Nova York foi só o começo

Ricardo Natale
Manhattan parou para ouvir o Brasil na semana passada. Estima-se que mais de 4.000 empresários, parlamentares, autoridades, investidores e jornalistas se reuniram em eventos, almoços, jantares, seminários, reuniões e conversas. Em todos os encontros, a mesma cena: o Brasil finalmente ocupando o lugar que sempre lhe coube na conversa global, não como coadjuvante, mas como protagonista.
Acompanhei a semana de perto. E o que ficou, além do networking e dos discursos bem formatados, foram duas certezas que precisam sair de Nova York e entrar nos conselhos de administração, nas reuniões de estratégia e nas decisões do dia a dia das lideranças brasileiras.
A primeira: os empresários e executivos que estiveram em Manhattan são, agora mais do que nunca, os agentes da transição mais importante que as organizações vão enfrentar nas próximas décadas. Os investimentos em data centers, infraestrutura digital e inteligência artificial dominaram os debates da Brazil Week, e não por acidente. Os temas giraram em torno das tendências digitais e do uso da inteligência artificial nas empresas para ampliar resultados. A IA não é mais pauta de tecnologia, é pauta de liderança. Quem entendeu isso em Nova York tem a obrigação de voltar ao Brasil e promover essa mudança dentro das suas organizações, criar espaços para conhecer, testar e aplicar IA nos processos e nas decisões. A transição de poder está acontecendo. A questão é quem vai conduzi-la.
A segunda certeza é sobre o Brasil como país. Em diversos painéis e conversas, os destaques de inteligência artificial, terras raras, transição energética e agronegócio foram os pilares para o desenvolvimento nacional. Não é coincidência que esses quatro temas se cruzem num único ponto, o Brasil tem o que o mundo mais precisa agora. Com uma matriz elétrica altamente renovável e uma trajetória crível de descarbonização, o país chega a 2026 com uma vantagem rara e a oportunidade histórica de deixar de ser apenas provedor de commodities para se tornar plataforma de valor, usando sua infraestrutura energética como base para atrair investimentos em tecnologia, inteligência artificial e data centers. Energia limpa e barata para alimentar servidores. Terras raras para construir os chips que movem a IA. Uma posição geográfica que o torna porta de entrada natural para os quase 700 milhões de habitantes da América Latina.
No almoço de quarta-feira, dia 13, os salões do The Plaza receberam um dos momentos mais comentados da semana. O Experience Club e o G4 Business reuniram 250 convidados num encontro que misturou ambiente de clube e conversa de alto nível. Tallis Gomes moderou uma conversa entre dois grandes investidores: o brasileiro Victor Lazarte e o americano Chris Buskirk. Como destaque, Victor trouxe ao palco um paralelo provocador: o crescimento da Anthropic — de laboratório de pesquisa a força central na redefinição da economia global — é um espelho das oportunidades que estão, agora, sobre a mesa de todo CEO. Não foi uma conversa sobre tecnologia. Era sobre abundância de caminhos e sobre a responsabilidade de quem lidera de não deixar essa janela fechar sem ter feito algo com ela.
Como ouvi bastante nos corredores da semana, o Brasil ganhou força pela capacidade de criar experiência, comunidade e conexão. Isso é verdade na nossa cultura. Precisa ser verdade também na nossa estratégia de negócios. As startups e empresas da nova economia brasileira que ainda olham apenas para dentro das fronteiras estão perdendo uma janela que não vai ficar aberta para sempre.
Nova York mostrou que o mundo está prestando atenção. A pergunta que fica é: o que o Brasil vai fazer com isso?

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