Quatro catalizadores para o afroempreendedorismo

Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, diz que o acesso aos meios de comunicação e o letramento digital empoderam a população negra

Publicado em 5 de Maio de 2021

O processo de mobilidade social da população negra no Brasil passa pelo empreendedorismo segmentado há 130 anos, desde a abolição da escravatura. Na categoria microempreendedor individual as mulheres negras são maioria, de acordo com dados do Sebrae, principalmente porque as ações afirmativas dentro das empresas para inclusão desta população no meio corporativo ainda são recentes. Mas apesar dos avanços, os desafios continuam grandes, principalmente com a transformação digital da sociedade. 

“Os micro empreendedores têm sofrido muito com o aspecto tecnológico. É preciso investir em um processo de letramento digital: garantir que eles se apropriem destes códigos para fazer a transição do analógico para o digital”, diz Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, a maior feira de cultura negra da América Latina, e CEO da aceleradora PretaHub. 

Criada por Adriana há pouco mais de 20 anos, a Feira Preta atua diretamente com o “Black Money”, o dinheiro produzido por negros e negras e que circula entre negros e negras. E não é pouco dinheiro. Levantamento do Instituto Locomotiva, de 2018, mostra que a população negra movimenta mais de R$ 1,7 trilhão por ano. 

Voz importante no empreendedorismo, Adriana foi homenageada, em 2017, junto aos atores Lázaro Ramos e Taís Araújo, como uma das 50 pessoas negras com menos de 40 anos mais influentes do mundo, segundo o Mipad, premiação mundial reconhecida pela ONU. Em 2019, venceu a categoria Troféu Grão do Prêmio Empreendedor Social promovido pela Folha de S. Paulo, com a aceleradora Pretahub, um hub de criatividade, inventividade e tendências ligadas ao empreendedorismo negro no Brasil. 

Dentro desta plataforma de aceleração, a Preta Hub, existe o Afrolab, que trabalha com os processos de criação, produção, distribuição e consumo para apoiar o afroempreendedor, desde a concepção do produto até o escoamento do processo de produção. 

“No ano passado, rodamos doze Estados fazendo este programa de aceleração com mais de 250 mulheres negras. Além do processo de acompanhamento de criação do produto e da identidade, ensinamos a posicionar e identificamos mercados de escoamento – a Feira Preta é um destes mercados, mas existem pop-ups em shoppings e vendas online, entre outros”, afirma Adriana. 

Durante participação no evento online Experience Lab – O Futuro da Sociedade Digital, Adriana Barbosa apontou caminhos para o desenvolvimento do empreendedorismo da população negra no Brasil e para a criação de uma sociedade mais inclusiva e com equidade racial. “Para que a gente conquiste um ecossistema inclusivo, é preciso ter uma visão sistêmica, que reúna diversos atores: governos, políticas públicas, universidades, iniciativa privada e empresariado”, diz.

Veja alguns dos principais insights da palestra de Adriana Barbosa:  

1 – Comunicação é empoderamento

“Existem muitas construções lideradas pela população negra que não estão no campo midiático. Muitas pessoas que têm influenciado políticas públicas, têm realizado impactos reais na sociedade, mas não são conhecidos. Precisamos ressignificar a comunicação. Este é um ponto-chave para dar visibilidade a mais pessoas. Sempre gosto de olhar as coisas de uma perspectiva sistêmica e a comunicação é um dos elementos mais importantes do processo de empoderamento de qualquer população. Quando colocamos a população negra contando as suas potências e não só a suas vulnerabilidades, isso permite que muito mais gente possa contar as suas próprias histórias. Um caminho para a transformação são os veículos de comunicação abrirem mais espaço para estas histórias, democratizarem os processos e os códigos da comunicação para que a população negra possa se apropriar deles e ter maior representatividade, mas com a proporcionalidade que equivale a mais de 50% de negros na população do Brasil”. 

2 – Conhecer o legado

“Infelizmente não tivemos a oportunidade de aprender desde crianças qual é o real legado da população negra no Brasil, porque foram os povos africanos que vieram fazer o processo de construção do país. É importante conhecer a perspectiva tecnológica, intelectual, de sistemas refinados no processo de construção, que foram trazidos pelos africanos, e isto não aprendemos na escola. Com o tempo, a comunidade negra foi trazendo isto à tona e políticas públicas criaram a obrigatoriedade na rede de ensino da cultura afro-brasileira e da cultura indígena, com a possibilidade de contar estas histórias reais. A população negra é maioria, com 56% da população, a segunda maior população negra no mundo, só atrás da Nigéria, que é um país africano. E, para chegar a estes 56%, não é porque nasceram mais negros. É porque passamos por um processo de autodeclaração, com orgulho da nossa identidade, da nossa condição de ser negro. Quando isso acontece muda muito as dinâmicas, os processos de equidade racial nas empresas, o processo de autodeclaração para concorrer às cotas nas universidades e a questão do mercado”. 

3 – Black is Money

A pesquisa a Voz e a Vez – Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo, encomendada ao Instituto Locomotiva pelo Instituto Feira Preta, em 2018, mostra que a população negra movimenta, em renda própria, R$ 1,7 trilhão por ano. Se os consumidores negros formassem um país, seria o 11º país do mundo em população, com 114,8 milhões de pessoas, e o 17º país em consumo. Apesar disso, os negros são sub-representados na comunicação – mais de 90% das campanhas publicitárias têm protagonistas brancos. “São muitos os legados que a comunidade negra mostra e traz para o país. O que o Brasil precisa é olhar as complexidades que existem e assumir que o país foi construído com base no racismo, mas também construído com um legado muito importante. A partir daí, nós trazemos uma narrativa muito mais potente de reconhecimento desta população que fez tanta coisa”, afirma Adriana. 

4 – Visão sistêmica

Para a construção de um ecossistema mais inclusivo, é necessário um pensamento sistêmico de políticas públicas, acesso ao mercado, veículos de comunicação, entre outros agentes. “Precisamos falar de infraestrutura tecnológica para os pequenos empreendedores. Ter um processo de letramento digital para que eles se apropriem destes códigos digitais para poder fazer esta transição do analógico para o digital. São várias questões que precisam ser olhadas de maneira sistêmica e estruturante, porque o processo de desigualdade é sistêmico e estruturante. Não tem como adotar as mesmas medidas para grupos diferentes, para poder redesenhar este ecossistema empreendedor”, diz Adriana.

Texto: Andrea Martins

Imagens: Reprodução