Taxonomia sustentável traz transparência e aumenta confiança dos investidores na transição energética

Monica Miglio Pedrosa
Mais transparência para o mercado, menor risco de greenwashing e maior confiança dos investidores, com potencial para atrair capital estrangeiro para a transição energética brasileira. Esses são os principais benefícios apontados por especialistas do setor financeiro para a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB), sistema oficial instituído em outubro de 2025 que define, com base em critérios científicos, quais atividades econômicas, ativos e projetos podem ser considerados sustentáveis. O tema foi abordado no painel “Transition Finance: capital, competitividade e a transição energética” durante o segundo dia do Febraban Tech 2026.
Para contribuir com essa discussão, a Febraban lançou recentemente uma nova versão de sua taxonomia sustentável, alinhada ao modelo nacional. A federação atua nessa agenda desde 2015, quando criou uma classificação para analisar o crédito sob a ótica ambiental, posteriormente ampliada para incorporar critérios climáticos. Segundo Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco, a construção dessa nova versão contou com a participação dos bancos, e o Itaú também integra o projeto-piloto que testará os critérios na economia real.
Para Camila Ramos, CEO e fundadora da CELA (Clean Energy Latin America), a linguagem comum pode ampliar o grupo de financiadores para além dos investidores especializados em determinados setores. A capacidade de aplicação, porém, será determinante para o sucesso da taxonomia. Rafaella Dortas, sócia e responsável por ESG do BTG Pactual, defendeu um sistema robusto, mas que não imponha processos excessivamente complexos a bancos e empresas. “Taxonomia boa é taxonomia aplicável”, resumiu Priscila Specie, assessora sênior da diretoria de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança do Clima do BNDES.
A aplicação dos critérios também depende da qualidade das informações fornecidas pelas empresas. “Levantamento do Pacto Global aponta que menos de 20% das empresas brasileiras fazem inventário de suas emissões. Esse é um fator crítico para alavancar projetos de transição energética”, afirmou Luciana.
Ao analisar o pipeline de projetos para financiamento pelo Eco Invest Brasil, programa do governo federal para atrair investimentos privados para projetos sustentáveis, o Itaú enfrenta dificuldades para obter os dados necessários das empresas. Ainda assim, o banco já superou R$ 600 bilhões rumo à meta de destinar R$ 1 trilhão à transição até 2030.
Baixa bancabilidade limita financiamento
A ausência de dados também compromete a bancabilidade das empresas e dos projetos. Priscila apontou essa questão como um dos principais entraves ao avanço da transição. Rafaella e Camila também citaram a escassez de capital paciente, modalidade de investimento de longo prazo, e a necessidade de avanços no arcabouço regulatório como outros desafios para destravar projetos sustentáveis.
Rafaella contou que o BTG Pactual realiza testes de estresse climático para avaliar como diferentes cenários podem afetar os ativos financiados. “Nossa carteira de crédito já reúne R$ 30 bilhões em operações consideradas sustentáveis. Também destinamos outros R$ 5 bilhões a iniciativas de recuperação de áreas degradadas, dos quais aproximadamente 15% já foram alocados”, afirmou. O desafio, segundo a executiva, continua sendo encontrar empresas preparadas para receber esses investimentos.
Blended finance acelera a transição verde
A ampliação do Fundo Clima nos últimos anos mostra como a combinação de recursos públicos, privados e concessionais pode acelerar a transição. “O fundo passou de R$ 300 milhões investidos até 2022 para R$ 27 bilhões em 2026”, relatou Priscila. A executiva lembrou que, ao longo de seus 74 anos, o BNDES atravessou diferentes ciclos de investimento em energia renovável. Segundo ela, o capital concessional, os investimentos públicos, privados e mistos atuam de forma complementar para alavancar a transição verde. O próximo movimento é ampliar o uso de participação acionária.
Entre os projetos apoiados pelo BNDES, Priscila citou uma biorrefinaria na Bahia para produzir combustível sustentável de aviação, o SAF. O banco de fomento aportou inicialmente R$ 500 milhões no projeto, que reúne ainda recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), do IFC (International Finance Corporation) e de outras instituições financeiras nacionais e internacionais “Precisamos de diversos tipos de blended finance, mas também de diversos atores engajados nesses projetos”, afirmou.
Já Camila Ramos, do CELA, acredita que os PPAs (Power Purchase Agreements), contratos de compra de energia de longo prazo, têm sido um dos instrumentos mais eficazes para viabilizar projetos de energia sustentável. “De 2019 a 2025 os bancos financiaram R$ 231,7 bilhões em projetos de energia renovável eólica e solar, sendo 214 deles firmados com contratos de longo prazo”, explicou, a partir dos dados extraídos do levantamento feito pelo instituto.
Para Camila, um setor que ainda não destravou é o de hidrogênio verde. Embora tenha um futuro promissor e seja de fácil descarbonização, a tecnologia ainda enfrenta desafios de competitividade. No segmento de fertilizantes, em que o Brasil depende de importações e enfrenta custos logísticos elevados, um dos entraves é a ausência de contratos de compra de longo prazo, já que as negociações costumam ocorrer safra a safra.
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