2019, o ano em que os IPOs voltaram

2019, o ano em que os IPOs voltaram

Ofertas têm maior volume desde 2002 e chegam a R$ 78,3 bi, mas B3 perde terreno para bolsas americanas

Publicado em 18 de dezembro de 2019

Se para a economia como um todo 2019 ficará marcado pela tímida recuperação do PIB e geração de empregos, nos arredores da Faria Lima e a da 15 de Novembro o que não faltou foi papel picado, sirene e altes doses de euforia.

Afinal, a avenida que é novo corredor financeiro e sede dos principais bancos de investimento do país, e a rua no centro velho da capital paulista, onde fica a Bolsa de Valores (B3), acompanharam de camarote a recuperação do mercado de capitais. A cereja do bolo foi vista à distância, com o IPO da XP Investimentos na Nasdaq em 11 de dezembro, quando alcançou o impressionante valor de mercado de US$ 33,6 bilhões.

Há muito tempo empresas não encontravam tanto espaço e apetite dos investidores para abrir capital ou, no caso daquelas já listadas no pregão, vender novas ações. 

Ao longo do ano até novembro, as companhias levantaram R$ 78,3 bilhões em 36 ofertas, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). É o maior volume financeiro desde 2002, quando foi iniciada a série histórica, e supera até mesmo o ano de 2007, quando as aberturas de capital se popularizaram no país.

“Os IPOs são uma espécie de termômetro da economia e do que se espera que virá”[autor]Rafael Panonko, chefe de análise da Toro Investimentos[/autor]

“As ofertas retratam o cenário de expectativa de crescimento econômico, que deve se concretizar em 2020.”

Em sua avaliação, o dinheiro das operações, além de reforçar o caixa das empresas para futuras aquisições e investimentos, ajudou muitas companhias a melhorar sua estrutura de capital, pagando dívidas mais caras, oriundas da crise econômica.

Especialistas ouvidos pelo Experience Club afirmam que o mercado deve continuar aquecido, impulsionado pelo ambiente de queda de taxas de juros, que fortalece a necessidade de busca por investimentos de maior risco.

“Os investidores estão receptivos e têm comprado boas histórias de crescimento”, observa Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante Investimentos.

Ele menciona Magazine Luiza, Hapvida, Banco BMG e Vivara como exemplos de empresas cujas operações em Bolsa foram bem-sucedidas. 

Bevilacqua projeta uma nova leva de operações para o próximo ano. Isso porque, além das que já estão no forno, à espera da próxima janela, há também ofertas represadas.

“Tem sido cada vez mais comum que fundos de private equity e venture capital, que antes saíam das empresas investidas na primeira oportunidade, façam novas rodadas de investimento antes de se retirar por meio de operações secundárias na Bolsa.”

O movimento do mercado acionário tem agitado também os escritórios de advocacia. Sempre bastante ativo no segmento, o TozziniFreire Advogados já trabalha em operações que devem chegar à Bolsa em 2020.

“O mercado de ações deve continuar aquecido, em especial no segundo semestre. Principalmente se, no primeiro trimestre do ano, a economia der boas sinalizações”, projeta Fabíola Cavalcanti, sócia da banca.

EUA ROUBAM A CENA

Com a volta dos IPOs e o Ibovespa atingindo e superando, pela primeira vez na história, a marca dos 100 mil pontos, a B3 tem motivos para comemorar. Mas nem só de boas notícias vive a Bolsa.

O crescente número de empresas fechando o capital e o recente movimento de companhias brasileiras que fazem IPO nas bolsas americanas acenderam sinais de alerta.

O ápice desse último movimento rumo ao exterior foi a abertura de capital da XP na Nasdaq, que somou US$ 2,2 bilhões no início de dezembro.

“A Bolsa precisa ter mais agilidade para perceber as novas demandas do mercado. No atual ritmo, tenho dúvidas se essa reação virá à altura”[autor]Fabíola Cavalcanti, sócia de mercado de capitais do TozziniFreire[/autor]

Outro advogado, Ronaldo Assumpção, sócio do Miguel Neto Advogados, tem postura mais otimista em relação à exportação de IPOs.

“Não enxergo como uma ameaça. Acho positivo e digno de comemoração que empresas brasileiras tenham conseguido melhor precificação listando seus papéis nos Estados Unidos”.

“De todo modo, a B3 pode estudar formas de facilitar e estimular o acesso, de maneira a dar protagonismo ao mercado”, pondera.

Questionada sobre o tema, a B3 diz que permanece dedicada a uma agenda de medidas que entende ser necessárias para o desenvolvimento e atratividade do mercado de capitais.

“Dentre as principais iniciativas em 2019, vale citar algumas já implementadas, como o tratamento confidencial do registro de ofertas públicas e liberação do registro de ofertas públicas durante o “black out period”, e a dispensa, por parte da B3, do acionamento da Comissão de listagem para Ofertas/Migrações abaixo de R$ 500 milhões no Novo Mercado e Nível 2”, exemplifica Flávia Mouta, diretora de Emissores da Bolsa brasileira.

Texto: Luciano Feltrin

Ilustração: Reprodução | Experience Club