Internet, ano 50 – Parte 2

Dados são o novo Petróleo. Depois da Internet das Coisas (IoT), blockchain está criando a web que gera valor (IoV).

Publicado em 27 de outubro de 2019

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O VALOR ESTÁ EM REDE

As perspectivas da Internet das Coisas, a IoT, são fascinantes. Mas existe uma outra sopa de letrinhas, menos conhecida, com possibilidades tão grande quanto. É a IoV, ou Internet do Valor, na sigla em inglês. Basicamente, trata-se da ascensão de uma web onde se torna possível, além de trocar ideias, como feito atualmente, negociar todo tipo de ativo – de ações a moedas estrangeiras, de propriedades intelectuais a letras de crédito – por qualquer valor de compra ou troca com qualquer pessoa, sem o uso de qualquer intermediário, sejam eles bancos, cartórios, gestoras ou governos.

O segredo do desenvolvimento da IoV é o blockchain, uma tecnologia que interliga computadores em rede de modo a criar uma espécie de banco de dados online coletivo e descentralizado. Como cada bloco dessa rede é autônomo – não existe um agente centralizador do sistema – a guarda, a distribuição e a validação de informações se tornam extremamente seguras, já que é quase impossível hackear ou derrubar simultaneamente milhões de computadores autônomos, espalhados pelo mundo.

Grandes redes de blockchain permitiriam a compra e venda de ativos em grande escala, com maior segurança e praticidade do que o modelo atual.

Na prática, isso por um lado significa problemas para grandes corporações e intermediários financeiros – possivelmente com margens de lucro muito mais apertadas que as atuais. De outro, preços e juros mais baratos para todos os demais.

O blockchain costuma ser associado ao surgimento das moedas virtuais, como o Bitcoin, o Ethereum e o Litecoin. Na verdade, suas aplicações vão muito além disso. Aconteça o que acontecer com as criptomoedas, a tecnologia em si veio para ficar: além de grandes bancos e financeiras, que lutam para não serem disruptados, o blockchain também está sendo aperfeiçoado por companhias como IBM e Samsung, para aplicações em IoT, e por empresas farmacêuticas como uma forma de compartilhar dados de pacientes de forma segura.

A lista não para por aí; hoje, essa é uma tecnologia que está sendo pesquisada por praticamente cada grande segmento empresarial global. Isso irá levar ao seu amadurecimento – e, consequentemente, à chegada desse capitalismo puro e direto aos bilhões de usuários da rede.

DADOS, O NOVO PETRÓLEO

Mais do que na parte técnica, é no aspecto social, digamos, onde residem as principais dúvidas – e polêmicas – sobre o futuro da Internet. Uma delas está na questão da captura e do uso de dados dos usuários da rede, seja via redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, seja através da colocação de pequenos rastreadores – os famosos cookies – que mapeiam os hábitos mais comuns de navegação e comportamento online.

Capturar a maior quantidade possível de informações é algo visto hoje como um caminho sem volta da rede – uma espécie de gênio que nunca mais irá voltar para a lâmpada. Esses dados se tornaram fundamentais tanto para empresas aperfeiçoarem seus negócios como para organizações políticas, sociais e educacionais influenciarem seu público. O problema dessa situação, no entanto, é a forma como é feita essa captura. Em muitos casos, ela é realizada sem permissão dos usuários – através de pegadinhas como os famosos testes de Facebook na linha do “Com qual raça de cachorro você se parece?” ou de modo disfarçado, via letras miúdas escondidas no meio de enormes contratos de aceitação de termos, que quase ninguém lê.

O resultado é um banco de dados extenso e altamente personalizado. Uma mina de ouro para os interessados em operar com essas informações – um dos lemas atuais da Internet é “Os dados são o novo petróleo” – pelos quais os usuários nada recebem, a não ser um bombardeio de propaganda. 

A tendência, aliás, é que essa lógica seja invertida, transformando a privacidade numa commodity.

“Estamos chegando a um ponto em que talvez as pessoas passem a ter que pagar para manter sua vida pessoal intacta, fora desse grid de captura de informações”. [autor]Jayson DeMers escritor e empresário americano.[/autor]

“Eu espero que, no futuro, surjam organizações, tanto civis quanto empresariais, principal objetivo será resguardar a privacidade. Se elas serão bem-sucedidas ou não é outra história”, prossegue ele em artigo. 

NOVO CAMPO DE BATALHA POLÍTICO

Se o uso de dados para marketing comercial já é polêmico, ele se transforma em algo absolutamente incendiário quando essa propaganda passa a ser usada como munição na disputa política. O primeiro grande capítulo dessa nova realidade veio à tona nas eleições americanas de 2016, quando surgiram investigações apontando que agentes russos direcionaram grandes quantidades de propaganda política customizada via Internet para tentar influenciar a eleição do republicano Donald Trump. Essas informações seriam capturadas através de empresas como a hoje célebre Cambridge Analytica, que obteve dados de quase 90 milhões de usuários do Facebook através de métodos pouco transparentes, para dizer o mínimo.

O episódio se tornou um marco no processo de transformação da Internet em um campo de batalha político, onde os dados são a principal munição para alimentar os exércitos que combatem em terrenos como redes sociais, vídeos, blogs, webpages, fórums e aplicativos. Analistas veem essa tendência como crescente, como demostrado pelo uso da web em episódios como o Brexit na Inglaterra e eleições no Brasil, no México, na Índia e na Espanha.

A coisa se torna ainda mais complexa quando a juntam a esse cenário mais três ingredientes. Um deles é a crescente divisão da sociedade em bolhas digitais, ou seja, no consumo de informações que apenas ressaltam uma determinada mentalidade, sem acesso ao contraditório. O segundo é o alastramento das fake news, tanto daquelas criadas por milícias digitais com objetivos políticos quanto do alastramento de fontes de informação não-confiáveis. Na Índia, já foram registrados de diversos episódios de linchamento de inocentes, após rivais espalharem boatos falsos sobre as vítimas em aplicativos como WhatsApp. Finalmente, há o uso da rede mundial como um instrumento de repressão e controle social por governos autoritários.

Na Arábia Saudita, o príncipe que governa o país criou um exército de trolls oficiais, com o objetivo de vigiar, identificar e calar dissidentes políticos. Na China, está em expansão um sistema de controle social que reúne desde tecnologias de reconhecimento facial até a premiação com pontos e descontos em sites de e-commerce e namoro para cidadãos com “boa reputação” – entenda-se alinhamento ao governo – que já está despertando o interesse de outros países.

O resultado desse combo tem sido devastador. Quando a Internet se popularizou, durante os anos 90, ela foi vista como uma grande ferramenta que ajudaria a espalhar o conhecimento, a cultura e o diálogo pelo mundo. Hoje, no entanto, existe o receio de no futuro próximo ela se converta em um instrumento de repressão e controle político.

O LADO NEGRO DA FORÇA

Infelizmente, as tendências para a Internet não preocupam apenas no campo político, mas podem ter forte impacto negativo também no campo econômico e no combate ao crime organizado. Uma das que mais chamam a atenção é o futuro crescimento da Dark Web, como é conhecida a parte da rede mundial de computadores onde acontecem todo tipo de negócios e transações ilegais. Aliás, antes de nos aprofundarmos nesse tema, vale a pena entender a diferença entre as três principais camadas da internet: Surface, Deep e Dark Web.

Alguns especialistas costumam comparar a Internet a um iceberg: apenas uma pequena parte do seu tamanho é visível, enquanto a maioria do gelo está debaixo d’água. No caso da web, a parte visível desse bloco gelado é chamada de Surface Web, ou superfície. Trata-se de todo o conteúdo que está indexado nos sites de busca como o Google ou o Bing, ou seja, com fácil acesso às informações ali disponibilizadas.

O que chama atenção é que essa web “normal”, usada pela maior parte das pessoas, é uma parte mínima da Internet total. Não existe um estudo preciso sobre o seu tamanho, mas de forma geral se acredita que a Surface corresponda a no máximo 4% da rede mundial de computadores – e alguns analistas falam até em número muito menores, na faixa dos 0,1%.

Logo abaixo da Surface está a Deep Web. Apesar do nome assustador, a Deep Web simplesmente reúne o conteúdo que escapa dos buscadores, ou seja, que está escondido do grande público. Em sua maior parte, ela é formada por bancos de dados, estatísticas governamentais, intranet de empresas e conteúdo protegido por senhas, como os arquivos dos bancos e outras instituições financeiras. O restante pode ser acessado normalmente por qualquer pessoa – desde que ela saiba o endereço do website que ela procura. Trata-se, portanto, de uma espécie de “zona cinzenta” da web.

Finalmente chegamos à Dark Web, uma espécie de bairro barra-pesada da internet. E bota barra-pesada nisso.

No livro Cryptopolitik and the Darknet, os pesquisadores Daniel Moore e Thomas Rid afirmam que quase 60% das atividades na Dark Web são ilegais, passando por venda de drogas, armas, pedofilia, prostituição e até encomenda de assassinatos.

Quase é tudo negociado em Bitcoins e outras criptomoedas, de difícil rastreio. É justamente essa busca por anonimato que faz ser tão difícil acessar essas profundezas atualmente. A maioria dos seus domínios é formada por endereços formados por letras e números aleatórios. Para chegar até lá, normalmente se usam softwares que criptografam os dados do usuário, como o Tor, o Freenet e o i2P, permitindo que eles fiquem praticamente invisíveis.  

É justamente essa vizinhança pouco recomendável que deve crescer bastante no futuro, por uma série de motivos. Numa mão, novas versões dos navegadores criptografados devem ter interfaces cada vez melhores, se tornando mais amigável e acessíveis para um público não especializado. Na outra, a tendência crescente de maior regulação e controle sobre a parte “visível” da web – vamos falar mais disso daqui a pouco – deve empurrar uma parte dos usuários comuns, não criminosos, para essa região, atrás da privacidade perdida na Surface, trazendo consigo junto uma legião de curiosos.

Esse crescimento pode até gerar uma espécie de sistema “judicial” paralelo, para resolver os conflitos e disputas que com certeza irão surgir na Dark Web – lembre-se, é uma região sem polícia, advogados, juízes com outros sistemas comuns de resolução de questões. Alguns analistas preveem o surgimento de serviços “justiceiros” digitais, capazes de retaliarem com sequestro de arquivos, apagamento de hard drives e infecções com vírus. Apenas uma amostra de como a Internet seguirá, na prática, criando suas próprias leis e sua própria dinâmica conforme se desenvolve.

FUTURO NA MARCA DO PÊNALTI

A questão, no entanto, não é apenas o que pode ser feito – mas se algo deve realmente ser feito. Para muitos analistas, a Internet é um terreno intrinsecamente livre, com o anonimato e o discurso livre como características determinantes. Mudar isso seria praticamente acabar com a rede como conhecemos hoje e substituí-la por algo parecido, mas fundamentalmente diferente. Outra corrente, no entanto, diz que justamente essas características têm sido abusadas para subverter a troca de ideias e colocar em seu lugar fake news, discursos de ódio e divisão política.

Enquanto a discussão teórica corre solta, diversos governos têm se movimentado no sentido de promover uma maior regulamentação tanto da web propriamente dita quanto de suas ferramentas, como as redes sociais. A Europa tem liderado essa tendência. No ano passado, entrou um vigor um conjunto de normas chamado GDPR, que regulamenta de forma rígida o modo como empresas devem tratar os dados pessoais dos usuários da rede.

O bloco europeu também tem aplicado seguidas multas a empresas digitais – este ano, o Google recebeu uma pena de US$ 5 bilhões – por práticas monopolistas em seu mecanismo de busca. Os EUA, por outro lado, são historicamente contrários à regulamentação, vista por muita gente por lá como uma forma disfarçada de limitar a liberdade de expressão. No entanto, os desdobramentos das interferências digitais russas nas eleições têm feito aumentar a pressão por mudanças nesse sentido no Congresso.

Já outros países, como a China, passam longe desse problema: sua Internet é, mais do que regulamentada, completamente controlada pelo governo, que não apenas censura o acesso a conteúdo “estrangeiro” como também persegue cidadãos a partir de seus dados de navegação – o país tem a maior quantidade mundial de jornalistas e dissentes presos devido aos seus hábitos de navegação, segundo a Anistia Internacional. Rússia, Turquia, Irã e Hungria tem tomado medidas nessa mesma direção.

A Internet, ainda jovem, está em um momento de encruzilhada. As decisões que serão tomadas por governos e empresas vão pesar nas chances de que ela se torne uma senhora cheia de energia ou uma velhinha amarga, carcomida pelo tempo.

A palavra final, no entanto, tanto na forma de votos quanto de dinheiro, está com aquele que é o maior protagonista da rede: o cidadão. Segundo Tim-Berners Lee, “em momentos decisivos, as gerações que vieram antes de nós tomaram a frente e trabalharam juntas por um futuro melhor. Hoje, quando a web muda a cara do nosso mundo, cai sobre nós a responsabilidade de fazer com que a Internet seja utilizada para o bem comum”. Mãos à obra, portanto.

UMA BREVE HISTÓRIA DA INTERNET

1910 – Dois pesquisadores belgas – Paul Otlet (ao fundo na foto com equipe de arquivistas) e Henri La Fontaine (Prêmio Novel da Paz de 1913) – são os primeiros a imaginar uma biblioteca coletiva para todo o conhecimento humano, um projeto que eles batizam de Mundaneum.

1936 – Com base nas ideias anteriores, o escritor britânico HG Wells prevê o surgimento do Cérebro Mundial. “Qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, poderá ter em casa um projetor para examinar réplicas de livros ou documentos”, escreve ele. 

1951 – Mary Berners-Lee, mãe de Tim Berners-Lee, futuro criador da WWW, vai para a Universidade de Manchester trabalhar no Ferranti Mk.1, o primeiro computador de uso comercial do mundo.

1962 – Um dos cientistas do projeto de defesa ARPA propõe conectar computadores como uma forma de manter canais de comunicação ativas nos EUA no caso de uma guerra nuclear – as tradicionais linhas de telefone eram suscetíveis à radiação.

1969 – Primeira interligação e troca de mensagens entre computadores da ARPANET. A data é considerada o marco zero da Internet moderna.

1972 – Surgimento do correio eletrônico. Quatro anos depois, a rainha Elizabeth II mandaria o seu primeiro e-mail.

1973 – As redes americanas são interligadas com computadores na Inglaterra e na Noruega, dando alcance global para a rede mundial de computadores. Nasce o termo Internet.

1983 – Surgem os endereços eletrônicos no estilo atual, com formatos como .com, .edu, .gov e outros, substituindo a padrão numérico em uso até então.

1984 – O autor de ficção científica William Gibson, autor do livro Neuromancer, é o primeiro a usar o termo “ciberespaço”.

1985 – A empresa Americana Symbolics Computer é a primeira a registrar um domínio usando o endereço Symbolics.com.

1990 – Tim Berners-Lee revoluciona a Internet ao desenvolver itens como a linguagem HTML, o protocolo HTTP, os endereços URL, os servidores e o primeiro navegador, facilitando a integração entre as diversas redes numa plataforma mundial e a navegação pelo conteúdo online.

1992 – Aparecem os primeiros conteúdos multimídia, com áudio e vídeo. O termo “surfar na Internet” começa a se popularizar.

1994 – Surge o navegador Netscape, que logo se torna o primeiro grande programa padrão da rede, dando assim o passo final para a popularização da Internet.

1995 – Yahoo! acirra a concorrência entre os portais web e lança o primeiro motor de buscas de grande repercussão no mercado global.

1996 – Nokia lança o modelo 9000 Communicator, o primeiro aparelho celular com acesso à internet.

1998 – Os estudantes da Universidade de Stanford Larry Page e Sergey Brin lançam um novo sistema de busca revolucionário, que mudaria completamente o equilíbrio de forças entre os grandes players da jovem “pontocom”. Estava nascendo o Google.

2000 – Depois de um ciclo intenso de alavancagem na Nasdaq, o dia de março ficou conhecido como o marco do estouro da “Bolha da Internet”, que pulverizou bilhões de dólares em ações de empresas.

2007 – Apple lança iPhone, inaugurando uma nova era de conectividade por meio de smartphones em telas touch, beneficiando sobretudo o acesso à internet nos países em desenvolvimento. Em 2018, o Brasil atingiu a marca de mais de 50% da população com acesso à internet somente pelo aparelho celular.

2013 – Samsung declara o desenvolvimento do primeiro sistema de telefonia 5G com capacidade operacional no mundo. A tecnologia permite o acesso até 100 vez mais rápido à internet na comparação com o 4G, abrindo um novo cenário para a massificação da Internet das Coisas, consumo de entretenimento e interfaces de voice-commerce.

2020 – Previsão de início das operações do 5G no Brasil.

Texto: Marcelo Cabral

Imagens: Unsplash e Wikimedia.org