Inevitável

As 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo, pelo cofundador da Wired, Kevin Kelly

Publicado em 18 de fevereiro de 2021

Ideias centrais:

1 – Quanto mais improvável o campo de aplicação, mais a inclusão da inteligência artificial (AI) será eficaz. Investimentos cognificados? Isso já acontece em empresas, como a Betterment e a Weathfront, que incluem AI no gerenciamento dos índices de ação. Assim funcionam as tecnologias disruptivas

2 –A união de 1 zilhão de fluxos de informação se entrelaçando, fluindo de um lado para outro é o que chamamos de nuvem. Um software flui a partir da nuvem até nosso celular na forma de um stream de atualizações.

3 O efeito imediato dos livros que já nascem digitais é que eles podem fluir para qualquer tela, a qualquer momento. O livro aparece assim que convocado. Não é preciso comprar ou estocar o livro, antes de lê-lo.

4 – Trabalho de 60 mil pessoas-ano foi dedicado ao lançamento do Fedora Linux 9, provando que a auto-organização e a dinâmica do compartilhamento podem governar um empreendimento da escala de uma cidade.

5 – Nos próximos 30 anos, o holos tenderá para a mesma direção que tem seguido nas últimas três décadas: o holos inclina-se para, cada vez mais, fluir, compartilhar, rastrear, acessar, interagir, visualizar, remixar, filtrar, cognificar, questionar e tornar-se.

Sobre o autor:

Kevin Kelly é cofundador da revista Wired. É membro do conselho da Long Now Foundation, organização sem fins lucrativos, dedicada a moldar visão de futuro para empresas. Escreveu vários livros, entre os quais Para Onde nos Leva a Tecnologia.

Olhando para trás agora, achamos que a era do computador na verdade só começou naquele momento, quando os equipamentos se fundiram com o telefone. Isoladamente, os computadores eram inadequados. Todas as duradouras consequências da computação só começaram no início dos anos 1980, naquele momento em que, combinados, o computador e o telefone se entrelaçaram para formar um híbrido robusto. Nos últimos trinta anos, a economia baseada nessa tecnologia teve seus altos e baixos e viu seus heróis surgirem e desaparecerem, mas já está bastante claro que a evolução foi orientada por algumas amplas tendências. Neste livro, são descritas doze tendências, doze forças de tecnologias disruptivas que prometem moldar nosso mundo nos próximos 30 anos.

Para denominar essas tendências, o substantivo não é a maneira mais apropriada, porque significa fixidez, estabilidade. Como elas denotam movimento, a maneira mais adequada de denominá-las é usando a forma verbal. Por exemplo, o compartilhamento é substituído por “compartilhar”, visualização por “visualizar” e assim por diante.

Capítulo 1 – Tornar-se

A vida das tecnologias disruptivas no futuro será uma série interminável de upgrades. E a velocidade dessas progressões graduais vem aumentando. Funcionalidades mudam, padrões desaparecem, menus se transformam. Abre-se um programa não usado todo dia, esperando ver certas opções e se descobre que menus inteiros desapareceram.

Não importa por quanto tempo usamos determinada ferramenta: os upgrades sem fim nos transformam em eternos novatos, em usuários normalmente vistos como “sem noção”. Na era do “tornar-se”, todo mundo torna-se novato. Pior: seremos novatos para sempre.

Protopia é um estado de tornar-se, não um destino. É um processo. No modo protópico, as coisas são (só um pouco) melhores. É uma melhoria incremental, um processo brando. O “pro” de “protópico” deriva das noções de processo e progresso. Esse avanço sutil  não é dramático nem empolgante. É fácil deixar de percebê-lo, porque a protopia cria quase tantos problemas quanto benefícios. Os problemas atuais foram causados pelos sucessos tecnológicos de ontem, e as soluções tecnológicas para as mazelas de hoje causarão os problemas de amanhã.

Essa expansão circular de problemas e soluções oculta uma acumulação constante de pequenos benefícios líquidos ao longo do tempo. Desde o Iluminismo e a invenção da ciência, conseguimos criar um pouco mais do que destruímos, ano a ano. Essa pequena diferença percentual positiva acumula-se no decorrer das décadas para compor o que chamamos de civilização. Seus benefícios, porém, jamais ganham holofotes.

Capítulo 2 – Cognificar

No entanto, a primeira Inteligência Artificial (AI) de verdade não nascerá num supercomputador independente, mas no superorganismo composto de 1 bilhão de chips conhecido como internet. Embora de dimensões planetárias, ela será discreta, embutida e livremente conectada. Será difícil dizer onde os pensamentos da AI começarão e onde os nossos terminarão.

A cognificação da fotografia revolucionou a área porque a inteligência permite que as câmeras caibam em qualquer  coisa (em óculos de sol, em peças de roupa, em canetas) e tenham mais desempenho, incluindo calcular 3D, HD e muitas outras opções que, antes, só estariam ao alcance de quem tivesse uma van recheada com US$ 100 mil em equipamentos.

A lista dos X é interminável. Quanto mais improvável o campo de aplicação, mais a inclusão da inteligência artificial será eficaz. Investimentos cognificados? Isso já acontece em empresas, como a Betterment ou a Weathfront, que incluem AI no gerenciamento dos índices de ações.

Áreas que serão revolucionadas pela AI:

Música cognificada. Poderá ser criada em tempo real com base em algoritmos e usada como trilha sonora de um videogame ou de um mundo virtual.

Marketing cognificado. A quantidade de atenção que um leitor ou espectador dedica a um anúncio poderá ser multiplicada pela inteligência social desse indivíduo (número de seus seguidores e a influência exercida sobre eles).

Esportes cognificados. Sensores inteligentes e AI poderão criar novas maneiras de marcar pontos e arbitrar jogos esportivos, monitorando e interpretando jogadas e movimentos sutis dos atletas.

Quando o Google adquiriu outras 13 empresas de AI e de robótica, além da DeepMind, deu o que falar. À primeira vista, o Google estaria apenas reforçando sua carteira de inteligência artificial para melhorar as funcionalidades de busca, uma vez que as buscas constituem 80% da receita da companhia. No entanto, em vez de usar AI para melhorar seus mecanismos de busca, o Google está usando as buscas para melhorar sua AI.

Questão de banco de dados. Quando Kasparov, o campeão de xadrez, perdeu  uma partida histórica contra o computador DeepMind, da IBM, percebeu que poderia ter jogado melhor. Se ele tivesse o mesmo acesso imediato ao enorme banco de dados de seu adversário, teria mais chances de vencer. Daí em diante, Kasparov tentou aliar o homem e a máquina para ter mais chances de vitória, o que motivou várias disputas dentro dessa parceria. E essa foi a leitura do mercado para outros setores.

Capítulo 3 – Fluir

A economia digital opera no fluxo livre do grande rio de cópias. Na verdade, a rede de comunicação digital foi concebida de modo a possibilitar que as cópias fluam com o menor atrito possível. Elas fluem tão livremente que poderíamos pensar a internet como um supercondutor, no qual uma cópia, assim que introduzida, continuará a fluir para sempre na rede, de um jeito bem parecido como a eletricidade o faz em um fio supercondutor. Essa é a ideia quando algo vira um fenômeno viral na internet. As cópias são reproduzidas e essas duplicatas vão avançando, lançando novas cópias, em uma infinita onda contagiosa.

A união de 1 zilhão de fluxos de informação se entrelaçando, fluindo de um lado para outro, é o que chamamos de nuvem. Um software flui a partir da nuvem até nosso celular na forma de um stream de atualizações. A nuvem é o lugar para onde seu stream de textos flui antes de chegar à tela do dispositivo do seu amigo. É na nuvem que o desfile de filmes de sua conta na Netflix descansa até você resolver assistir a algum deles

 A nuvem constitui um reservatório do qual suas canções favoritas escapam. A nuvem representa a nova metáfora organizadora para os computadores.

Capítulo 4 – Visualizar

Além de ler palavras em uma página, agora também lemos palavras flutuando de maneira não linear nas letras de um videoclipe ou rolando nos créditos finais de um filme. Podemos ler balões com diálogos travados por avatares de algum mundo de realidade virtual, clicar nas legendas de objetos de um videogame ou decifrar os termos de um diagrama da internet. Seria mais adequado chamar essa nova atividade de “visualizar”, mais do que ler. Visualizar  inclui não só decifrar o texto, mas também assistir às palavras e ler as imagens. Essa atividade tem características próprias. As telas estão sempre ligadas. Nunca paramos de olhar para elas, diferentemente dos livros. Essa nova plataforma visual aos poucos funde palavras com imagens em movimento.

Livro digital. O efeito imediato de livros que já  nascem digitais é que eles podem fluir para qualquer tela, a qualquer momento. O livro aparece assim que convocado. Não existe mais a necessidade de comprar ou estocar o livro antes de lê-lo. Um livro é menos um artefato e mais um fluxo que cruza nosso campo de visão. Essa liquidez aplica-se tanto à criação quanto ao consumo do livro. Pense nele, em todos os seus estágios, como um processo, não como um objeto. Também ele deixa de ser substantivo para tornar-se verbo. Um livro constitui algo que está para além do papel ou do texto. Algo que está em pleno “tornar-se”: um fluxo contínuo de pensamento, escrita, pesquisa, edição, reescrita, compartilhamento, cognificação, desagregação, marketing, mais compartilhamento e visualização.

Capítulo 5 – Acessar

A ausência de propriedade como vemos no Uber, no Facebook, no Alibaba, na prática também se estende às mídias digitais. A Netflix, a maior central de vídeos do mundo, permite assistir a um filme sem que se precise comprá-lo. O Spotfy, o maior provedor de streaming de música, deixa ouvir músicas em que não se precise ser dono delas. O Kindle Umlimited, da Amazon, possibilita ler qualquer título de um acervo de 800 mil volumes, sem que sem que seja necessário ter qualquer livro..

A posse já não tem a relevância de antes. O acesso é mais importante do que nunca.

Prosumidor. O acesso aproxima o consumidor do produtor de tal modo que, com efeito, o consumidor muitas vezes chega a atuar como produtor – torna-se um “prosumidor”, segundo a definição cunhada por Alvin Toffler em 1980. Se não é mais preciso, por exemplo, ter a posse de um software para usufruir de suas melhorias, nós nos beneficiamos da possibilidade do acesso. No entanto, o acesso nos engaja a trabalhar pelo software: como “prosumidores”, somos encorajados a identificar e reportar bugs (assumindo  a tarefa de elaborar uma lista de perguntas e respostas ao cliente), a participar de fóruns de usuários para resolver questões técnicas (reduzindo a dispendiosa área de suporte técnico) e a desenvolver nossos próprios add-ons e melhorias (substituindo os pesquisadores da equipe de desenvolvimento). O acesso estende as interações do consumidor a todos os processos do serviço.

Plataforma.  Ela é a base fundada por determinada empresa para abrigar a construção de produtos e serviços criados por outras companhias. Não é mercado nem empresa, mas algo novo. Uma plataforma, como uma loja de departamentos, oferece coisas que ela não criou. Uma das primeiras plataformas de sucesso foi o sistema operacional da Microsoft. Qualquer um com capacidade técnica e alguma ambição podia desenvolver e vender um programa que rodasse nesse sistema. E foi o que muitas pessoas fizeram. Alguns programas, como o primeiro software de planilha eletrônica, o Lotus 1-2-3, tiveram tanto êxito que se transformaram em miniplataformas. Produtos e serviços altamente interdependentes compõem o “ecossistema” que se abriga em uma plataforma.

Capítulo 6 – Compartilhar

Em vez de enxergar o novo socialismo digital como parte de um trade-off de soma zero entre o individualismo do livre mercado e a autoridade centralizada, pode-se interpretar o compartilhamento tecnológico como um novo sistema operacional político, que eleva o indivíduo e o grupo ao mesmo tempo. O objetivo, em grande parte não articulado, mas intuitivamente compreendido, é maximizar tanto a autonomia individual como o poder coletivo de quem trabalha em regime de colaboração. Desse modo o compartilhamento digital revela-se uma terceira via, capaz de colocar em xeque o velho dualismo proposto pelo saber tradicional.

Estado x mercado. A noção de um terceiro caminho é ecoada por Yohai Benkler, autor de  A Riqueza das redes – como a Produção Social Transforma os Mercados e a Liberdade (disponível em página wiki), estudioso que ponderou  extensamente sobre a política de redes: “Considero o surgimento da produção social e da produção pelos peers uma alternativa tanto ao sistema proprietário baseado no Estado como ao sistema proprietário baseado no mercado”.

Até agora, as maiores iniciativas de colaboração online são projetos de código aberto. Os maiores deles, como o Apache, administram várias centenas de colaboradores, quase um vilarejo inteiro. Um estudo estima que o trabalho de 60 mil pessoas-ano foi dedicado ao lançamento do Fedora Linux 9, provando que a auto-organização e a dinâmica do compartilhamento podem governar um empreendimento da escala de uma cidade.

Capítulo 7 – Filtrar

A vastidão da Biblioteca de Tudo enterra rapidamente nossos hábitos de consumo. Vamos precisar de ajuda para navegar por este vasto território inexplorado. A vida é curta e temos livros demais para ler. Alguém, ou alguma coisa, precisa fazer escolhas e sussurrá-las ao nosso ouvido para nos ajudar a tomar decisões. Nossa única opção é buscar ajuda para escolher. Vale todo tipo de filtragem para peneirar o desconcertante volume de opções. Muitos desses filtros tradicionais continuam tendo grande utilidade:

  • Filtro dos guardiões – autoridades, pais, sacerdotes e professores nos protegem da má qualidade e nos transmitem as “coisas boas”.
  • Filtro do ambiente cultural – conforme as expectativas da família, da escola e da sociedade que as cerca, as crianças podem receber diferentes mensagens, aprender diferentes conteúdos e ser apresentadas a diferentes escolhas.
  • Outros filtros – filtro dos intermediários, filtro dos curadores, filtro do governo, filtro dos amigos etc.

A genialidade por trás do imenso sucesso do Google, Facebook e outras plataformas da internet foi a construção de uma infraestrutura gigantesca, capaz de filtrar essa atenção commoditizada. As plataformas usam um enorme poder computacional para aproximar o universo cada vez mais amplo de anunciantes do universo cada vez mais amplo de consumidores. Suas inteligências artificiais buscam o anúncio ideal no momento certo, no local adequado e na frequência apropriada para despertar a melhor reação possível. Às vezes, isso é chamado de publicidade personalizada, mas, na verdade, trata-se de algo muito mais completo do que direcionar anúncios a consumidores individuais. O conceito compõe-se de um ecossistema de filtragens, com consequências que vão além da publicidade.

Mais filtragem será inevitável, porque não podemos parar de fazer coisas novas. Dentre essas coisas, emergirão no futuro próximo recursos inéditos para filtrar e personalizar – meios de fazer com que, cada vez mais, sejamos nós mesmos.

Capítulo 8 – Remixar

Paul Romer, economista da New York University, especializado em crescimento econômico, diz que o verdadeiro desenvolvimento sustentável não resulta de novos recursos, mas do rearranjo dos recursos existentes para aumentar o seu valor. Em outras palavras, o crescimento provém da remixagem. Por sua vez, o economista do Santa Fe Institute, do Novo México, Brian Arthur, afirma que todas as novas tecnologias resultam de uma combinação de tecnologias existentes. As modernas tecnologias, assim, nascem do rearranjo e da remixagem de tecnologias primitivas anteriores.

Fungibilidade suprema dos bits digitais. Esta possibilita que as formas transformem-se facilmente, passando por processos de mutação e hibridação. O veloz fluxo de bits permite que um programa emule outro. Simular alguma outra forma é uma função nativa das mídias digitais. Não há como fugir dessa multiplicidade. O número de opções de mídia só vai aumentar. A variedade de gêneros e subgêneros continuará a se multiplicar rapidamente. É bem verdade que alguns se tornarão populares enquanto outros vão decair, mas poucos vão desparecer completamente. O mundo sempre terá fãs de ópera, mesmo daqui a um século. E também terá um bilhão de fanáticos por videogame e uma centena de milhões de mundos de realidade virtual.

O santo graal da futura linguagem visual é a encontrabilidade – a capacidade de, assim como o Google varre a web, vasculhar o acervo de todos os filmes e buscar em suas profundezas um conteúdo específico.

A ideia é possibilitar que você digite palavras-chave ou simplesmente diga “bicicleta mais cachorro”, para ter acesso a cenas de filmes exibindo bicicleta e cachorro. Daqui a 30 anos, as obras culturais mais importantes e as mídias mais eficazes serão aquelas que mais forem objeto de remixagem.

Capítulo 9 – Interagir

Dois elementos impulsionam o rápido avanço atual da VR (Virtual Reality): presença e interação. “Presença” é a mercadoria que a VR vende. Todas as tendências históricas da tecnologia cinematográfica volta-se a realismo cada vez maior incluindo o som, a cor, a exibição em 3D e as velocidades de projeção  cada vez mais rápidas e fluidas. Atualmente, todas essas tendências estão sendo aceleradas  na área da realidade virtual.

A segunda geração da tecnologia de VR usa uma inovadora projeção de “campo de luz”. (As primeiras unidades comerciais de campo de luz são o Hololens, da Microsoft, e o Magic Leap, financiado pelo Google.) O mundo virtual é projetado sobre um visor semitransparente, de maneira bem parecida com um holograma. Isso possibilita que a “realidade” projetada sobreponha-se à cena que veríamos normalmente sem os óculos especiais.

Três plataformas. A primeira plataforma tecnológica a desestabilizar uma sociedade no decorrer  de apenas uma geração humana foi constituída pelos computadores pessoais. Os celulares fundamentaram a segunda plataforma, revolucionando tudo em apenas algumas décadas. A próxima plataforma, que está emergindo agora, é o mundo virtual.

Capítulo 10 – Rastrear

Chips cada vez menores, baterias melhores e conectividade e nuvem têm incentivado alguns autoquantificadores a tentar um monitoramento de longuíssimo prazo. Especialmente da própria saúde. A maioria das pessoas tem o privilégio de fazer uma consulta anual com um médico para mensurar algum aspecto de sua saúde. Mas imagine como seria se sensores invisíveis mensurassem e registrassem todos os dias, o dia inteiro, nossa frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, glicose e assim por diante. Teríamos centenas de milhares de informações para cada um desses fatores, sob quaisquer condições, às quais estivéssemos submetidos. Com a autoquantificação de longo prazo, no entanto, obtém-se uma métrica muito mais útil, uma vez que espelha uma referência pessoal e exclusiva, vital para o diagnóstico.

Nuvem e monitoramento. O design da internet das coisas e a natureza da nuvem, na qual ela flutua,fundamentam-se no monitoramento de dados. Os 34 bilhões de dispositivos habilitados para a internet a serem incluídos na nuvem nos próximos cinco anos foram feitos para transmitir dados. E a nuvem nasceu para armazenar dados. Qualquer coisa passível de monitoramento que toque a nuvem será, com certeza, rastreada.

Grande Irmão. É surpreendentemente fácil imaginar todo o poder que se concentraria nas mãos de uma entidade capaz de integrar todos esses streams (casa inteligente, câmeras urbanas, serviços de utilidade pública, espaços comerciais e privados etc.). O medo do Grande Irmão resulta diretamente da facilidade técnica de reunir tais dados. Por enquanto, contudo, a maioria desses streams é independente. Seus bits não se encontram integrados e correlacionados. Alguns tipos de dados admitem integração (cartões de crédito e uso de mídias, por exemplo), mas em geral ainda não existe um stream agregado do tipo Grande Irmão.

Capítulo 11 – Questionar

Quando temos provas de que um conceito como a Wikipédia funciona, quando se mostra óbvio que o software de código aberto supera refinados programas patenteados, quando temos certeza de que compartilhar fotos e outros dados é mais vantajoso do que mantê-los na segurança de uma gaveta,todo o conhecimento acumulado por essas premissas transforma-se em base para o acolhimento ainda mais radical do princípio do bem comum. O que antes parecia impossível, hoje é aceito sem questionamento.

Volume de dados: indagação. O girar frenético das tecnologias disruptivas nos lançou a um novo nível, descortinando um continente de oportunidades desconhecidas e, também, de escolhas temerárias. Não temos como prever as consequências das interações em escala global. O volume de dados e de potência necessários é inumano. Sem dúvida, nosso comportamento coletivo será diferente de nosso comportamento individual, mas ainda não sabemos como. E, muito mais importante, nosso comportamento como indivíduos será diferente no âmbito do coletivo. Se não sabemos, indagamos. É preciso decifrar a nova esfinge.

As melhores perguntas não são as que levam a respostas, uma vez que estas tendem a se tornar cada vez mais abundantes. E qual seria a boa pergunta?

  • A boa pergunta não está interessada em uma resposta correta.
  • A boa pergunta não pode ser respondida imediatamente.
  • A boa pergunta desafia as respostas existentes.
  • A boa pergunta é aquela que você mal pode esperar para que seja respondida, mas que nunca tinha lhe chamado a atenção antes de ser formulada.
  • A boa pergunta é a semente da inovação em ciência, tecnologia, arte, política e negócios.
  • A boa pergunta, mesmo quando tola ou óbvia, paira sobre a fronteira entre o conhecido e o desconhecido.

Capítulo 12 – Começar

O Começar é agora, neste momento, bem à beira de tal descontinuidade. No novo regime, velhas forças culturais, como a autoridade centralizada e a uniformidade, entram em decadência, enquanto novas forças culturais como as descritas neste livro – compartilhamento, acesso, rastreamento -, passam a dominar as instituições e a vida pessoal. À medida que a nova fase se cristaliza, essas forças continuarão a se intensificar. O compartilhamento, apesar de hoje parecer excessivo para algumas pessoas, só está no início. A transição da posse ao acesso mal começou. Fluxos e streams ainda não passam de filetes

Era de transição. Pode parecer que já rastreamos coisas em excesso, mas estaremos monitorando mil vezes mais nas próximas décadas. Cada uma dessas funções será acelerada pela coisificação de alta qualidade, ainda nascente, mas que fará com que as coisas mais inteligentes produzidas na atualidade pareçam toscas no futuro. Nada disso é final ou definitivo. Essas transições não passam do primeiro passo de um processo, um processo de tornar-se. Um Começar.

Nos próximos 30 anos, o holos [configuração total] tenderá para a mesma direção que tem seguido nas últimas três décadas: o holos inclina-se para, cada vez mais, fluir, compartilhar, rastrear, acessar, interagir, visualizar, remixar, filtrar, cognificar, questionar e tornar-se. Estamos, neste exato momento, a dar início a tudo isso. O Começar, claro, só está começando.

Resenha: Rogério H. Jönck

Imagens: Reprodução e Unspash

Ficha técnica:

Título: Inevitável: As 12 forças tecnológicas que mudarão nosso mundo

Título original: The Inevitable: Understanding The 12 Technological Forces That Will Shape OurFuture

Autor: Kevin Kelly

Primeira edição: HSM Educação Executiva