Inovação

Aza Raskin usa a IA para ouvir e compreender a natureza

missão [EXP + PROS]

Quando cofundou a Earth Species Project, uma organização sem fins lucrativos dedicada à tradução da comunicação animal, o matemático e físico Aza Raskin tinha como ambição ampliar a compreensão sobre outras espécies. Ele está usando os modelos de linguagem da inteligência artificial usados na tradução automática de idiomas para mapear padrões recorrentes emitidos por animais e conseguir entender o que eles estão expressando por meio dos sons. Raskin acredita que a natureza pode trazer respostas para questões que tiram nosso sono hoje, como a crise climática.

Confira, a seguir, os principais insights de sua palestra no SXSW 2026.

E aí, vai dar mesmo para conversar com meu cachorro?

Falar talvez não seja o caso. Mas entendê-lo pode acontecer muito em breve.

E por que falar não?

Porque a comunicação de outras espécies pode ser muito mais complexa do que imaginamos. Começar a falar antes de entender pode interferir em culturas de animais (e de plantas) inteiras.

Cultura?

Sim. Foi descoberto que as baleias se comunicam por meio de dialetos e sotaques que evoluem há cerca de 34 milhões de anos. “Uma intervenção descuidada poderia alterar tradições que existem muito antes da humanidade”, diz Aza. Pense que nessa comunicação provavelmente existem respostas para questões que tiram nosso sono hoje mesmo.

E o que mais existe nesse mundo que a gente não percebe?

Mais do que imaginamos. Sabia que papagaios e elefantes dão nomes individuais aos seus filhotes? Que chimpanzés buscam estados alterados de consciência? Que golfinhos se reconhecem no espelho e que baleias espalham músicas quase como memes culturais?

Definitivamente não sabia.

“O mundo está cheio de comunicação, sinais, inteligência e significado. O que nos impede de perceber isso é apenas a limitação da nossa visão e interesse”, diz Aza. Inclusive, ele aponta que a comunicação dos animais pode ensinar muito sobre cooperação para resolvermos problemas como a crise climática.

E como ele tem conseguido fazer todas essas pesquisas?

Com um uso muito interessante de IA. Ele diz que a tecnologia consegue traduzir sistemas diferentes sem precisar entender o significado das coisas, transformando línguas, imagens ou até sinais do cérebro em mapas de relações. Quando as estruturas são parecidas, é possível traduzi-las e isso funciona com diferentes espécies. “Tudo o que puder ser traduzido, será traduzido nos próximos anos”, diz ele.

Isso não pode dar problema?

Pode sim. O risco dessa tecnologia vem de dois lados: maus atores e maus incentivos. Ela pode ser usada por indústrias para explorarem ainda mais os animais. Por isso, antes que esses usos apareçam, é preciso estabelecer regras, limites e regulações. Entender outras espécies pode ser uma das descobertas mais fascinantes da ciência, mas, como dizia o poeta, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

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