Cinco caminhos para criar ecossistemas inclusivos

Cinco caminhos para criar ecossistemas inclusivos

Maitê Lourenço, fundadora da BlackRocks Startups, explica como a participação da população negra enriquece o universo digital e amplia a representatividade e a consistência dos negócios

Publicado em 17 de novembro de 2020

As grandes empresas não têm só que olhar para diversidade da perspectiva do RH, mas também do consumidor e o potencial de negócios gerado por ecossistemas inclusivos. A população negra movimenta R$ 1,7 trilhão no Brasil e ainda assim não consegue se sentir representada. Entre os microempreendedores, os negros já são maioria, com 51% de participação, em uma população que chega a 54% entre pretos e pardos, de acordo com dados do IBGE.

Mas no universo das startups, não existe esta proporcionalidade e a predominância ainda é de homens brancos, alerta Maitê Lourenço, fundadora da BlackRocks Startups, organização que incentiva o empreendedorismo digital entre a população negra. “Como consequência se perde muito o objetivo da startup, que é solucionar dores reais e possíveis da população. Quando vamos a um evento do setor que tem certa diversidade, a possiblidade de ter repertório é maior”, conta Maitê.

Com formação em Psicologia, Design Thinking e gestão de projetos, a especialista acumula diversos prêmios por seu trabalho de responsabilidade e impacto social. Empreendedoras há dez anos, Maitê é membro do grupo técnico de diversidade racial no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. À frente da BlackRocks Startups, campeã no Startup Awards na categoria impacto social, Maitê foi considerada, em 2019, uma das dez mulheres que estão transformando o empreendedorismo e a tecnologia no Brasil.

Especialista em inclusão digital, a empreendedora chama a atenção para a necessidade das novas tecnologias também serem mais inclusivas e não reproduzirem visões distorcidas da sociedade. Maitê critica “padrões” de machine learning e Inteligência Artificial que reproduzem preconceitos, por exemplo, em sistemas de identificação facial que não reconhecem a pele negra.

“As máquinas reproduzem a mentalidade humana e elas estão se tornando racistas e machistas. Precisamos ter mais pessoas negras e de outras minorias desenvolvendo tecnologias e algoritmos”, reforça. O próximo passo da BlackRocks Startups é lançar um programa de aceleração com o BTG, com o objetivo de levar soluções para todos os públicos, não só para a população negra.

Em debate organizado pelo Experience Club, Maitê Lourenço destaca cinco lições que colocam a diversidade, tanto racial quanto de gênero, como caminho inseparável do equilíbrio e desenvolvimento sustentável dos negócios.

[Assista ao vídeo e mergulhe no assunto]:

1.Empreendedorismo inclusivo

A população negra brasileira representa mais de 51% dos microempreendedores, mas no ecossistema de startups não existe esta proporcionalidade. Há um grupo de empreendedores muito criativos e inovadores que não estão nesse ecossistema. Pensando neste gap, o objetivo da BlackRocks Startups é capacitar e desenvolver estes empreendedores negros para trazer uma perspectiva de democratização da tecnologia para a utilização em seus negócios. O foco é desenvolver startups lideradas por pessoas negras, um público muito amplo que pode ser consumidor e também fundador do próprio negócio. O processo atua em parceria com grandes empresas, que patrocinam as ações e desenvolvem estrutura que possa dar visibilidade de responsabilidade social, ações de marketing e construção de marca para a startup, além de treinamento, aceleração e investimento nos novos negócios.

2.Vá além do RH

O contexto de diversidade precisa ir além de uma discussão só do RH, de recrutamento e seleção, um tipo de diversidade que “encaixota” as pessoas – sejam mulheres, população negra, LGBT etc – e que não traz a oportunidade de pluralizar e até mesmo de transversalizar. É preciso pensar na pluralidade e na diversidade de fornecedores, de consumidores, de soluções inovadoras que ampliam o acesso a novos espaços. É importante trazer a perspectiva de desenvolvimento econômico, de agregar valor ao produto ou serviço, tendo de ponta a ponta grupos minoritários fazendo parte deste processo.

3.Mulheres e TI

Para Maitê, apesar da construção de uma educação machista na sociedade, com mentoria e orientação as mulheres ampliam as possibilidades de acesso e desenvolvimento de produtos e serviços digitais e podem ter forte atuação na área de startups. “Temos a felicidade de ter mulheres no agrotech, na área de Inteligência Artificial, na estruturação de processo de análise de dados através de machine learning para área de delivery. A grande questão é chegar até elas, ouvir, dar mais subsídios, suporte e patrocínios”.

4.Desenvolvimento de máquinas plurais

A falta de representatividade da população negra no desenvolvimento de algoritmos de machine learning e inteligência artificial pode levar à reprodução de mentalidades equivocadas e preconceituosas. Ou seja, as máquinas podem estar se tornando racistas e machistas. “Tem diversas histórias de identificação facial que não reconhece a pele negra, ou que identifica a população negra com algo negativo. Precisamos de mais pessoas negras e população minoritária desenvolvendo estes processos para eliminar este tipo de ação”.

5.Representatividade nos negócios

Cada vez mais a população negra, que movimenta R$ 1,7 trilhão, quer se sentir representada, não só no marketing, mas no desenvolvimento de produtos e serviços. “Isso traz a necessidade de as empresas buscarem a oportunidade de colocar população negra no centro. Não quer dizer que estão excluindo, privilegiando quem está vindo. É entender que este grupo quer ser cada vez mais representando e, como consequência, desenvolve todos os stakeholders envolvidos”.

Texto: Andrea Martins

Imagens: Reprodução | Experience Club