“Inovação composta” multiplica potencial do blockchain

“Inovação composta” multiplica potencial do blockchain

[EXP] Entrevista: Matthew Spoke, CEO da AION Network (Canadá).

Publicado em 13 de agosto de 2019

Uma das questões de maior controvérsia envolvendo o futuro do blockchain é o embate entre soluções abertas e fechadas no uso da tecnologia. Se a aposta em protocolos fechados permite trabalhar em ambientes mais controlados – o que parece uma boa saída para o sistema financeiro – blockchains abertos permitem mais “camadas de inovação”, que podem facilitar a geração de novos negócios em plataformas compartilhadas entre empresas.

Como o blockchain deve se desenvolver nos próximos anos será um dos temas abordados durante o Fórum CIO Club, que pelo Experience Club realiza nos dias 3 e 4 de outubro, no Sofitel Guarujá Jequitimar. Quem falará sobre esse assunto em profundidade será o CEO da AION Network e diretor da Coalizão de Tecnologia Blockchain do Canadá, Matthew Spoke, que vem ao país a convite da Verity Group, com quem a companhia canadense firmou joint-venture para atender ao mercado brasileiro. 

Matt atua há cinco anos neste universo e teve a oportunidade de trabalhar de perto com alguns dos principais líderes mundiais em blockchain. Nesta entrevista, ele fala sobre os mercados que deverão adotar o blockchain com mais rapidez, as inovações que serão possíveis graças ao uso desta tecnologia, as mudanças no setor bancário, entre outros assuntos. Confira: 

Quais mercados devem se envolver fortemente no uso de blockchain?

Indústrias com pouca liquidez e alto atrito no mercado são as primeiras candidatas para a aplicabilidade do blockchain. Os blockchains têm a vantagem de construir uma infraestrutura mais aberta com menos intermediários, de modo que as contrapartes possam trocar valor mais diretamente. Por exemplo, uma transação imobiliária usando o blockchain como prova de transferência de propriedade. O blockchain também permite abrir os ativos “bloqueados” dentro de plataformas fechadas, de forma a torná-los negociáveis. É o caso dos pontos conquistados em um videogame ou em um programa de fidelidade – esses ativos são difíceis ou ate mesmo impossíveis de serem negociados fora de sua própria plataforma.

Há um limite para o uso desta tecnologia? E quanto às futuras aplicações?

A principal discussão é sobre softwares abertos versus softwares fechados. Compartilhar dados pode significar mais oportunidades de negócios, o que não tem nada a ver com deixar dados proprietários desprotegidos. 

A concepção de “inovação composta” é a de usar o valor original de uma ideia para desenvolver outra completamente nova em cima dela. 

Um exemplo simples disso é considerarmos que a invenção da lâmpada só foi possível por conta da descoberta da eletricidade. No mundo digital, as invenções geralmente são fechadas, dificultando a existência de “camadas” de inovação. Se o Uber decidisse construir seu sistema de identidade e reputação em um blockchain aberto, outras empresas e serviços poderiam ser criados usando essas informações como ponto de partida. Por exemplo, uma empresa de seguros poderia usar a pontuação de reputação de um motorista do Uber para o desenvolvimento de um produto específico. 

O governo brasileiro passou a exigir que todas as operações que usam criptomoedas sejam reportadas à Receita Federal. Qual é a sua opinião sobre isso?

As operações que usam criptomoeda fornecem ferramentas mais sofisticadas para que o governo possa ter um controle muito melhor sobre os impostos e ser pago automaticamente, por exemplo. No caso das operações em dinheiro, isso é muito mais difícil de controlar. Então, vejo o movimento com bons olhos, e acredito que o governo deveria ter o mesmo entendimento.  

Como você vê a apropriação da tecnologia blockchain pelos bancos? Quais podem ser as implicações disso?

É um movimento bom e inevitável. O resultado disso deverá ser a melhoria da experiência do cliente e a redução de custos. Os bancos são instituições importantes, que por décadas nos forneceram custódia e oportunidades de investimento. Mas eles também vêm se protegendo por todo este tempo, sem ter uma concorrência real. Então, agora eles terão que enfrentar esse novo contexto, que certamente os levará à inovação. É provável que vejamos dois sistemas financeiros paralelos surgindo – um apoiado por bancos e um baseado em sistemas de criptomoeda. Isso é bom para os consumidores que terão mais escolhas e, ao mesmo tempo, forçará a pressão competitiva no setor financeiro.

O que o público do Experience Club poderá esperar de sua participação no evento?

Pretendo dividir a minha visão sobre como o mundo irá evoluir nos próximos 10 anos com o advento de sistemas de aplicativos abertos construídos em blockchains. Também devo falar sobre o porquê a promessa de blockchain não se materializou de maneira real nos últimos 5 anos. Finalmente, vou trazer exemplos de como as empresas podem explorar e se beneficiar dessa tecnologia, usando seus pontos fortes a favor e não sendo obrigadas a se adaptar forçadamente à ela.

Texto: Luana Dalmolin

Imagem: Divulgação