NFTs: já pensou em ser sócio de sua música preferida?

Phonogram.me quer valorizar artistas e transformar a indústria cultural com a venda de direitos autorais e ingressos registrados em blockchain

Publicado em 9 de agosto de 2021

Ter uma parcela dos direitos gerados por sua canção favorita, comprar ingresso vitalício para um festival de música, ou adquirir o LP número um da banda que você mais gosta. Tudo isso registrado digitalmente, e considerando a valorização dos ativos em vendas futuras. Essa é a proposta da Phonogram.me.

Recém-chegada ao mercado brasileiro, a startup pretende transformar a indústria cultural com a comercialização de obras musicais e produtos relacionados ao setor por meio dos NFTs (non-fungible tokens).

Os NFTs são uma espécie de bitcoin das artes digitais, com registro de todas as informações em blockchain.  

A iniciativa nasceu para valorizar artistas e produtores do mercado da música e garatir o pagamento dos direitos conexos de suas obras.

Muitos músicos perderam parte significativa da renda com o surgimento das plataformas de streaming. Ao mesmo tempo, ao possibilitar a venda de parte de um fonograma, a plataforma permite a valorização da música como obra de arte colecionável.  

“As artes plásticas e gráficas têm a facilidade de valorização por conta das galerias e museus. O NFT traz essa possibilidade de registro em blockchain, indicando que a música é única e tem dono”, diz Janara Lopes, sócia-fundadora da Phonogram.me, ao lado do músico e produtor musical Lucas Mayer. “É uma nova forma de renda, que pode revolucionar muitas coisas para os artistas”.

Novas possibilidades 

Uma das novas possibilidades abertas pelo NFT, diz Janara, é a de que o dono original da obra, que terá o nome registrado no blockchain, sempre ganhe um percentual sobre as revendas poesteriores, para sempre.

“A gente brinca que, principalmente os casos de festivais, o cambista trabalha a nosso favor. Porque, se comprar um monte de ingressos para revender depois, os donos do festival e daqueles NFTs vão receber parte do lucro”, diz.

Os idealizadores do projeto já investiam em criptografia e viram no NFT uma oportunidade de criar um marketplace voltado para música, já que a maioria das iniciativas com essa tecnologia é voltada para as artes gráficas. 

A startup chegou ao mercado em fevereiro com um investimento em torno de R$ 800 mil. O primeiro leilão foi realizado no início de julho, com a venda de ingressos vitalícios para o projeto Atroá, que reúne três tradicionais festivais de música do país: Bananada, em Goiás; No Ar Coquetel Molotov, de Pernambuco; e DoSol, no Rio Grande do Norte.

Foram disponibilizados cem cryptopass e em apenas uma semana foram vendidos doze ingressos, incluindo os principais pacotes, de R$ 5 mil e R$ 10 mil, sendo que o valor de saída para as vendas era de R$ 1,5 mil.

Atualmente, estão sendo leiloados na plataforma direitos conexos de músicas de Elsa Soares e dos Mamonas Assassinas, por exemplo.

A Phonogram.me já tem acordo com outros artistas para comercializar ativos pela ferramenta digital, e um dos planos da startup é a realização de projetos especiais envolvendo músicos e marcas.

Na entrevista a seguir, Janara fala mais sobre a plataforma e os planos com NFTs para o mercado cultural do país.

 1 – De músicos a advogados 

Além da publicitária Janara Lopes e do produtor e compositor musical Lucas Mayer, idealizadores do projeto, a Phonogram.me tem entre os sócios Guido Malata, que atua na área de tecnologia há muitos anos e é especialista em blockchain; e o publicitário Felipe Cury, que fica responsável pela área de comunicação.

A equipe voltada para a área jurídica é formada por nove advogados de dois escritórios de advocacia. 

Janara e Lucas também convidaram o músico e produtor André Abujamra para ser o embaixador da plataforma, já que ele tem conhecimento desse mercado e foi o primeiro artista a comercializar uma música em NFT no Brasil. “É um cara que tem propriedade para falar do assunto”, diz Janara.  

2 – Desburocratização do mercado  

Uma das facilidades proporcionadas pelo NFT ao mercado musical é relacionda aos pagamentos e à divisão de royalties de uma obra. Por ser realizada por meio de blockchain, qualquer transação envolvendo uma música ou outro ativo no segmento terá o percentual exato repassado aos seus donos, e tudo realizado automaticamente.

Os donos da Phonogram.me acreditam que as entidades que gerenciam esse mercado, como ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes), também utilizarão essa tecnologia, devidos às suas facilidades e à possibilidade de desburocratização do segmento de direitos autorais.  

3 – Potencial da tecnologia 

Além de beneficiar artistas e facilitar o pagamento de direitos autorais de músicas, o NFT tem grande potencial na área cultural como um todo, principalmente na comercialização de ingressos. O mesmo vale para o mercado esportivo, com a venda de cadeiras cativas para novas arenas.

Outro segmento com grande potencial apontado pela sócia da Phonogram.me é o de artes digitais. Ao contrário dos artistas plásticos que assinam suas telas, é muito difícil para um autor de obras virtuais garantir a autenticidade de seus trabalhos. “O NFT é uma grande ferramenta para essa mudança, e estamos apenas no começo dessa evolução do mercado”, diz Janara.  

4 – Artistas e eventos 

Além do projeto Atroá, reunindo três grandes festivais de música do país – Bananada (GO), No Ar Coquetel Molotov (PE), e DoSol (RN) –, a Phonogram.me tem acordos também para venda em NFT de conteúdos exclusivos da banda Mamonas Assassinas. Eles incluem os direitos conexos das execuções públicas da música “Pelados em Santos”; o vinil número um do álbum da banda, e o manuscrito inédito de uma música em inglês, descrita pelo cantor Dinho da maneira que ouvia, já que não sabia o idioma.

Outros artistas já com acordos com a Phonogram.me são: Elza Soares (para uma letra da década de 70, que nunca foi lançada), Hermeto Pascoal, João Donato e Baiana System, além de DJ’s e outros festivais de música.  

5 – Envolvimento de marcas 

A Phonogram.me tem conversado com várias marcas para a realização de projetos em NFT junto com artistas musicais. Segundo a sócia da startup, há muitas formas para serem exploradas dentro da plataforma. Elas vão de novos produtos a experiências junto ao público consumidor.

Uma das conversas, com uma fabricante de sandálias, envolve o desenvolvimento de um produto exclusivo, em parceria com um músico, que será entregue na casa dos compradores dos NFT’s.  

6 – Interesse do mercado 

As inovações implementadas no mercado e o potencial de crescimento da nova empresa já tem atraído a atenção de interessados em investir na plataforma. Mesmo com poucos meses de atuação, a Phonogram.me já foi procurada por seis investidores. O fato tem surpreendido os sócios, pois a procura tem ocorrido organicamente, sem a startup ter ido ao mercado.  

Texto: Fábio Vieira  

Imagens: reprodução e Yvette de Wit / Unsplash