China lidera corrida global por tecnologias quânticas

Monica Miglio Pedrosa
Com quase US$ 18 bilhões em investimentos público e privado em 2024, a China lidera a corrida global pelas tecnologias quânticas, de acordo com levantamento do European Center for International Political Economy (ECIPE). Logo atrás aparecem a União Europeia (UE), com quase US$ 12 bilhões investidos, e os Estados Unidos, com pouco mais de US$ 10 bilhões. No país norte-americano, os recursos privados são superiores aos públicos, enquanto na China e na UE predomina o financiamento governamental.
Os dados foram apresentados pelo físico e professor emérito da UFRJ, Luiz Davidovich, durante palestra no último dia do Febraban Tech 2026. O especialista apontou que o interesse chinês está na comunicação quântica, área em que o país já opera por satélite. China e África do Sul estabeleceram uma conexão quântica intercontinental que é a maior do mundo até o momento, com 12.900 km de distância.
Outra frente que já avança em aplicações práticas é a dos sensores quânticos. Relógios atômicos atingem níveis inéditos de precisão, sensores magnéticos auxiliam na produção de imagens de alta precisão do cérebro e gravímetros conseguem localizar lençóis subterrâneos de água e reservas minerais sem a necessidade de escavar o solo. Acelerômetros quânticos também já estão sendo testados pela Força Aérea dos Estados Unidos e podem permitir que veículos determinem sua posição sem depender do GPS, recurso relevante para submarinos nucleares e futuras missões interestelares.
A computação quântica, por outro lado, permanece em estágio experimental. Um dos principais desafios está em combinar qubits físicos, ainda instáveis e sujeitos a erros, para formar qubits lógicos confiáveis. Os processadores atuais têm poucas aplicações concretas, como a geração certificada de números aleatórios, e ainda não há previsão para uma máquina de grande escala. “Ainda não é possível prever quando o primeiro computador quântico será construído”, afirmou Davidovich.
Iniciativas brasileiras
O Brasil ainda está distante dessa escala, mas já reúne uma base científica e iniciativas em diferentes regiões. O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Informação Quântica (INCT-IQ) conecta 120 pesquisadores de 26 instituições e já produziu mais de 700 teses e dissertações. A expansão das pesquisas rumo a aplicações tecnológicas práticas fez com que o CNPq expandisse o Instituto em diferentes frentes, sendo o INCT em Dispositivos Quânticos (INCT-DQ), sediado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), local onde Davidovich atua hoje.
No Rio de Janeiro, a Rede Rio Quântica, primeira rede de criptografia quântica do país, realiza testes entre UFRJ, UFF, IME, PUC-Rio e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Outras frentes incluem o Centro Internacional de Computação Quântica, na Paraíba (CIQUANTA-PB), e o QuIIN, centro do Senai Cimatec que conta com investimento de R$ 60 milhões, resultado de uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
Na frente do financiamento, a Finep lançou uma chamada de R$ 300 milhões, que se encerra em 30 de setembro, voltada para tecnologias digitais, que inclui uma linha dedicada à computação, à comunicação, aos sensores e aos materiais quânticos.
O MCTI também anunciou um plano de investimentos de R$ 5 bilhões até 2034. Para Davidovich, esse volume ainda está muito aquém do necessário para colocar o Brasil na disputa com as principais potências. Diante das restrições ao acesso a equipamentos e da diferença de recursos, a cooperação com parceiros internacionais pode ser uma saída para formar profissionais, compartilhar conhecimento e acelerar o desenvolvimento da tecnologia no país.
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