Cibersegurança precisa se antecipar à computação quântica, alerta Radia Perlman

Monica Miglio Pedrosa
Criadora do Spanning Tree Protocol (STP) em 1985, Radia Perlman, engenheira especializada em segurança de redes e Fellow na Dell Technologies subiu ao palco do segundo dia do Febraban Tech para alertar para o perigo dos computadores quânticos na segurança digital. Chamada de “mãe da internet”, Radia explicou que um computador quântico de grande porte poderia descobrir uma chave privada a partir de uma pública, comprometendo os algoritmos utilizados atualmente em processos de autenticação e criptografia na internet.
Segundo a especialista, computadores quânticos não são simplesmente versões mais rápidas dos computadores tradicionais. Eles foram desenvolvidos para resolver problemas específicos e podem ser inferiores em diversas tarefas. A principal ameaça vem do algoritmo de Shor, que, executado por um computador quântico suficientemente potente, poderia quebrar a proteção de muitos dos sistemas de criptografia usados hoje na internet.
Embora ainda não exista um computador quântico com capacidade suficiente para quebrar esses mecanismos, Radia defende que a preparação comece antes que a ameaça se concretize. A comunidade criptográfica já desenvolve algoritmos pós-quânticos, criados para funcionar em computadores convencionais e resistir tanto a ataques tradicionais quanto quânticos. A migração dos padrões atuais para essas novas soluções deverá ocorrer nos próximos anos.
O limite humano da segurança
Enquanto a computação quântica representa uma ameaça futura, outro desafio da segurança digital atual é o fator humano. A própria Radia contou que caiu em um golpe virtual ao tentar renovar sua carteira de motorista pela internet.
Ao fazer uma busca no Google, ela acessou um site que parecia pertencer ao departamento de licenciamento do estado de Washington. A página oferecia serviços de emissão, substituição e renovação da carteira e solicitava informações aparentemente compatíveis com o procedimento, como nome, endereço e dados do cartão de crédito.
Depois de preencher o formulário, ela percebeu que não havia recebido o documento. Os criminosos começaram a fazer cobranças cada vez maiores no cartão, até que o departamento antifraude do banco identificou a movimentação e entrou em contato. O cartão foi substituído e Radia não teve prejuízo.
A experiência mostrou à especialista que todos os protocolos desenvolvidos para proteger a internet podem falhar diante de uma situação cotidiana. O endereço eletrônico parecia legítimo e ela, como qualquer usuário, não tinha elementos suficientes para reconhecer que estava diante de um site fraudulento.
Para Radia, a resposta não está em exigir que todas as pessoas dominem conceitos técnicos ou recebam continuamente novos treinamentos. Os sistemas devem ser projetados para funcionar considerando as limitações de quem os utiliza. “Nós não precisamos de mais treinamento de usuários. Temos que aprender a lidar com as pessoas”, afirmou.
Descentralização não é garantia de segurança
Radia rejeita a crença de que estruturas descentralizadas, como o blockchain, sejam necessariamente positivas e sistemas centralizados, ruins. A escolha precisa considerar o problema, a eficiência e os mecanismos disponíveis para corrigir erros e fraudes, incluindo falhas diante de desconhecimento dos usuários.
Ela usou o Bitcoin para ilustrar essa diferença. Quando alguém é vítima de uma fraude bancária, pode recorrer à instituição. Se uma compra feita na Amazon não for entregue, existe uma empresa responsável por solucionar o problema. Em algumas transações descentralizadas, essa instância de apoio simplesmente não existe.
A IA é “fantástica e assustadora”
Ao falar sobre a inteligência artificial, Radia destacou a dificuldade de controlar tecnologias que podem ser usadas tanto para produzir benefícios quanto para causar danos. Ela definiu a IA como “fantástica” e, ao mesmo tempo, “assustadora”.
Em sua avaliação, seria positivo se governos e empresas responsáveis concordassem em limitar o uso da tecnologia para finalidades prejudiciais. O problema é que pessoas ou instituições mal-intencionados podem ignorar as regras e continuar desenvolvendo aplicações secretamente, inclusive armas com capacidade de provocar danos extremos.
Radia não apresentou uma fórmula definitiva para a regulamentação. Defendeu que governos, bancos e empresas façam o possível para reduzir os riscos, mas reconheceu que a autorregulação não impede necessariamente o avanço de projetos clandestinos. O primeiro passo é reconhecer a existência do perigo.
Nova geração e o mercado de trabalho
Os riscos da IA também chegaram ao mercado de trabalho. Radia contou que professores de ciência da computação de seu círculo relatam dificuldades crescentes dos recém-formados para conseguir emprego. Ela se mostrou cética diante do argumento de que todos os postos eliminados serão automaticamente substituídos por novas ocupações. A IA também contribui para avanços relevantes, como o desenvolvimento de medicamentos, mas Radia questiona se isso será o suficiente para compensar as perdas.
A preocupação aumenta porque a tecnologia também interfere na formação dos futuros profissionais. Segundo Radia, parte dos estudantes está genuinamente interessada em entender a IA, enquanto outros a utilizam apenas para realizar tarefas. Como professora, ela percebe o uso da ferramenta quando os trabalhos apresentam terminologias que não foram ensinadas em sala. Nas provas realizadas sem equipamentos eletrônicos, a falta de conhecimento de alguns alunos é visível.
Novamente, ela diz não acreditar em uma saída simples para esta situação. Os alunos interessados continuarão buscando conhecimento, mas outros poderão concluir sua formação sem dominar os conteúdos fundamentais. O resultado pode ser uma geração que enfrenta a redução das oportunidades de entrada no mercado de trabalho e a perda das experiências que permitiram desenvolver competências para assumir funções mais complexas.
Ambientes tóxicos comprometem a inovação
Radia desenvolveu sua carreira sendo, muitas vezes, a única mulher entre profissionais de tecnologia. Uma vez, recebeu um convite para uma vaga que destacava principalmente o interesse em contratá-la por ser uma mulher e uma liderança feminina. Ela queria ser reconhecida por suas competências técnicas.
Nas empresas, um dos principais problemas está nas pessoas que se autopromovem, apropriam-se das ideias dos colegas ou adotam comportamentos agressivos. Se os líderes reconhecerem esses comportamentos como positivos, eles tendem a ser repetidos e contaminam a capacidade coletiva de aprender a inovar. Os ambientes tóxicos, afirmou, comprometem a inovação.
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