Tecnologia

5 fatores que impedem a IA de escalar nas empresas

Monica Miglio Pedrosa

A inteligência artificial já é uma realidade no mercado corporativo, mas o impacto nos negócios ainda é marginal. Entre projetos-piloto, automações e uso efetivo da tecnologia nas organizações, apenas 12% das empresas são líderes reais em maturidade de IA operacional, potencializando as empresas para avançar para o estágio de autonomia orquestrada por humanos. Em 2025, 42% dos projetos com IA foram abandonados por falta de transformação operacional e 80% das empresas não reportaram impacto material nos resultados do negócio.

Os números foram apresentados durante a sétima edição do “The Future Uncovered”, evento promovido pela NTT Data na manhã de hoje, que discutiu o conceito de autonomia orquestrada por humanos. A ideia é que as organizações usem sistemas autônomos para executar a operação e preparar a companhia para escalar, com a intenção e a governança definidas pelos humanos.

Na visão apresentada por Bruno Magalhães, head de Business Process Services, e Daniela Griecco, head de Data & Analytics da NTT Data, o futuro das empresas não se restringe à adoção de novas ferramentas, mas na capacidade de transformar a operação de ponta a ponta. Mas existem alguns fatores que ainda impedem essa virada. Vamos conhecê-los a seguir:

1) O mundo mudou, mas a forma das empresas operarem não

A volatilidade deixou de ser exceção e passou a fazer parte do cotidiano das empresas. Pandemia, mudanças no comportamento dos consumidores, novas regulamentações, criação acelerada de produtos, imediatismo nas relações e instabilidade econômica e geopolítica pressionam os negócios a responderem em uma velocidade cada vez maior.

O problema, segundo Daniela, é que muitas organizações ainda operam com estruturas estáticas, complexas e engessadas, especialmente aquelas com histórico de fusões, aquisições e sistemas legados, como bancos, empresas de telecomunicações e de bens de consumo.

Esse descompasso cria uma ineficiência estrutural. Empresas desenhadas para eficiência estável tentam competir em um ambiente que exige recalibração contínua. Para a NTT Data, é preciso sair da lógica reativa, baseada em planos de contingência e respostas depois que o problema acontece, para um modelo em que a própria operação consiga se retroalimentar, identificar falhas e ajustar rotas de forma autônoma. Isso também exige a evolução do papel da gestão e das equipes, que deixam de apenas operar processos para governar sistemas capazes de aprender, decidir e se adaptar com supervisão humana.

As empresas foram desenhadas para eficiência estável, não para recalibração contínua.”

Daniela Griecco, head de Data & Analytics da NTT Data

Daniela Griecco, head de Data & Analytics da NTT Data
Daniela Griecco, head de Data & Analytics da NTT Data

2) A mentalidade ainda é melhorar o que já existe, não transformar

A discussão sobre como as empresas vão operar em 2030 depende de como elas conseguirão utilizar tecnologias como IA, blockchain, IoT, gêmeos digitais e edge computing em sua operação. O problema, na visão de Bruno, é que as empresas têm mentalidade de usar a tecnologia para melhorar processos já existentes. Eles até podem ser automatizados e ganhar certa previsibilidade e resiliência, mas isso não significa mais competitividade.

Para a NTT Data, a grande chave para a virada é transformar a cadeia de ponta a ponta. Em vez de usar IA apenas para otimizar um fluxo já existente, o desafio é repensar como toda a operação funciona, sempre com o ser humano no centro da orquestração. É essa mudança que permite sair de ganhos incrementais para novas capacidades de negócio, como seguros calculados em tempo real a partir do uso individual do veículo, cadeias de suprimento capazes de recalibrar produção e preços diante de rupturas globais não previstas, ou modelos de hiperpersonalização em escala.

Ainda temos a mentalidade de melhorar a operação que já existe. A grande chave é transformar ponta a ponta da cadeia.”

Bruno Magalhães, head de BPS da NTT Data

Bruno Magalhães, head de Business Process Services da NTT Data
Bruno Magalhães, head de Business Process Services da NTT Data

3) A IA ainda é aplicada em iniciativas isoladas, não na orquestração de valor

A passagem para um modelo operacional autônomo não acontece de uma vez. Na visão apresentada pela NTT Data, ela percorre quatro estágios. O primeiro é o da automação assistida, com RPA e automação de tarefas isoladas, normalmente medido pela redução de tempo. O segundo é o dos copilotos de IA generativa, que apoiam criação, análise e produtividade, mas ainda sem autonomia para a decisão final. O terceiro é o dos agentes especializados, com autonomia restrita a domínios fechados, uso ativo de contexto e integração com ferramentas via APIs.

O salto mais relevante vem no quarto estágio, o dos sistemas multiagente orquestrados, quando a IA deixa de atuar apenas em pontos específicos e passa a compor uma força de trabalho digital híbrida. Nesse modelo, a orquestração humana se concentra em valor, mitigação de riscos, qualidade e experiência do cliente. É essa evolução, de tarefas e automações isoladas para sistemas interdependentes, que permite à IA sair da produtividade localizada e se tornar parte da arquitetura operacional da empresa.

4) Falta governança para dar autonomia sem perder controle

A autonomia orquestrada por humanos não pressupõe uma IA livre para decidir tudo sozinha. A tecnologia pode executar, aprender e processar em escala, mas precisa operar dentro de regras de negócio, critérios de decisão, mecanismos de rastreabilidade, auditoria e reversibilidade definidos por humanos. Sem essa camada de governança, a autonomia deixa de ser um ganho operacional e passa a representar um risco para a empresa.

Segundo recomendação da NTT Data, o nível de autonomia da IA deve variar conforme a criticidade da decisão. Em atividades de baixo risco, como geração de relatórios internos, respostas a dúvidas frequentes ou resumos, a autonomia pode ser plena. Em processos de risco médio, como aprovações financeiras de baixo valor ou triagem de tickets B2B, a supervisão humana pode acontecer por amostragem. Já em decisões de alto risco, como contratos críticos, temas regulatórios, saúde ou segurança, a aprovação humana antes da execução continua sendo obrigatória. A empresa autônoma, portanto, não é aquela que elimina o humano da operação, mas a que sabe onde sua intervenção é indispensável.

5) As pessoas ainda não foram preparadas para operar no novo modelo

O trabalho humano não desaparece com a autonomia, muda de natureza. Se, nos modelos atuais, muitas pessoas ainda executam, conferem e coordenam tarefas repetitivas, em operações mais autônomas elas passam a assumir papéis de maior valor, como definir regras, treinar algoritmos, supervisionar decisões críticas, auditar resultados e garantir que a tecnologia opere dentro dos limites definidos pelo negócio.

Essa transição exige uma agenda consistente de reskilling, em todas as camadas da empresa. A média gerência é uma camada decisiva para essa transição, porque conecta estratégia à execução e lidera diretamente os times que vão conviver com os algoritmos no dia a dia. Para escalar IA, esses gestores precisam deixar de ser apenas cobradores de eficiência e passar a atuar como arquitetos de equipes híbridas, capazes de orquestrar pessoas e tecnologia.

Sem essa preparação, a IA tende a encontrar resistência, medo e baixa adesão, especialmente quando profissionais não entendem como seu papel será ressignificado, pelo que serão medidos ou como poderão crescer em uma operação cada vez mais autônoma.

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