira liderança. Quando a minha rodada chegou ao fim (ou seja, depois que lancei as seis bolas), ele entrou no meu lugar, apesar de ser melhor rebatendo do que arremessando. Rapidamente, ele eliminou a wicket e o batsman estava fora.

Em vista de seu sucesso inicial, ele poderia muito bem ter ficado na posição. Mas ele imediatamente me devolveu a bola e eu eliminei nada menos do que sete wickets. Por que ele fez isso? Supus que a ideia era me ajudar a recuperar a confiança. Estávamos no começo da temporada e ele precisava que eu jogasse bem o ano todo. Ele era um líder de muita empatia e sabia que, para mim, seria difícil recuperar a confiança perdida.

“Essa é essência de uma boa liderança. O bom líder é aquele que sabe trazer à tona o melhor de cada membro da equipe”.

Quem liderava a revolução da computação da nuvem era a Amazon. E Jeff Bezos, CEO da Amazon, dizia em sua carta anual aos acionistas, em abril de 2011: “Os avanços no gerenciamento de dados desenvolvidos pelos engenheiros da Amazon foram o ponto de partida para as arquiteturas que fundamentam os serviços de gerenciamento de dados e armazenamento na nuvem oferecidos pela Amazom Web Services (AWS)”.

Todo mundo sabia que a Microsoft tinha perdido o trem da revolução dos dispositivos móveis e estávamos decididos a não deixar a revolução da nuvem passar. Eu sentiria falta, diz Nardella, de trabalhar com meus colegas do Bing, mas estava empolgado para liderar o que acreditava ser a maior transformação da Microsoft na presente geração: a nossa jornada para a nuvem.

Eu tinha passado três anos, de 2008 a 2011, aprendendo sobre a nuvem (testando sua infraestrutura, operações e fatores econômicos), mas como usuário, não como uma empresa da área. Essa experiência me possibilitaria entrar com tudo no meu novo cargo.

Liderar significa tomar decisões e empolgar a equipe para executá-las. Uma lição que aprendi com a experiência do meu pai como alto funcionário do governo indiano foi que poucas tarefas são mais difíceis do que construir uma instituição duradoura. A escolha de liderar pelo consenso e não por decreto é uma escolha falsa. Toda instituição resulta de uma visão clara e de uma cultura que se empenha para estimular o progresso tanto de cima para baixo como de baixo para cima.

Hoje, a Microsoft está a caminho de ter seu próprio negócio na nuvem, com um valor da ordem de 20 bilhões de dólares. Ela foi além dos pacotes de produtos que fizeram da Microsoft uma das empresas mais valiosas do mundo para encontrar oportunidades ainda mais interessantes na plataforma de computação em nuvem, no Azure, e nos serviços na nuvem, como o O365, a versão online do pacote de produtividade extremamente popular, o Office.

A Microsoft está investindo para melhorar esses novos produtos, reforçando a competência como prestadores de serviços, abarcando o Linux e outras iniciativas de código aberto, ao mesmo tempo em que mantém o foco nos clientes. 

Uma nova missão e um novo ímpeto

Nosso autor e CEO diz que, juntos, Bill Gates e Steve Ballmer forjaram uma das parcerias mais emblemáticas da história, que faria da Microsoft a empresa mais valiosa do planeta. Não só criaram produtos espetaculares, como educaram centenas de executivos que hoje lideram empresas multinacionais ao redor do mundo, Nadella inclusive.

Eles foram atribuindo ao novo CEO responsabilidades cada vez maiores ao longo dos anos e lhe ensinaram que o software da empresa tem o poder de transformar não só a vida dos fanáticos por computador, como também sociedades e economias inteiras.

Apesar de ser um insider consumado, confessa Nadella, eu estava sendo instruído a apertar o F5 e carregar uma nova página, a próxima página da história da Microsoft. E foi por isso que, no meu memorando ao Conselho, defendi uma “renovação da Microsoft”. Seria necessário promover uma computação mais amplamente disseminada, bem como a inteligência ambiental.

Em outras palavras, os seres humanos vão interagir com experiências que passarão a incluir uma profusão de dispositivos e sentidos.

Todas essas experiências serão possibilitadas pela inteligência na nuvem e também por onde os dados são gerados e onde ocorrem as interações com as pessoas. No entanto, também escrevi que essa renovação só seria possível se priorizássemos a cultura da organização e reconquistássemos a confiança tanto dentro como fora da empresa.

A Microsoft precisava, enfim, de recuperar sua alma. Pensando bem, interroga Nadella, qual seria a alma de uma empresa? Não me refiro à alma no sentido religioso, mas ao que nos é mais natural. A nossa voz interior. O que nos motiva e nos mostra onde aplicar nossos talentos. Aquela sensibilidade especial que só nós temos.

A alma da Microsoft impulsiona a empresa a empoderar as pessoas. Não só as pessoas individualmente, mas também as instituições que elas criam, instituições como escolas, hospitais, empresas, órgãos públicos, organizações sem fins lucrativos.

Nesse sentido, devemos reinventar a produtividade e os processos de negócios. Precisamos ir alem de apenas criar ferramentas de produtividade individual e evoluirmos para criar uma plataforma de computação inteligente com base em quatro princípios: colaboração, mobilidade, um bom senso de informação, confiança. Nadella coloca como alavanca da nova empreitada a empatia: “Embarquei nessa jornada de desenvolver mais empatia. E minha vida hoje faz mais sentido em virtude dessa nova capacidade de pegar as novas ideias e pegar a minha empatia pelas pessoas”. 

Renascimento cultural

Nossa cultura até então, diz Nadella, tinha sido bastante inflexível. Todos os funcionários precisavam provar a todos que sabiam tudo e eram as pessoas mais espertas da sala. O mais importante era entregar o trabalho no prazo e atingir as metas quantitativas. As reuniões eram formais. A hierarquia dominava a organização e a espontaneidade e a criatividade estavam sendo prejudicadas.

A mudança cultural que eu vislumbrava tinha raízes na Microsoft da época em que eu havia entrado na empresa. A visão do novo CEO, Nadella, girava em torno de exercitar todos os dias a mentalidade de crescimento de três modos distintos:

Para começar, precisávamos ser obcecados com nossos clientes.Tínhamos de colocar no centro de tudo a curiosidade e o desejo de satisfazer as necessidades não verbalizadas e não satisfeitas dos clientes, oferecendo a eles uma excelente tecnologia. Usamos a mente de iniciante para conhecer nossos clientes e seus negócios e lhes apresentar soluções destinadas a satisfazer suas necessidades.

Precisamos ser insaciáveis no nosso desejo de sair pelo mundo para aprender e levar esse aprendizado à Microsoft, enquanto inovamos para surpreender e encantar nossos usuários.

Em segundo lugar, atingimos nosso máximo potencial quando buscamos ativamente a diversidade e a inclusão. Se quisermos ajudar o planeta, precisamos refletir o planeta. A nossa força de trabalho deve continuar se tornando cada vez mais diversificada, e precisamos incluir uma ampla gama de opiniões e pontos de vista em nossa forma de pensar e em nossos processos decisórios. Em cada reunião não se limite a falar. Dê espaço para os outros exporem suas ideias.

Finalmente, fazemos parte de uma única empresa, uma única Microsoft, e não uma confederação de feudos.

A inovação e a concorrência não respeitam os nossos silos, as nossas fronteiras organizacionais, por isso precisamos aprender a superar essas barreiras.

Somos uma família de pessoas unidas por uma única missão em comum. Busquei ativamente oportunidades de mudar nossas práticas e nossos comportamentos a fim de concretizar e esclarecer a mentalidade de crescimento. 

Amigos ou inimigos?

Nas palavras do CEO da Microsoft: “Uma das minhas prioridades é garantir que nossos clientes, que totalizam mais de 1 bilhão de usuários, não importa qual celular ou plataforma optem por usar, tenham suas necessidades satisfeitas para que possamos continuar a crescer.

Para atingir esse objetivo, às vezes temos de fazer as pazes com antigos rivais, buscar novas e surpreendentes parcerias e retomar relacionamentos de longa data. Com os anos, amadurecemos a ponto de nos tornar obcecados com as necessidades dos clientes, e aprender a coexistir e competir ao mesmo tempo”.

Colaboração entre Microsoft e a Apple, entre a Microsoft e a Linux e outras funcionam com vantagem para todas as partes envolvidas. Parcerias como essas podem ser firmadas, às vezes com relutância, com concorrentes em categorias específicas de produtos ou serviços.

Competimos vigorosamente com a Amazon no mercado da nuvem e ninguém duvida disso. Mas o que impede a Microsoft e a Amazon de unir forças em outras áreas? Por exemplo, o Bing é a ferramenta de busca dos tablets Amazon Fire.

É preciso encarar a realidade, conforme Nadella. Quando temos um excelente produto como o Bing, o Office ou o Cortana, mas outra empresa cravou um robusto funcionamento no mercado com seu serviço ou dispositivo, não podemos nos limitar a ficar nos bastidores, só observando a movimentação.

Precisamos encontrar maneiras inteligentes de firmar parcerias para que nossos produtos possam ser disponibilizados nas populares plataformas dos outros.

“A nossa ênfase nas parcerias estratégicas não é nova”, diz Nadella. Na verdade, não passa de outro exemplo de como estamos redescobrindo a alma da Microsoft. Pensando nos nossos fundadores, percebemos que Paul Allen viu com clareza o poder dos novos computadores e que Bill Gates viu o poder do software. Juntos, eles conseguiram fazer maravilhas e, o que foi ainda mais importante, democratizaram a computação. Às vezes, eu me pergunto: se Bill e Paul não tivessem tido sucesso com a Microsoft, como seria o mundo hoje?

Quando me tornei CEO, percebi que tínhamos esquecido que nosso talento para firmar parcerias era vital para nosso sucesso. É o tipo de coisa que pode acontecer com qualquer grande empresa. O sucesso pode levar as pessoas a desaprender os hábitos que lhes possibilitaram esse mesmo sucesso. Sabíamos que precisávamos reaprender a firmar parcerias. Precisávamos ver nosso setor com novos olhos e encontrar maneiras de agregar valor para nossos clientes, independentemente de eles usarem um dispositivo da Apple, uma plataforma Linux ou um produto Adobe.

Conclusão: “Aprendemos muito com essas experiências [Samsung, Yahoo e outras], que nos ajudaram a renovar nosso espírito de parceria. A Microsoft já tem o maior ecossistema de parceiros no mundo. Centenas de milhares de empresas ao redor do mundo criam e vendem soluções para nossos produtos e serviços. Além disso, milhões de clientes de todos os setores desenvolvem seus negócios e organizações usando as tecnologias da Microsoft. Meu principal objetivo é ser o maior provedor de plataforma para sustentar toda essa energia empreendedora, com um foco incansável na criação de oportunidades econômicas para nossos clientes”.

Além da nuvem

Nadella descreve o rol de conquistas já feitas e as outras a serem feitas: “Fomos além de PCs e servidores para buscar o sucesso na nuvem. E também precisamos ir além da nuvem. As tendências da tecnologia podem ser enganosas. Dizem que tendemos a superestimar o que podemos realizar no curto prazo e a subestimar o que podemos realizar no longo prazo.

No entanto, estamos investindo para liderar três importantes tecnologias que definirão o nosso setor e outros setores no futuro: a realidade mista, a inteligência artificial e a computação quântica.

Essas tecnologias inevitavelmente levarão a mudanças gigantescas na nossa economia e na sociedade. Nos três últimos capítulos deste livro, vou abordar os valores, as questões éticas, as políticas e os fatores econômicos que precisamos levar em conta para nos preparar para essa próxima onda”.

Para evitar ficar presa no dilema do inovador (e para evitar gastar toda a energia apagando os incêndios de hoje e voltar a pensar também no amanhã), a Microsoft decidiu rever a estratégia de investimento, considerando três frentes de crescimento: em primeiro lugar, trabalhar no crescimento dos negócios centrais; em segundo lugar, incubar novas ideias e produtos para o futuro; e, em terceiro lugar, investir em avanços revolucionários no longo prazo.

Na terceira frente especificamente, a Microsoft já está focada em áreas que, apenas alguns anos atrás, pareciam distantes, mas que hoje ocupam as fronteiras da inovação: realidade mista, inteligência artificial e computação quântica. A realidade mista será uma ferramenta essencial na medicina, na educação e nos processos de fabricação.

A inteligência artificial ajudará a prever crises, como a epidemia de zika, e nos ajudará a focar o nosso tempo e a nossa atenção no que mais importa.

A computação quântica nos dará o poder computacional necessário para curar o câncer e resolver de vez o problema do aquecimento global.

Já a HoloLens [dispositivo de realidade virtual] dá acesso a uma realidade mista, na qual os usuários podem navegar tanto em sua localização atual como num ambiente remoto. “Quando tive a chance de ver o que a HoloLens era capaz de fazer, não tive dúvidas”, diz Nadella.

“Embora a HoloLens tenha aplicações claras em videogames, logo compreendi o potencial de tecnologia em salas de aula, hospitais e, sim, até na exploração espacial. Na verdade, a NASA foi uma das primeiras organizações a perceber o valor da HoloLens, usando uma versão inicial da tecnologia para os astronautas na Terra poderem colaborar com astronautas no espaço”.

A convergência de três avanços revolucionários (big data, um enorme poder de computação e algoritmos sofisticados) está acelerando a transformação da inteligência artificial, que deixa de ser mera ficção científica e torna-se realidade.

Em velocidades sempre crescentes, dados são coletados e disponibilizados graças ao aumento exponencial do número de câmeras e sensores no nosso dia-a-dia.

A inteligência artificial precisa de dados para aprender. A nuvem disponibilizou a todos um enorme poder de computação, e algoritmos complexos agora podem ser escritos para explorar montanhas de dados em busca de insights e informações.

Não é fácil definir a computação quântica. Nascida na década de 1980, ela alavanca determinadas propriedades físicas quânticas de átomos ou núcleos que lhe possibilitam trabalhar juntos como bits quânticos ou qubits, para atuar como o processador e a memória de um computador. Ao interagir uns com os outros isolados do nosso ambiente, os qubits são capazes de fazer determinados cálculos com muita mais rapidez do que os computadores tradicionais.

As instituições que estão competindo para mobilizar a computação quântica são a Microsoft, a Intel, o Google e a IBM, bem como startups como a D-Wave e até governos que contam com enormes verbas para a defesa nacional.

A Microsoft concentra suas pesquisas de computação quântica na Estação Q, da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, e foi concebida por Michael Friedman, agraciado com a Medalha Fields de melhor matemático do mundo em 1986. A Estação Q desenvolveu a computação quântica topológica, que reduz a sobrecarga de recursos quânticos em relação a outras abordagens e por isso é mais impermeável ao ruído.

A equação da confiança

O mundo precisa de uma espécie de Convenção de Genebra Digital, um acordo multilateral mais amplo, instaurando normas de segurança cibernética como regras globais. Assim como os governos do mundo se reuniram em 1949 para adotar a Quarta Convenção de Genebra e proteger a população civil em tempos de guerra, com esse acordo digital os governos se comprometeriam a adotar normas desenvolvidas para proteger a população civil na internet em tempos de paz.

Uma convenção como essa pode levar os governos a se comprometer a evitar ataques cibernéticos contra o setor privado ou a infraestrutura crucial, ou invasões para roubar propriedade intelectual. E deve exigir que os governos apoiem o setor privado na tarefa de detectar, conter, reagir e se recuperar desses incidentes, além de decretar que os governos informem vulnerabilidades aos fornecedores, em vez de armazenar, vender ou explorar vulnerabilidades.

As revelações de Snowden, conforme Nadella, levaram a imprensa a fazer uma marcação cerrada no nosso campus e por todo o Vale do Silício. Era fundamental esclarecer a história para outros clientes e os parceiros que nos confiavam seus dados. Precisávamos agir (nos tribunais e em outros âmbitos) para defender nossos valores como líderes da economia da informação. E foi isso que buscamos fazer. Brad Smith liderou a iniciativa, trabalhando em estreita colaboração com toda a nossa equipe de liderança sênior.

Expandido ainda mais a ação, a Microsoft firmou uma parceria com a AOL, a Apple, o Facebook, o Google, o LinkedIn, o Twitter e o Yahoo para formar uma aliança batizada com o nome de Reform Government Surveillance [Reforma das Políticas de Vigilância pelo Governo]. Os integrantes da aliança insistiram em restringir a autoridade dos Estados Unidos e de outros governos para coletar informações dos usuários. Exigiram mais supervisão e prestação de contas, defendendo a transparência das exigências de dados por parte do governo e salientando a necessidade de os governos respeitarem o livre fluxo de informação. 

O futuro das pessoas e das máquinas

No futuro, a inteligência artificial será a companheira mais frequente e necessária, ajudando a cuidar das pessoas, diagnosticar doenças, lecionar e dar consultoria. Com efeito, a empresa de pesquisa de mercado Tractica estima que o mercado para esses assistentes digitais virtuais ao redor do mundo chegará a quase 16 bilhões de dólares em 2021, e a maior parte desse crescimento será proveniente dos consumidores finais.

A inteligência artificial será um fracasso, se não conseguir incorporar a inteligência emocional.

A inteligência artificial provou sua força, que afinal deve ser bem dirigida para benefício das pessoas. Em 1996, quando o Deep Blue da IBM demonstrou que um computador poderia vencer um bom jogador humano num jogo de xadrez, a notícia foi alardeada em manchetes mundo afora.

No ano seguinte, o Deep Blue deu um gigantesco passo avante e derrotou o lendário enxadrista russo Garry Kasparov num desafio completo de seis jogos. Em 2011, o Watson da IBM já tinha derrotado dois mestres do programa de perguntas e respostas Jeopardy!. Essas conquistas refletem enormes feitos da ciência e da engenharia, mas o futuro é muito mais promissor do que computadores vencendo pessoas em jogos.

No futuro, pessoas e máquinas trabalharão juntos, não em oposição.

Imagine as possibilidades quando pessoas e máquinas trabalharem juntas para resolver os maiores problemas da humanidade, como doenças, ignorância e pobreza.

Medidas já estão sendo tomadas. Em 2016, com pouco alarde, a Microsoft, a Amazon, o Google, o Facebook e a IBM anunciaram uma parceria, batizada de “Partnership on AI” [Parceria pela Inteligência Artificial], para desenvolver uma inteligência artificial destinada a beneficiar as pessoas e a sociedade em geral.

A ideia é conscientizar a população das possibilidades para enfrentar os desafios de nos beneficiar de oportunidades na área. A pesquisa pessoa x máquina abrange automóveis e medicina, colaboração entre seres humanos e máquina, deslocamento de empregos, entre outros desafios.

Em termos de desenvolvimento de software, a inteligência artificial está se tornando um terceiro sistema de execução, o próximo sistema com base no qual os programadores vão construir e executar aplicativos. O PC foi o primeiro sistema de execução, para o qual a Microsoft desenvolveu aplicativos como o pacote de ferramentas Office (Word, Excel, PowerPoint, entre outros).

Hoje, a Internet apresenta o segundo sistema de execução. No mundo da inteligência artificial e da robótica, ferramentas de produtividade e comunicação serão criadas para uma terceira plataforma completamente nova, que não só administra as informações, como é capaz de aprender com essas informações e interagir com o mundo físico.

Recuperando o crescimento econômico para todos

Diz Nadella; “Na qualidade de líder empresarial e filho de um economista, posso dizer que não tenho como deixar de ser obcecado com essas questões. A economia está crescendo? Não. O mundo está ficando mais justo e igualitário? Não. Precisamos de novos avanços tecnológicos para fazer isso acontecer? Não. As novas tecnologias forçarão algumas pessoas a mudar de emprego? Sim. E como podemos promover crescimento inclusivo? Encontrar a resposta a essa última pergunta talvez seja o desafio mais premente da atualidade”.

Deixando de lado essa métrica rudimentar chamada PIB, há a obrigação moral de continuar inovando, de criar tecnologias para resolver grandes problemas, de promover o bem do planeta, além de fomentar o crescimento econômico.

E como podemos mobilizar a tecnologia para resolver os maiores problemas da sociedade, entre eles a mudança climática, o câncer e o desafio de possibilitar que as pessoas tenham um emprego produtivo, com sentido, capaz de substituir os empregos eliminados pela automação?

Na sua busca por uma resposta, Nadella convidou Diego Comin, um economista de Dartmouth. O professor Comin estudou em profundidade a evolução da difusão tecnológica nos últimos dois séculos em países de todo o mundo. Comin e o economista Bart Hobijn coletaram um conjunto de dados para o estudo Cross-country Historical Adoption of Tecnology, que analisa o tempo que 161 países levaram para adotar 104 tecnologias. Segundo esses autores os países tendem a adotar uma nova tecnologia, cerca de 45 anos após sua invenção.

Com base nessa análise, Comin concorda que as diferenças entre nações ricas e pobres podem ser, em grande parte explicadas, pela rapidez com que adotaram diferentes tecnologias industriais. Mas, segundo ele, também é importante levar em consideração a intensidade com a qual as nações aplicam as novas tecnologias.

Mesmo quando os países demoram a adotar novas tecnologias, é a intensidade da utilização da tecnologia (e não apenas o acesso a ela) que cria oportunidades econômicas. As tecnologias estão ociosas, apenas esperando para ser aplicadas, ou a força de trabalho foi treinada para extrair o máximo de sua produtividade? Uma força de trabalho treinada leva à intensidade da aplicação das tecnologias: “A questão não é só quando essas tecnologias chegam, mas também a intensidade de sua utilização”, conclui Comin.

Todas as regiões, tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, devem aplicar as novas tecnologias para obter vantagens econômicas. Foi o que a China fez com uma política industrial proativa, voltada a estimular o empreendedorismo e a economia na indústria manufatureira e em serviços de internet voltados ao consumidor.

A China usou estrategicamente a cadeia de fornecimento global e seu próprio mercado interno para ampliar sua vantagem comparativa e financiar seu crescimento econômico. A Índia já começou a fazer isso com a criação do novo ecossistema digital conhecido como IndiaStack. A Índia, antes um país pobre em infraestrutura, está avançando a passos largos e se posicionando como líder na tecnologia digital.

A educação e a inovação, aplicadas por toda a economia e especialmente em setores, nos quais o país ou a região tem uma vantagem comparativa, e multiplicadas pelo uso intensivo da tecnologia, obtêm, com o tempo, crescimento econômico e produtividade.

Texto: Rogério H. Jönck

Imagens: Unsplash

Ficha técnica:

Título: Aperte o F5

Título original: Hit Refresh

Autor: Satya Nadella com Greg Shaw e Jill Tracie Nichols

Primeira edição: Editora Benvirá (2018)