Sem categoria

Presencial, remoto ou os dois? Como as empresas estão se adaptando aos novos modelos de trabalho

Novos modelos de trabalho variam de presencial a totalmente flexível. Veja como empresas estão se adaptando às mudanças do mercado.

Por Denize Bacoccina

Não faz muito tempo – há apenas três anos – a rotina de trabalho era mais ou menos igual: sair de casa pela manhã, se locomover até a sede da empresa, encontrar os colegas, passar o dia trabalhando e retornar para casa à noite, inevitavelmente perdendo boa parte das horas de descanso no trajeto. De março de 2020 para cá, tudo mudou.

A proibição do trabalho presencial no começo da pandemia causou um estranhamento inicial, mas muitos se adaptaram perfeitamente e adotaram o modelo de forma permanente e nem pensam em voltar ao sistema anterior. Pesquisas mostram que vagas que exigem a presença física têm um apelo menor. Muitos profissionais, especialmente os mais jovens, nem consideram um trabalho que não seja flexível.

Enquanto começam a surgir novas formas de flexibilidade, como a redução da jornada para quatro dias por semana – existe até um movimento organizado para disseminar essa prática – algumas empresas sentem que a presença física é fundamental para o fluxo de ideias e a criação conjunta.

A Disney é uma dessas empresas. O CEO Bob Iger determinou que, a partir de primeiro de março, todos trabalhem presencialmente pelo menos quatro dias por semana. “Em um negócio criativo como o nosso, nada pode substituir a capacidade de se conectar, observar e criar com colegas que vem de estar fisicamente juntos, nem a oportunidade de crescer profissionalmente aprendendo com líderes e mentores”, escreveu Iger num e-mail aos colaboradores.

Por outro lado, pesquisas mostram que empresas com esta postura rígida têm tido mais dificuldades em contratar (veja quadro abaixo) e o mercado vive uma dissonância entre os desejos de empresas e trabalhadores. Pesquisa da empresa de recrutamento Robert Half mostra que o trabalho 100% remoto é desejado por 17% dos profissionais, mas oferecido por apenas 10% das empresas. Já o trabalho 100% no escritório, oferecido por 33% das empresas, é o preferido de apenas 6% dos profissionais. O híbrido, que agrada 77% dos profissionais, é oferecido por 57% das empresas.

 

 

No Brasil, o leque de novos modelos de trabalho é amplo e vai do 100% presencial ao 100% remoto, da adoção de ferramentas de controle de presença à liberdade total de jornada com monitoramento do cronograma de entregas.

Falamos com algumas empresas sobre como cada uma se adaptou a este novo momento do mercado.

Cisco

Bem antes da pandemia proibir o trabalho presencial nos escritórios, a Cisco já tinha implantado o conceito de anywhere office para um universo que atualmente soma mais de 85 mil profissionais em 27 países, 450 deles no Brasil. Como o nome diz, os colaboradores podiam trabalhar de qualquer lugar, usando o sistema Webex, desenvolvido pela empresa, com horários flexíveis e possibilidade de trabalhar fora da sede.

Embora já pudessem trabalhar de outros locais, metade das equipes ia pelo menos três vezes por semana ao escritório. Tudo mudou com a pandemia e hoje a ocupação dos espaços é muito menor. “As pessoas gostavam de ir ao escritório. E naturalmente isso foi mudando”, conta Amanda Pinheiro, consultora líder de People & Communities da Cisco Brasil, que hoje tem um sistema completamente flexível.

 

Amanda Pinheiro, consultora líder de People & Communities da Cisco Brasil

 

Tanto que a empresa nem controla de qual cidade as pessoas estão trabalhando ou cobra horários de trabalho específicos. “Existe a necessidade de resultado”, diz Amanda. “E cada um tem autonomia de bloquear a sua agenda quando precisar.” Para atender às novas necessidades, os locais estão sendo preparados para se tornarem espaços mais colaborativos. “Ninguém vai ao escritório para fazer reunião, responder e-mail. As pessoas vão para interagir”, diz Amanda. As reuniões precisam sempre prever que haverá pessoas no local e outras online.

Ferramentas que já existiam foram aprimoradas, tanto para permitir o trabalho assíncrono, quanto para manter os colaboradores engajados e com senso de pertencimento. Um desses instrumentos é uma reunião com o CEO global, que começou semanal durante a pandemia, e hoje acontece uma vez por mês, com a participação de todos, ao vivo.

É um sistema que veio para ficar, pelos benefícios tanto aos bem-estar das pessoas quanto ao ganho de produtividade. No Brasil, mais de 70% dos colaboradores se sentem mais produtivos no modelo híbrido. “Cada time tem uma dinâmica. Eu, por exemplo, não marco reuniões às sextas”, exemplifica.

 

Escritório da PwC, com espaços de trabalho em colaboração

 

PwC

Desde a volta aos escritórios, depois da pandemia, o sistema de trabalho adotado pela consultoria e auditoria PwC Brasil é o Wise Flex, implantado em maio de 2021, quando a empresa também mudou sua sede em São Paulo para um espaço muito menor. Na prática, apenas os poucos profissionais que trabalham no suporte, como tecnologia e facilities, precisam ir presencialmente. Os demais podem escolher: os que estão em projetos com clientes atendem à demanda deles, seja presencial ou remota. No restante do tempo, ficam livres para trabalhar em casa, nos escritórios da PwC ou onde quiserem. A maior parte tem escolhido o trabalho remoto.

A preferência pelo trabalho não presencial levou a uma mudança estrutural na empresa, que tem 4,7 mil funcionários no Brasil, dos quais pouco mais de 3 mil sediados em São Paulo e o restante em outros 15 escritórios pelo país. O espaço de 17 andares na Barra Funda, ocupado antes da pandemia, foi substituído por dois pisos no edifício B32, na Avenida Faria Lima, e por um andar de um prédio em Barueri.

A capacidade total caiu para 1,6 mil posições, e mesmo assim os espaços nunca ficam lotados. A ocupação pode chegar a 70% entre terça e quinta, mas nunca chega a 50% às segundas e sextas. Às segundas e quartas, a ida ao escritório da Faria Lima tem um atrativo: uma quadra de beach tennis alugada pelo PwC para ajudar na confraternização entre as equipes.

 

Tatiana Fernandes, sócia da PwC Brasil e líder de Pessoas

 

Todas as salas são preparadas para reuniões em grupo, com no mínimo quatro lugares, e nem mesmo os diretores têm salas individuais. “Isso cria maior proximidade entre as pessoas”, diz Tatiana Fernandes, sócia da PwC Brasil e líder de Pessoas. A demanda dos clientes por trabalho presencial também diminuiu. Antes, eles tinham salas preparadas para os consultores. “Agora, também reduziram seus espaços e preferem as reuniões online.”

Como uma empresa de consultoria e auditoria, a PwC já tinha as ferramentas de gestão que permitem medir a produtividade e as entregas sem controlar a jornada de trabalho. Com o trabalho remoto, essa flexibilidade aumentou. “Nós não controlamos a presença. As pessoas têm contrato de 40 horas semanais, como diz a legislação, mas podem escolher que dias e horários querem trabalhar, desde que cumpram as entregas combinadas com o gestor.” A flexibilidade agrada ao quadro da PwC, com idade média de 26 anos e composto por maioria de mulheres. São perfis com maior preferência, segundo pesquisas, pelo trabalho flexível.

A flexibilidade ainda permitiu à empresa atrair talentos de outras regiões do país e aumentar sua diversidade geográfica. “É muito bacana. Traz maior diversidade de cultura, de contexto”, diz Tatiana. O trabalho remoto também aumentou o engajamento, de 79% para antes de 2020 para 90%. Além disso, 87% dos ouvidos dizem que têm intenção de ficar na empresa nos próximos dois meses.

 

Escritório da Loggi, que adota modelo flexível

 

Loggi

Na Loggi, empresa de logística que tem 3 mil funcionários espalhados por várias regiões do Brasil e em Portugal, os modelos de trabalho presencial, remoto e híbrido foram adotados durante a pandemia e continuam. Se o modelo será definitivo, ainda está em aberto, na avaliação da empresa. “Seguimos buscando e explorando qual é o modelo que se adapta melhor à nossa estratégia de médio e longo prazo, os comportamentos que queremos promover, os desafios que vamos enfrentar e as preferências dos loggers atuais e futuro. O importante é permanecer com a escuta ativa e antenados com as tendências do mercado e internamente”, diz Mariana Cersosimo, Head de Cultura e Desenvolvimento da Loggi.

No modelo remoto, o trabalho é 100% executado remotamente e os encontros presenciais são esporádicos e previamente combinados. No sistema híbrido, as pessoas devem trabalhar no escritório de uma a quatro vezes por semana, de forma regular. “Passamos por algumas etapas até chegar a esses modelos, com análise conceitual, benchmarking no mercado e análise interna, com entrevistas e grupos focais com loggers e líderes”, diz Mariana.

A flexibilidade para morar em qualquer lugar do Brasil ou de Portugal também trouxe impactos positivos na produtividade. Por outro lado, o modelo presencial traz mais chances de interação e o contato frequente com as pessoas, facilitando a manutenção de um ambiente e cultura de confiança. “Cada modelo tem o seu benefício”, avalia Mariana.

Para preparar a equipe, depois de ouvir os colaboradores por meio de pesquisas internas para saber as preferências, a empresa desenvolveu e implementou um plano de capacitação, com temas como cultura remota por padrão, comunicação e colaboração, produtividade e bem-estar, liderança e gestão remota.

 

Espaço da CI&T, já adaptado para o trabalho flexível

 

CI&T

No modelo flexível adotado pela CI&T após a pandemia, o Work Ready, todos os profissionais podem solicitar à liderança o regime de trabalho que consideram melhor para o seu projeto. Dentro das possibilidades de cada função, podem escolher entre 100% presencial, híbrido com presença alguns dias por semana no escritório ou totalmente remoto. “Damos oportunidade de autonomia para os colaboradores. As pessoas são diferentes e trabalham de formas distintas. Nesse modelo, podem trabalhar como, onde e quando preferem trabalhar, dentro da sua realidade ou do horário que consideram mais produtivo”, diz Vanessa Togniolli, Head of People Innovation da CI&T.

A empresa, especialista digital global e parceira de mais de cem grandes corporações e empresas em rápido crescimento é uma nativa digital e já oferecia o modelo flexível antes da pandemia. Mas foi agora que ele de fato foi adotado em larga escala pelos colaboradores. “Sempre incentivamos a flexibilidade para todas as nossas pessoas. Mas era inegável que a presença física era um fator muito importante na manutenção da nossa cultura até então”, diz Vanessa.

Com 6,4 mil colaboradores, a CI&T tem sede em Campinas e escritórios em São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, além da presença em nove países. O diferencial da CI&T em relação a outras empresas que também adotam o modelo híbrido, diz Vanessa, é que mesmo profissionais com contrato de trabalho presencial não têm dias fixos para ir ao escritório.

O modelo foi construído a partir de pesquisas com os colaboradores. Para o futuro, a empresa acredita que os dois sistemas, digital e físico, devem andar juntos, e está aberta para se adaptar a novas necessidades que surgirem. “O assunto está sempre em pauta e a possibilidade de mudanças é um dos alicerces de uma empresa inovadora e que prioriza o ser humano”, diz Vanessa.

Gupy

Remote first é o modelo adotado pela peopletech Gupy, empresa que oferece soluções de RH para empresas e tem 650 colaboradores espalhados por todo o Brasil. A jornada de trabalho é de cinco dias por semana, e na sexta-feira o expediente se encerra na hora do almoço – o short friday.

É uma mudança e tanto em relação ao sistema anterior à pandemia, quando todos os gupiers, como são chamados, trabalhavam no escritório da empresa, em São Paulo, com exceção de alguns poucos profissionais que moravam em outras cidades do Estado.

Atualmente, boa parte das equipes está sediada no Nordeste, já que a empresa adquiriu, em outubro de 2021, uma startup do Maranhão, a Niduu. O trabalho remoto permitiu ainda a contratação de profissionais em vários Estados do país, o que resulta numa grande diversidade regional e troca de culturas e costumes no ambiente de trabalho.

E como manter a cultura da empresa num modelo totalmente à distância? A existência de muitos rituais em equipe no escritório foi um dos questionamentos da Gupy em relação à adoção do trabalho remoto de forma definitiva, pois a empresa não sabia se o engajamento seria mantido com as equipes distantes fisicamente. A solução foi criar rituais que são feitos online, como o Dia T, eventos trimestrais com todos os gupiers para falar da estratégia, metas e próximos passos; o plantão Gupy, uma reunião rápida, com microfone aberto, para comemorar grandes conquistas; além das reuniões quinzenais, alternando temas ligados à performance e estratégia da empresa e gente e gestão, com espaço para responder dúvidas da equipe e fazer alinhamentos.

Embora possam trabalhar de casa – ou de onde quiserem – os colaboradores da Gupy contam com os espaços de coworking da plataforma Woba (antiga BeerOrCoffee), espalhados pelo país. Na avaliação da empresa, o trabalho remoto contribui para o aumento da produtividade e do bem-estar dos colaboradores, comprovado por pesquisas internas, já que o tempo que era usado em deslocamento pode ser usado para outras atividades.

 

  • Aumentar texto Aumentar
  • Diminuir texto Diminuir
  • Compartilhar Compartilhar

Deixe um comentário