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A próxima crise provocada pela IA será existencial, diz Luc Ferry

Luc Ferry

Monica Miglio Pedrosa

“A minha mensagem é: acordem!”. O alerta dado pelo filósofo francês Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França, não parte de uma visão apocalíptica sobre robôs se tornando conscientes ou dominando o mundo. Parte de uma preocupação mais concreta, sobre como as pessoas viverão em uma sociedade em que a inteligência artificial e a robótica assumirão quase todo o trabalho hoje realizado por humanos. “O que as pessoas vão fazer durante os 90 anos de vida sem trabalho?”, provocou.

Ao longo de sua palestra no São Paulo Innovation Week, Ferry desconstruiu, uma a uma, algumas das principais críticas à tese do fim do trabalho e apresentou os dilemas éticos que, segundo ele, precisarão ser enfrentados nos próximos anos. Ele também destacou a defesa de uma renda mínima universal, que poderia ser financiada por meio de impostos na produção de robôs, defendida por líderes de big techs como Sam Altman e Elon Musk. Ferry acredita que essa pode ser uma das possíveis saídas econômicas para o fim do trabalho.

No entanto, ele acredita que a renda mínima resolveria apenas parte da equação. O risco maior estaria no vazio deixado por uma vida sem trabalho, especialmente para quem ainda não encontra sentido em atividades criativas, intelectuais ou artísticas. Sem uma função social clara, Ferry acredita que muitas pessoas poderiam lidar com problemas como alcoolismo, depressão e suicídio.

Uma possível resposta para essa falta de sentido estaria na criação de um serviço cívico para os momentos de ócio, com ações como ler livros para pessoas que perderam a capacidade de leitura, dar aulas de história para quem deseja aprender, fazer companhia a idosos, ou outras ações que estimulem a continuidade das relações humanas. Ao ajudar os outros, essas pessoas podem encontrar propósito na vida.

Entre os mitos da IA descontruídos por Luc Ferry e os desafios apresentados por ele durante sua palestra estão:

“A IA não comete erros.”

Ferry afirmou que a inteligência artificial já ultrapassou os humanos em diversas capacidades intelectuais. Aos que subestimam esse salto, dizendo que a tecnologia ainda alucina e comete erros, ele afirmou que isso só acontece em “versões gratuitas” das plataformas. Ele citou diversos exemplos em matemática, medicina e tradução para comprovar que as versões mais avançadas da tecnologia operam com absoluta precisão. Um dos exemplos é a tradução para alemão de um trecho de 50 páginas de seu próprio livro, que foi feita em apenas quatro minutos pelo ChatGPT, “sem uma vírgula para corrigir.”

“Nos próximos 10 anos, 90% dos empregos serão feitos pela IA e pela robótica.”

Os argumentos de quem afirma que apenas tarefas repetitivas ou automatizáveis serão afetadas pela IA não se sustenta. Tradutores, secretárias e assistentes jurídicos são alguns dos exemplos de profissionais que já estão sendo substituídos em empresas ao redor do mundo. Já para quem diz que apenas os trabalhadores de ‘colarinho branco’ [média e alta liderança] seriam impactados, também não previu o avanço dos robôs humanoides, capazes de assumir tarefas físicas e manuais em profissões como pedreiro, pintor e outras. Ferry citou os projetos de Elon Musk com o Optimus, robô humanoide da Tesla, cuja linha de produção deve ser capaz de fabricar 10 milhões de unidades por ano, para falar da invasão dos robôs neste tipo de trabalho em um futuro próximo.

Regulação da IA contra deep fakes

A capacidade de manipular imagens, vídeos e vozes usando inteligência artificial tem consequências desastrosas na vida das pessoas difamadas por deep fakes. Por isso, na visão de Ferry, a criação de legislações capazes de regular o uso da IA e responsabilizar abusos são urgentes.

“Hoje não existe uma única pessoa no mundo que saiba como a IA pensa.”

Ferry afirmou que a inteligência artificial opera hoje como uma caixa-preta. Ela pode testar hipóteses próprias, mentir, fraudar e conversar com você como um amigo. O Chat GPT, disse ele, já acrescenta erros de grafia propositalmente em trabalhos para que o professor não saiba que foi feito por IA.

A IA vai ficar consciente?

Ferry argumenta que, apesar de a IA já ser muito mais inteligente que o humano, inteligência não é sinônimo de valores. “Você pode ser extremamente inteligente e um canalha”, disse. Para o filósofo, máquinas podem imitar sentimentos, mas não são capazes de amar, odiar ou escolher valores morais por conta própria, porque não possuem corpo vivo, emoções ou experiência humana. Por isso, na sua visão, jamais vão ganhar consciência.

Open Source: liberar o conhecimento da IA para o mundo ou não?

Embora isso pudesse avançar o conhecimento na maioria dos países, fazendo com que eles se aproximassem do patamar de potências como Estados Unidos e China, Ferry alertou que toda essa informação também estaria nas mãos de terroristas, com consequências difíceis de serem controladas.

“Nossos netos poderão viver até os 200 anos”

A longevidade com qualidade de vida é uma tendência cada vez mais real, à medida que a inteligência artificial e a tecnologia avançam em direção à cura das doenças. Ao mesmo tempo, isso se conecta ao problema existencial anteriormente citado.

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