A fórmula mágica de John Mackey para reter talentos

Monica Miglio Pedrosa
Ele foi um dos empresários que mais ajudaram a transformar a relação dos americanos com a comida saudável. Também colocou o cliente genuinamente no centro da jornada, em uma época em que boa parte das empresas ainda priorizava apenas o lucro. Não por acaso, foi cofundador do movimento Capitalismo Consciente, defendendo uma visão de negócios baseada em propósito e na geração de valor para todos os stakeholders.
John Mackey, fundador da Whole Foods, rede de supermercados voltada a produtos orgânicos e naturais, e hoje à frente da Love.Life, empresa de saúde e bem-estar que otimiza a longevidade por meio da alimentação vegetariana, de medicina funcional e de terapias, foi o speaker internacional em destaque no primeiro dia do VTEX Day.
Entrevistado por Mariano Gomide de Faria, cofundador da VTEX, no palco principal do evento, Mackey falou sobre os motivos que o levaram a vender a Whole Foods para a Amazon, em 2017, por US$ 13,7 bilhões, compartilhou conselhos para lideranças e falou sobre as duas fórmulas imbatíveis para reter talentos nas empresas. Leia a seguir os principais insights.
Fundador dá o tom da cultura
A cultura exige atenção constante do fundador. Para ele, essa é uma tarefa do dono do negócio, que não pode ser delegada completamente ao RH. Mackey comparou a cultura a um jardim, que precisa ser regado e cuidado continuamente. Ele defende que um líder precisa se tornar um ser humano melhor para ser um melhor gestor.
Quem trazer para a equipe
Para Mackey, o líder não deve se cercar de pessoas parecidas com ele. Para montar um bom time é preciso, primeiro, reconhecer honestamente as próprias forças e fraquezas. Só então, ele deve trazer pessoas que complementem suas fraquezas. Reconheceu que ele próprio nunca foi tão forte em operação, por isso trouxe excelentes profissionais para tocar isso. “Ao montar equipes não tragam quem reforce seu ego, mas quem faça seus pontos fortes brilharem ainda mais e, ao mesmo tempo, compensem suas fraquezas”, resumiu.
Cliente em primeiro lugar — mesmo
Quando afirma que a empresa deve considerar todos os stakeholders, isso não significa colocá-los no mesmo patamar. “De longe, o mais importante é o cliente, porque a empresa existe para criar valor para ele”, disse. Ele acredita em uma espécie de ciclo virtuoso, em que funcionários engajados atendem melhor, clientes satisfeitos fortalecem o negócio e os investidores também se beneficiam. Diante de qualquer decisão, o critério central deve sempre ser o mesmo: “Isso é o melhor para os clientes?”
Lucro é indispensável
Mackey reconhece que lucro é indispensável para a sobrevivência de qualquer empresa, mas insiste que ele não pode ocupar o centro da estratégia. “O problema é quando o lucro se torna o propósito do negócio”. Ao virar um fim em si mesmo, a companhia começa a se desviar daquilo que realmente sustenta o crescimento, a criação de valor ao cliente. Nesse processo, a empresa pode passar a enganar os clientes, pressionar funcionários e fornecedores e causar impactos em toda a cadeia. “Wall Street pensa estritamente em dinheiro. É aí que o capitalismo sai dos trilhos.”
Amazon ampliou escala, sem apagar a cultura
A decisão de vender a Whole Foods não foi apenas financeira, mas estratégica. A rede precisava reduzir preços, algo difícil de sustentar em empresas de capital aberto sob pressão dos investidores. Com a Amazon, foi possível reduzir preços nos dois primeiros anos após a aquisição, acelerar a operação de delivery e aumentar salários dos colaboradores, investindo no valor da marca no longo prazo. Ao mesmo tempo, ele faz questão de destacar que a Amazon soube preservar a identidade da marca. Os “campeões da cultura” são colaboradores treinados para aprofundar propósito, valores e princípios de liderança, que atuam até hoje na empresa.
Varejo e tecnologia serão inseparáveis
Ao falar sobre o futuro do varejo, Mackey aposta em uma convergência entre empresas de tecnologia e varejistas tradicionais. “Não dá para ser uma rede de varejo sem ser, ao menos em parte, uma empresa de tecnologia”, disse. Para ele, a Amazon já transformou o varejo mais do que qualquer outro negócio nos últimos 50 anos, mas a inteligência artificial deve produzir um impacto ainda maior, em um cenário difícil de prever. “O mundo está mudando mais rápido agora do que em qualquer outro momento da minha vida.”
Supply chain como ‘freio’
Quando Mariano perguntou a Mackey porque o varejo alimentar é menos facilmente “disruptado” do que outros setores, ele resumiu a resposta em duas palavras: supply chain. Para ele, é justamente a complexidade dessa engrenagem que mantém os supermercados fortemente ancorados em dinâmicas locais e culturais. Ao falar da própria experiência da Whole Foods no Canadá e no Reino Unido, ele diz que a empresa teve de recomeçar sua cadeia de suprimentos do zero nesses locais, porque relações com fornecedores, escala e logística de produtos frescos não se transferem automaticamente de um mercado para outro.
A IA não destruirá o trabalho
Para Mackey, os mercados mais promissores continuam sendo aqueles conectados ao que as pessoas sempre vão querer. Entretenimento, saúde e beleza são, na sua visão, três setores que entregam valor aos desejos das pessoas, por isso sempre haverá espaço para novos negócios. “As necessidades e desejos humanos são infinitos e cada nova tecnologia traz novas maneiras de atendê-los”, concluiu, afirmando que empreendedores que enxergam necessidades ainda não atendidas continuarão surgindo.
Propósito e amor retêm pessoas
Ao falar da relação com os colaboradores, Mackey resume sua visão em uma fórmula incomum no mundo corporativo. “As pessoas desejam duas coisas, propósito e amor. E a Whole Foods fornece isso a elas”. Para ele, propósito significa fazer com que cada pessoa sinta que seu trabalho está fazendo diferença e ajudando outras pessoas. Amor significa criar um ambiente em que o colaborador perceba que a empresa se importa com ele e que seus colegas também se importam. Na leitura de Mackey, foi essa combinação que ajudou a Whole Foods a construir uma cultura admirada e a manter equipes mais leais ao longo do tempo. “Por que alguém iria querer sair?”
Um ano agradecendo os colaboradores
Mackey contou que escolheu encerrar seu ciclo na Whole Foods passando o último ano pelas cidades em que a empresa está presente para agradecer pessoalmente aos colaboradores. “Em muitos sentidos foi como um grande ato de amor”, afirmou. Nesse período, ouviu histórias de centenas de funcionários, muitos deles imigrantes, que entraram na companhia, cresceram, economizaram e investiram, mudando sua trajetória pessoal e familiar, o que trouxe a real percepção do impacto e do legado da empresa que criou.
Love.Life é seu legado
Mackey afirmou que não construiu a Love.Life por dinheiro, já que diz não precisar mais dele. Mas que para ele não fazia sentido continuar vivendo apenas usufruindo a vida. Resolveu aplicar todos seus conhecimentos na missão de ajudar milhares de pessoas a viver vidas mais saudáveis, vitais e longevas.
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