Imunes à China, IPOs contaminam B3 com otimismo

Imunes à China, IPOs contaminam B3 com otimismo

Selic em queda leva empresas a vender ações com preços no topo, apesar dos riscos Coronavírus e retração na indústria

Publicado em 5 de fevereiro de 2020

Os investidores começam o ano cheios de apetite por novos ativos de Renda Variável. Uma prova disso é que, mesmo diante da apreensão provocada pela epidemia do Coronavírus e os dados recentes de desempenho ruim da indústria, empresas brasileiras mantiveram o cronograma de abertura de capital neste início de 2020.

Mais do que isso: os papéis dessas companhias registraram alta demanda. Na prática, isso significa que as operações foram bem-sucedidas e os participantes toparam pagar o valor máximo estipulado por ação para entrar no negócio.

Os IPOs de duas empresas que chegaram à Bolsa nesta semana – Locaweb e Mitre –, ilustram bem esse movimento.

Puxada pelo interesse de fundos que aplicam no segmento e enxergam nela grande potencial de crescimento e consolidação setorial, a companhia da área de Tecnologia vendeu seus papéis no topo da faixa proposta: R$17,25.

Com isso, sua operação somou R$ 1,3 bilhão. Desse total, R$ 575 milhões – parte primária, novas ações da oferta , vão direto para o caixa e podem ser utilizados, por exemplo, em futuras aquisições de concorrentes.

O restante diz respeito à venda de ações já existentes, a parte secundária da oferta, na qual os atuais sócios se desfazem de uma fatia dos papéis que detêm e embolsam os recursos.

Outra que abriu seu capital em alta foi a Mitre. Suas ações estrearam na B3 na quarta-feira valendo R$ 19,30, preço máximo sugerido ao longo da oferta.

Na operação primária – emissão de novas ações –, a construtora levantou R$ 958 milhões e está com o caixa reforçado para surfar a próxima onda de expansão do mercado imobiliário.

Segundo analistas e especialistas ouvidos pelo Experience Club, as companhias conseguiram acessar a Bolsa com sucesso em meio à forte turbulência internacional por uma combinação de fatores.

O principal deles é o aumento do interesse de investidores locais pelo mercado acionário.

O fenômeno, irreversível de acordo com essas fontes, tem relação direta com a queda sustentável da taxa básica de juros.

Na primeira reunião do ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) deu mais um empurrãozinho nessa direção, reduzindo a Selic de 4,50% para 4,25% ao ano, menor patamar da história.

“A alta demanda por IPOs e follow-ons é reflexo direto da ida do investidor doméstico para a Bolsa e mostra que não somos mais tão dependentes do investidor estrangeiro quanto antes. Isso é ótimo, pois significa que não ficamos mais apenas a reboque da liquidez e do ambiente externos”, acredita Daniel Herrera, analista de investimentos da Toro.

Somente em janeiro, os investidores estrangeiros tiraram cerca de R$16 bilhões da B3. Em alguns casos, por terem de calibrar suas carteiras e posições ou mesmo deixar mercados considerados de risco, como o brasileiro.

“É preciso considerar que, muitas vezes, o estrangeiro é obrigado a sair. Alguns fundos, por cláusula de seu próprio estatuto, não podem colocar dinheiro em mercados de países sem grau de investimento”, exemplifica Fábio Galdino, chefe de renda variável da Vero Investimentos.

Ele avalia que, “Enquanto isso, o investidor interno se aproveita da percepção de que, não só pela queda dos juros, é momento de comprar Bolsa”.  

PREÇO DA QUALIDADE

Outro fator que tem proporcionado estreias bem-sucedidas na Bolsa é a percepção, por parte dos compradores de ações, da boa qualidade das companhias que chegam ao pregão.

“Claro que o momento positivo macro (queda de juros) é relevante. Mas não é só porque o investidor decide ir para a Bolsa que ele vai comprar qualquer ação ou, principalmente, pagar caro. Se está comprando pelo teto, é porque quer participar de IPOs de empresas cujos fundamentos considera de excelência, de líderes em seu segmento de atuação”, observa Adriano Gomes, professor de Finanças da ESPM e Sócio-Diretor da Methode Consultoria Empresarial.

Outro especialista em Finanças, Fábio Gallo, professor de PUC/SP e FGV-SP, vai na mesma direção e pondera que, ao contrário de outras janelas de mercado, as empresas estão se preparando melhor para ir à Bolsa.

“Hoje, se não for por um cenário drástico, as companhias dificilmente recuam de um IPO. A abertura de capital é fruto de um trabalho de governança de anos, o que tem sido bem avaliado e recompensado pelos investidores”.

Texto: Luciano Feltrin

Imagens: FreePiks