Cannabis Made in California

Cannabis Made in California

Um mergulho na Costa Oeste para entender porque a região desponta como a maior produtora legal de maconha dos EUA

Publicado em 26 de fevereiro de 2020

>> Veja também no EXP TV: empresas Knox Medical e GreenCare iniciam venda de medicamentos à base de cannabis no Brasil.

No século 19, a Califórnia viveu seu sonho dourado – a descoberta de minas de ouro na região atraiu milhares de pessoas para a extração mineral. Mais de 150 anos depois, o sonho ganhou nova cor. Desde 1996, o estado mais rico e populoso dos Estados Unidos abre espaço para a indústria medicinal e recreativa da Cannabis. E como epicentro cultural da planta no país, a Califórnia parece ter elegido um pacato condado à beira mar como hub de produção da maconha. 

A ensolarada cidade de Santa Barbara e seus arredores despontam como a “Weedland”, liderando em 2019 a concessão de licenças temporárias para o cultivo da planta no estado. A reportagem de Experience Club foi até o condado, a apenas 150km de Los Angeles, para entender essa transformação social e econômica na região.

Após 20 anos de uso medicinal, em 2016 o eleitorado da Califórnia aprovou a Proposição 64 (formalmente conhecida “The Adult Use of Marijuana Act”), que legaliza o uso, cultivo e a comercialização recreativa da cannabis no estado. A medida abriu caminho para que condados, como o de Santa Barbara, iniciassem uma maratona de adaptações e arcabouços legais para expandir a produção da planta (e os lucros) na região.

Santa Barbara recebeu mais pedidos de plantação de Cannabis do que Humboldt, centro histórico de produção ilegal da Califórnia 

Segundo dados do Santa Barbara County, 35% das licenças de cultivo temporárias concedidas em 2019 na Califórnia estão localizadas no condado, que tem somente 7,8 km2 de área continental e representa menos de 2% da área do estado. Conhecido pelos vinhedos e como refúgio de endinheirados de Los Angeles, o condado nunca foi famoso pela maconha, mas passa por uma mudança profunda.

No sul de Santa Barbara County, um pequeno balneário chamado Carpinteria concentra boa parte das fazendas de produção de cannabis da região. As possibilidades de crescimento com a nova cultura estão atraindo produtores agrícolas que estavam enfrentando dificuldade em seus mercados de origem. 

A Autumn Brands, importante produtora da área, são um bom exemplo. Os proprietários migraram do cultivo de flores para a produção de cannabis antes da legalização recreativa.

“A competição no mercado de flores era tão grande que decidimos migrar para o cultivo de marijuana”, disse Autumn Shelton, CEO da empresa. A produção está a todo vapor e com planos de expansão. Mais:

“Nós temos 3 estufas em uma área de 16 mil m2, produzindo até 200 kg de cannabis por semana. Estamos construindo outra estufa de 6 mil m² e alugamos espaço para um outro produtor”, disse.

INVASÃO VERDE

O rápido crescimento da produção de cannabis em Carpinteria parece ser fruto de uma combinação entre o clima seco, o intenso lobby entre empresários e a administração local, além da localização geográfica favorável. “A Califórnia é um mercado dominante no país. Em Santa Barbara nós temos o clima ideal e estamos entre Los Angeles e San Francisco, os dois principais mercados do estado”, disse Graham Farrar, dono da Glass House Farms, uma das promissoras fazendas de cannabis em Carpinteria. 

Farrar acredita que apesar do grande número de licenças temporárias expedidas em Santa Barbara, muitos produtores não serão capazes de fazer a transição para as autorizações permanentes por causa da crescente regulação do setor. 

São 13 agências regulatórias e comissões de controle de qualidade. Dentro de um grupo mais seleto de produtores, ele acredita na projeção de crescimento da Glass House Farms. “Nosso negócio cresceu 50% em relação a 2018 e esperamos um crescimento de 300% nos próximos anos”, afirmou. Mais:

Os empresários de cannabis na região ainda apontam a legalização como um desafio para pequenos e grandes produtores. “Um dos desafios atuais é lutar contra a produção ilegal de marijuana. São muitas leis e muito dinheiro envolvido na produção de cannabis legalizada”, explicou Autumn Shelton.

Lindsay Robinson, Diretora Executiva da California Cannabis Industry Association, acredita que a taxação determina a atividade do mercado ilícito. 

BRIGA ENTRE VIZINHOS

Por falar em regulações, o forte odor causado pelo cultivo e a obrigatoriedade de manter as plantas de Cannabis livres de qualquer pesticida trazem tensão e disputas para a comunidade local. 

Produtores de abacate e donos de vinhedos se organizam para forçar medidas legais que limitam a produção de Cannabis, obrigam produtores de maconha a instalarem controladores de odor na região de Carpinteria, além de arrumarem uma solução com relação aos pesticidas.

“Nossa comunidade está dolorosamente dividida sobre como trazer esta indústria para dentro do controle”, disse Das Williams, supervisor do Santa Barbara County Board of Supervisors, ao jornal Los Angeles Times.

“A legalização gerou mais taxas, produção em escala e diminuiu os preços, e isso inibe pequenos produtores a entrarem no mercado legal. A nossa associação defende o pequeno e o grande produtor e quer encontrar a melhor forma de taxação para isso acontecer”, acrescentou Lindsay.

Apesar dos desafios técnicos e econômicos, o sonho verde cresce, floresce e já dá frutos em números expressivos, posicionado a Califórnia como vanguarda nessa nova e supervalorizada commodity global.

MERCADO DE NÃO-ENTORPECENTES DEVE ALCANÇAR US$ 26 BI NOS EUA ATÉ 2024

O CBD (sigla para Canabidiol) é uma das substâncias presentes no cânhamo, a fibra obtida da cannabis, que é totalmente livre de efeitos narcóticos, sendo prescrito por médicos brasileiros desde que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) retirou-o da lista de substâncias proibidas para a importação ainda em 2015. 

Nos Estados Unidos, decreto do presidente Donald Trump conhecido como Farm Bill tornou o CBD legal em todos os 50 estados no ano de 2018. Na Califórnia, a aplicação do CBD já ganha as prateleiras de lojas de cannabis (conhecidas como dispensaries) em forma de cigarros eletrônicos, bebidas, loções e cremes analgésicos, tinturas, balas e outros comestíveis.

Segundo um estudo feito pela BDS Analytics e Arcview Market Research, líderes de pesquisa sobre a indústria, as vendas anuais de produtos com CBD nos Estados Unidos devem ultrapassar os U$ 20 bilhões em 2024. Para atender um mercado cada vez mais ávido por novidades, empresas de tecnologia e laboratórios investem em formas mais eficientes de obter os benefícios da substância. 

Ainda sob a costa ensolarada de Santa Barbara County, o laboratório de nanotecnologia Infused by Epic aposta em um conceito básico de química para alavancar os efeitos do CBD no organismo – água e óleo não se misturam. Como o corpo humano adulto é constituído de até 60% de água, trazer o CBD – que é extraído em forma de óleo – para moléculas de água tornaria a absorção da substância ainda mais eficiente no nosso organismo. 

“O CBD está crescendo muito rápido devido à falta de efeitos psicoativos e por conta dos benefícios medicinais. Eu acredito que em 5 anos vamos ver uma implementação muito mais forte no mercado interno. Todos os dias algum estado americano legaliza a cannabis e os produtos relacionados a ela”, afirmou Kalon Baird, Chefe de Tecnologia e um dos fundadores do Infusion by Epic. Mais:

Kalon Baird entrou na pesquisa do CBD por motivos medicinais, para ajudar a mãe a combater os efeitos colaterais do tratamento de câncer de mama. Após o resultado positivo, ele resolveu levar adiante o que aprendeu para ajudar outros pacientes. “Temos médicos que descrevem positivamente o nosso CBD líquido como um auxiliar rápido para pacientes que precisam de efeitos imediatos, como os portadores de epilepsia e autismo.”

BEBIDAS E GUMMIES

Dentro do laboratório, Kalon e sua equipe usam métodos para estabilizar o óleo cru de CBD com água e quebrar tudo em partículas muito pequenas através da nanotecnologia. Com apenas um ano de operação, a Infusion by Epic mira em fabricantes da indústria de bebidas como clientes em potencial.

“O corpo reconhece as moléculas de água e nanoemulsões muito mais rápido que o óleo, por isso, o mercado de bebidas é o principal cliente do laboratório, além dos gummies (balas mastigáveis) e produtos solúveis em geral. As bebidas mais comuns que recebem nossas nanoemulsões são cafés, sucos e cervejas sem álcool”, conta Baird, que tem visto aumento da demanda por seus produtos em 2019.

A fabricação de bebidas alcoólicas com substâncias ligadas à Cannabis não é legal nos Estados Unidos. Mas, além de investir no CBD, o Infused by Epic também quer adentrar o mercado de nanotecnologia usando o THC (substância com efeito psicoativo) como substituição para o álcool em bebidas e drinques. “Bebidas com THC ao invés de álcool oferecem vantagens óbvias. Álcool pode ser perigoso, aditivo, gerar comportamentos violentos e efeitos colaterais indesejáveis. O THC não tem essas consequências, as pessoas tendem a relaxar mais com o THC do que com o álcool. Eu acredito que a indústria de bebidas é inteligente e pode adotar linhas de produto ligadas à isso”.

VAREJO HIGH END

Desde janeiro de 2018, quando a Prop. 64 entrou em vigor na Califórnia liberando o consumo recreativo da maconha, o mercado de varejo da cannabis passa por uma intensa transformação. As antigas dispensaries, discretas e com pouca publicidade, dão espaço para lojas sofisticadas, que proporcionam uma experiência para o consumidor em centros urbanos como Los Angeles, San Francisco e San Diego.

A Barneys New York, uma das gigantes do varejo norte-americano de luxo, aposta em reforçar a cannabis como objeto de desejo da classe alta de Los Angeles. O conglomerado inaugurou em março de 2019 a The High End, primeira loja de cannabis ligada a uma rede de varejo. O novo empreendimento funciona no quinto andar da Barneys em Beverly Hills e tem ares de joalheria – ferramentas para confeccionar cigarros de cannabis enaltecidas por vitrais, produtos de beleza com CBD expostos como artigos de grife e cigarros eletrônicos de prata enchem os olhos de quem procura mais exclusividade.

“Muitos de nossos clientes estão incorporando a cannabis em seu estilo de vida. Temos uma seleção exclusiva de produtos que não podem ser comprados em nenhum outro lugar”, disse Daniella Vitale, Diretora Executiva da Barneys New York. A exclusividade é fruto de uma parceria com a marca Beboe, que desenvolve seus produtos em embalagens sofisticadas e com doses para eventos sociais. A ideia da marca é introduzir o consumo em recepções, como chás da tarde, jantares e casamentos, tudo com uma apresentação impecável.

De droga ilegal a produtos de luxo, o mercado de cannabis deve movimentar cerca de US$ 20 bilhões até 2024

A Barneys, maior rede americana de varejo de luxo, aposta em linha sedutora de produtos e acessórios de cannabis

MED MEN

A Med Men, considerada a maior rede de lojas de cannabis dos Estados Unidos, traz um conceito similar ao das lojas Apple – visual clean e moderno, com uso da tecnologia para auxiliar na compreensão dos produtos e publicidade em massa para conquistar novos clientes. A rede tem 37 filiais em 12 estados, além de ações negociadas na bolsa de Toronto, no Canadá, outro mercado em ascensão da substância.

A febre das lojas especializadas se espalha por todos os EUA, seja com grandes redes ou negócios locais. De acordo com o estudo da Marijuana Business Factbook, publicação que acompanha a evolução da indústria, a venda de cannabis medicinal e recreativa no país cresceu por volta de 35% em 2019 em relação ao ano anterior, atingindo a marca de U$12 bilhões. Para 2023, as projeções indicam cifras perto dos U$30 bilhões em vendas.

A Califórnia continua sendo o principal mercado de cannabis, com vendas estimadas em U$ 3,1 bilhões em 2019, cerca de 40% do total nacional. Entretanto, estados que são novos mercados medicinais – como a Flórida, Maryland, Ohio, Oklahoma e Pennsylvania – experimentaram crescimento acima do esperado em 2019.

MIL E UMA UTILIDADES 

Tipos, aplicações e propriedades da Cannabis

Substâncias

THC (Tetraidrocanabinol) Substância responsável pelos efeitos psicoativos do consumo da maconha. Reforça ainda tratamentos analgésicos, de relaxamento muscular, broncodilatação e doenças neurológicas, como epilepsia, depressão e distúrbio bipolar. 

CBD (Canabidiol) Sem efeito psicotrópico, é a substância com a maior quantidade de propriedades medicinais da cannabis. Seu efeito principal é em doenças neurológicas, indicada para tratamento anticonvulsões, antipsicóticos e ansiolíticos, além de doenças degenerativas, como os males de Parkinson e Alzheimer.

Drogas híbridas. A combinação entre THC e CBD em diferentes dosagens vem sendo usada para o desenvolvimento de dezenas de novos medicamentos pela indústria farmacêutica.

Variedades

Cânhamo (Ruderalis) Possui níveis mínimos de THC e CBD. Seu caule, porém, produz fibras muito resistentes, usadas na indústria têxtil para confecção de roupas, cordas e outros acessórios. Seu óleo também pode ser aplicado na indústria de cosméticos e solventes químicos.

Cannabis Sativa Espécie com maior concentração de THC. Por isso é a mais cultivada para consumo recreativo.

Cannabis Indica Possui maior presença de CBD na composição, bastante valorizada pela indústria farmacêutica.

Outras aplicações

Semente Rica em Ômega 3 e 6, é recomendada como alimento para combate de inflamações, econtrole do colesterol. Pesquisas indicam também efeitos positivos para redução e controle do peso.

Texto e Vídeos: Guilherme Ribeiro, de Santa Barbara e Los Angeles

Fotos: Diego Duarte Heringer | Experience Club