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“O inimigo não é a tecnologia, somos nós”, diz Joel Mokyr, Nobel de Economia

Monica Miglio Pedrosa

Entusiasta dos avanços tecnológicos e científicos, o historiador econômico e ganhador do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025, Joel Mokyr, foi o primeiro keynote speaker internacional a subir ao palco do Febraban Tech, principal evento de tecnologia e inovação do setor financeiro.

Durante sua palestra, ele falou sobre como as inovações e o progresso tecnológico impulsionaram a ciência nos últimos séculos e afirmou que os maiores riscos a esse avanço vêm da forma como a sociedade, os governos e as instituições reagem às mudanças. “O inimigo não é a tecnologia, somos nós”, afirmou.

Para explicar como a ciência e a tecnologia vêm operando em um ciclo de retroalimentação positiva, ele citou ferramentas como o telescópio, o microscópio, o raio X e a bateria voltaica, que ampliaram os limites da observação e abriram caminho para avanços na física, na química e na biologia. O movimento agora ganha um novo impulso com a inteligência artificial, definida por ele como um “fabuloso assistente de pesquisa” capaz de acelerar descobertas e aplicações na regeneração celular, na medicina e na fusão, com potencial para produzir energia limpa.

“Se as perspectivas são positivas, o que poderia dar errado?”, indagou Mokyr. Em sua visão, são seis as ameaças ao progresso tecnológico e científico:

1) Instituições: sua flexibilidade e adaptação às mudanças costumam levar tempo, enquanto a IA avança de forma acelerada;

2) Fragmentação global: embora possa estimular a competição pelo avanço da ciência, também pode provocar conflitos mundiais como as duas grandes guerras;

3) Nacionalismo econômico: políticas agressivas de proteção dos mercados, como o aumento de taxas, elevam custos e desaceleram o progresso;

4) Populismo: tende a desvalorizar a ciência, a academia e os intelectuais, além de ameaçar a liberdade de pesquisa e o livre mercado de ideias;

5) Xenofobia: movimentos contrários aos imigrantes são sustentados principalmente por preconceito racial e desinformação, e não por questões econômicas reais. O historiador acredita que os imigrantes têm um papel relevante no avanço tecnológico e na formação de empresas inovadoras.

6) Desinformação: a proliferação de informações falsas ou deliberadamente enganosas compromete a confiança nas evidências científicas, nas instituições e nos especialistas, a exemplo do recente movimento antivacinas.

Ao ser questionado sobre a possível transição da liderança tecnológica dos Estados Unidos para a China, Mokyr afirmou não acreditar que o conhecimento científico possa permanecer “trancado” em um único país. “Eu não me importo com quem seja o líder, desde que o trabalho esteja sendo feito”, concluiu. Para o historiador, enquanto o progresso continuar ocorrendo em algum lugar do mundo, a tecnologia acabará se difundindo entre os países pois é da natureza do conhecimento científico ser reconhecido globalmente.

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